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Eu queria ser mais inteligente. De verdade. Acho que em termos gerais estou entendendo esse anime. Certamente estou entendendo sua história, e consigo mais ou menos compreender o que ela quer dizer. Mas é isso mesmo? Adoro Yurikuma, mas o esforço intelectual que estou dedicando à análise de seus episódios e seu enredo em geral vem sendo grande e não sei dizer se está sendo suficiente. Talvez eu tenha sido arrogante demais ao escolher escrever sobre esse anime. Com isso nem quero dizer que ele seja muito complexo ou muito inteligente, mas sim que ele é suficientemente fora do comum para eu não conseguir dizer sequer se ele é muito complexo ou muito inteligente. Sobre esse episódio, a linha geral eu entendi: o último conflito pré-clímax foi resolvido e as duas protagonistas foram colocadas em posição para o grande final. A história em si foi simples também, e a resumirei noutro parágrafo. Tenho algumas digressões a fazer sobre algumas coisas, mas o mais importante eu não sei dizer se entendi: sobre o que se trata Yurikuma Arashi? Não é só uma história de amor, obviamente. Tenho quase certeza que é uma crítica à forma como a sociedade trata mulheres e sua sexualidade. Mais sobre isso noutro parágrafo também. Mas não estou convencido, ainda acho que estou deixando escapar algo fundamental. Imploro para que faça qualquer comentário que achar pertinente nesse artigo. Eu realmente estou buscando entender, talvez você possa me ajudar.

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Resumo do episódio: Ginko se considera cúmplice do assassinato de Sumika e por isso foi acusada pela Lulu. A ursa sabia que Yurizono era uma ursa também e planejava devorar Sumika, e por isso quis avisar a garota. Mas sentiu ciúmes da relação dela com Kureha e no final só conseguiu assistir. Eu acho que chamá-la de cúmplice é um pouco forte demais, mas entendo porque ela se sinta culpada. E como ela havia dito no episódio anterior, aceitou de peito aberto o balaço de Kureha. Ela despertaria depois além da Muralha e encontraria-se com Yurizono, que se disse a representação do desejo de Kureha (mais sobre isso abaixo). No final ela é tentada por Yurizono e cede, a ursa morta entra no corpo de Ginko e ela se levanta com olhar vermelho e decidida a devorar Kureha. Enquanto isso uma nova cerimônia de exclusão é realizada na sala, dessa vez com Kureha presente, e ela fica confusa se vota em Ginko ou não. Claramente ela atirou na ursa no calor do momento mas ainda não sabe se aquilo foi o certo a se fazer. Kureha descobriria depois do pior jeito que a diretora Yurika também era uma ursa. A diretora a ataca, a estava despindo e em forma humana mesmo, mas tomou um tiro fatal pelas costas de garotas da classe da Kureha. Yurika volta a sua sala em forma de urso, lamenta ter falhado, e então Reia aparece para confortá-la em seus últimos instantes antes de morrer (mais sobre isso abaixo). Yurika conta a ela sobre ter roubado as páginas finais do livro que Reia escreveu, e Kureha encontra essas páginas em uma das gavetas de Yurika e as lê, acreditando que essas páginas devem descrever o futuro de sua relação com Ginko, e fica assustada com o que vê.

Antes de falar sobre o episódio em si, vou explicar porque acho que esse é um anime especificamente sobre a sexualidade feminina. Vendo o lesbianismo correr solto, principalmente na escola, é fácil achar que é um anime que defende a homossexualidade de forma geral. Não me entenda mal, e definitivamente não é o caso dele não cobrir também a homossexualidade, mas não é um anime sobre isso. É um anime só com mulheres, sobre mulheres, então é apenas natural que suas relações sexuais e amorosas sejam com outras mulheres. O homem, como heterossexual ou homossexual, é excluído do anime por um motivo muito claro: não interessa que ele apareça. Ou melhor, ele interessa enquanto ele é observador e juiz, porque é isso que os três ursos homens da história fazem. São eles quem, no fim das contas, aprovam ou reprovam as expressões de sexualidade feminina mesmo que eles absolutamente não estejam envolvidos. Eles representam a sociedade também, enquanto entidade julgadora, e isso só reforça meu argumento: a sociedade criticada em Yurikuma é a sociedade machista. Apesar dos relacionamentos serem apenas lésbicos, é óbvio que com essa construção o anime também defende as expressões de sexualidade heterossexuais das mulheres. Ele só não exibe relacionamentos assim (embora haja alguns implícitos na história) porque fez a escolha de ter praticamente apenas mulheres para defender seu ponto, e imagino que fosse mesmo bem mais difícil defender a sexualidade especificamente feminina mostrando ou sugerindo o sexo heterossexual.

