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Teria sido legal se Hannibal Lecter tivesse aparecido nesse último episódio para fritar literalmente os cérebros de todos os personagens de Psycho-Pass 2, mas muita coisa teria sido legal em Psycho-Pass 2 se não tivesse sido tão ruim. Quem fritou cérebros (literalmente, ou cozinhou, derreteu, enfim) foi Sybil. Parte de seus próprios cérebros. Olha, se o sistema tinha mentes criminosas tinha mais é que se livrar delas mesmo, e me impressiona não tê-lo feito antes. Mas os cérebros usados para a matriz de Sybil não são todos criminosos para começo de conversa? E incorruptíveis, apesar disso?

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Psycho-Pass 2 não tem uma lógica consistente, nem em si mesmo nem com a série que o antecede, então fazer esse tipo de pergunta não é certo nem errado, é apenas inútil. O sistema construído por mãos humanas, com cérebros humanos mas que, não obstante, era lógico até demais e esse era seu maior defeito, na segunda temporada ganhou um “filho” e se tornou demasiadamente humano. Alguém por aí pode achar que a ideia da segunda temporada é justamente mostrar como Sybil na verdade é humano, portanto imperfeito. O problema dessa argumentação é que Sybil nunca foi perfeito. Ele era apenas uma máquina programada para maximizar a felicidade do maior número de pessoas possível, mesmo que para isso tivesse que sacrificar algumas pessoas, sacrificar a liberdade ou sacrificar a própria justiça. Sybil da primeira temporada era falho, se a intenção era mostrar o quão falho ele poderia ser não havia necessidade alguma de torná-lo humano. Até porque a resolução final o desumanizou de novo, retornando o anime a um estágio semelhante ao que estava antes de ter começado. É como se tivessem pedido ao Tow Ubukata que escrevesse essa segunda temporada apenas para explicar como Sybil começou a fazer leituras de psycho-pass de grupos de pessoas, e ele entregou exatamente isso, apenas isso, e para tanto inventou uma história de conspirações complexas e violência gráfica exagerada.

Tsunemori foi uma protagonista decepcionante, protagonizando a fila de personagens decepcionantes que foi essa segunda temporada. Ela quase nunca foi ativa durante a série, o tempo todo chegava atrasada, tinha que improvisar, era a última a descobrir. Mas tornou-se dotada de uma capacidade de raciocínio paranormal, daquelas que vemos em histórias ruins de detetive onde nada que o detetive conclui faz sentido mas ele narra tudo com enorme gravidade e confiança dando a impressão de sabedoria. Na verdade, o autor apenas não soube explicar como o detetive chegou àquela conclusão. E assim foi com Tsunemori. E quando a forçada era grande demais aí aparecia o Fantasma da Série Passada, lembrando Tsunemori de algo que ela supostamente esqueceu e que vai ajudá-la a resolver a situação em que se encontra. Só para completar a piada, se o Kougami é o Fantasma da Série Passada, lembrando-me de uma época em que eu gostava de Psycho-Pass, a própria Tsunemori do primeiro episódio é o Fantasma da Série Presente, porque ela mostrou que tinha potencial e sabia ainda fazer uma boa série, e o Sistema Sybil é o Fantasma do Filme Futuro, agora que está com planos malignos de exterminar populações assim que for capaz de medir o estado mental coletivo de grandes sociedades e sabendo-se pelo trailer que o filme trata-se justamente de exportação para outros países de maquinário controlado por Sybil fica subentendido que Psycho-Pass terá sido abandonado pelas boas ideias se continuar nesse rumo.

E esse julgamento de psycho-pass coletivo, hein? Bom, a bola estava cantada desde que foi estabelecido o paralelo entre Kamui e Sybil, seres formados por múltiplos cérebros. Mas ainda que o anime insista na “consequência” que trará à sociedade Sybil tornar-se capaz de fazer esse tipo de julgamento, eu não enxergo consequência nenhuma. Kamui e Sybil certamente possuem cérebros de várias pessoas, mas ainda são apenas um indivíduo, com todos seus cérebros trabalhando juntos para um objetivo só. Uma sociedade não é assim, mesmo do ponto de vista das culturas do extremo oriente onde o coletivo é realmente priorizado sobre o individual. Mesmo nessas sociedades, mesmo com essa cultura, com tudo o que ela tem de ruim e de bom, cada pessoa é um indivíduo livre-pensante. Não há conexão entre cérebros, pensamentos, ideias ou sequer objetivos e desejos. Fazendo um esforço, um exercício mental, posso entender esse como sendo o próximo passo na evolução de Sybil, mas não vejo porque ele seja obrigado a dar esse passo. O Sistema relutou tanto em ser capaz de julgar um indivíduo composto, por que iria querer tanto assim tornar-se capaz de julgar uma sociedade? Se Psycho-Pass 2 foi feito para explicar isso, fracassou miseravelmente. A não ser que assumamos que Sybil é naturalmente mau, o que contradiz a primeira temporada. Sybil é falho, mas não é bom nem mau: é apenas lógico demais.

Não vou dizer, contudo, que Psycho-Pass 2 foi completamente horrível. Eu me diverti (parte do tempo), algumas das questões e mistérios propostos foram interessantes (mas não bem executados), a animação foi competente, enfim. Verdade que mesmo se o anime tivesse sido muito bom eu ainda teria me frustrado em uma coisa: não teve Kougami. A Tsunemori simplesmente não funciona sem um personagem como o Kougami ao lado dela. Enfim, nem precisaria mudar muito o enredo para ser uma boa história: eu cortaria o subenredo sobre o Togane, que é desnecessário (serviu apenas para corromper a Shimotsuki, o que não serve a nenhum propósito), não teria tantos personagens (talvez uma segunda unidade, no máximo, mas acho que daria pra passar sem) e teria feito um Kamui mais sutil e menos super-humano. E o Kamui estava mesmo tentando ser sutil a maior parte do tempo, não seria perda nenhuma torná-lo um personagem mais parecido com o Makishima que age nas sombras e desaparece quando tudo começa a dar errado. E claro, não teria feito Sybil humano. O núcleo do enredo seria o mesmo: Kamui quer julgar Sybil pelo que fez a ele, e por isso precisa forçá-lo a ser capaz de julgar indivíduos compostos. Acho que é porque esse fio condutor em si é bom e porque gosto dos antigos personagens (dos novos eu só queria ter gostado da Shimotsuki) que ainda considero Psycho-Pass 2 mediano, e não horrível como posso ter dado a entender em alguns momentos.

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