De volta ao episódio, vou tratar agora de Ginko e sua conversa com Yurizono. Aquela era mesmo Yurizono? Eu defendo que não. Ginko esteve esse tempo todo se sentindo culpada por ter cedido ao ciúmes e permitido que Yurizono devorasse Sumika. Ciúmes esse que se originava em seu desejo de ter o amor de Kureha apenas para si. Assim, Yurizono ali foi uma representação do estado mental da própria Ginko sucumbindo finalmente ao desejo depois de tomar um tiro de Kureha. Foi a forma encontrada por ela de lidar com essa culpa e com tudo o que vinha sentindo.

Agora sobre os momentos finais de Yurika. Bem, de novo eu acredito que quem ela viu (Reia, no caso) não estava ali de verdade. Reia já apareceu adolescente em flashback, e ela era basicamente idêntica à Kureha hoje. Então, eu acredito que quem Yurika viu foi mesmo a Kureha, e ela acreditou que fosse a Reia em seus últimos delírios. Não sei dizer como a Kureha reagiu, contudo, já que a cena é vista do ponto de vista da diretora e ela pode muito bem ter alucinado tudo aquilo depois de a ver. Mas pode também ser o caso de Kureha ter dito coisa ou outra para aplacar a tristeza da ursa moribunda, que bem ou mal era alguém em quem ela confiava e de quem gostava, alguém de quem ela dependeu desde que sua mãe morreu. Nem seria de estranhar um comportamento condescendente de Kureha para com uma ursa assassina (e assassina de sua mãe, ainda por cima), visto que ela já era uma amiga de ursas desde criança e que mesmo depois de ouvir da boca de Ginko que ela era cúmplice no assassinato de Sumika ela ainda queria reencontrá-la e ainda queria entendê-la, conhecê-la melhor. E ser a Kureha naquela cena, e não uma alucinação sem ninguém na sala, explica como a garota pôde encontrar o resto do livro: a Yurika contou a ela.

Um detalhe desse episódio é o origami que Yurika faz. Posso dizer que finalmente entendi a oposição entre pássaros e lírios que aparecem na escola o tempo todo. Não garanto que entendi totalmente, porque isso pode ser só a forma de representação de algo que guarda um significado ainda anterior, mas a forma pelo menos eu entendi. Eu já soube fazer muitos origamis, hoje me lembro de poucos, mas alguns dos que eu fazia (e acho que ainda consigo fazer) eram o grou e o lírio (igualzinho o que a Yurika fez). A dobra base de ambos é a mesma, mas a partir dela o lírio se faz para um lado, e o grou para o outro. Vê? Oposição. O lírio claramente representa a sexualidade feminina (e não apenas a homossexualidade, como já defendi parágrafos acima), enquanto o grou se opõe a ele. O grou é o símbolo da escola, então suponho que isso signifique que a própria escola, enquanto instituição da sociedade (sociedade machista; lembre-se que o antigo diretor, morto por Yurika, era um homem), oprime a expressão da sexualidade feminina. A própria Yurika trazia esse símbolo em seu peito, e mais do que apenas o símbolo da escola de onde ela era diretora, creio que isso demonstre o quanto ela própria estava determinada a oprimir a expressão de sexualidade. E por conta de seus ideais sobre pureza (adquiridos de um homem que partiu seu coração) ela realmente defendia essa opressão. Em particular no caso da Kureha, que ela queria para si como uma noiva imaculada.

O próximo episódio deve ser o começo do fim. Ginko já chegou na tal porta da amizade descrita no livro, e Kureha terá que decidir se irá para lá ou não, e ela está assustada com o que vem depois disso. O fato de Ginko ter cedido aos seus desejos e agora desejar devorar Kureha deve ser só parte do que explica porque ela está certa em ter medo.

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