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Memória está no título do anime, e é a forma especial com a qual andróides giftia obtém memórias que permite que eles tenham personalidade e sentimentos. Conhecer é palavra-chave, portanto, e para fazer um bom trabalho no Serviço de Término (acho esse nome melhor, mais descritivo e que diz melhor o que eles fazem do que “Serviço Terminal” ou “Terminal Service“; japoneses não sabem inglês direito e usam ele de um jeito torto só para ficar mais bonito, traduzir isso literalmente nem sempre faz sentido) os parceiros precisam se conhecer. Robôs são ferramentas adaptáveis e de processamento rápido, então a parte mais complicada é o ser humano conhecer direito o seu robô. Nesse episódio, Tsukasa tenta, com sucesso apenas mediano, conhecer Isla melhor. E eu sei que é implícito que meus textos conterão spoilers, mas reforço o aviso: a menos que não se importe com spoilers importantes, deixe para ler esse artigo só depois de ter assistido o episódio.

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Em termos narrativos, foi um episódio truncado. Trocas bruscas e constantes de cena, um novo e irritante personagem, mais novos personagens, alguns detalhes sobre as operações, e um único caso de recuperação de giftia que não deu nem um pingo de emoção. O episódio certamente valeu muito mais, como não poderia deixar de ser, pelas informações reveladas. Primeiro de tudo esse detalhe explicado no parágrafo introdutório: as duplas precisam conhecer bem um ao outro para conseguirem trabalhar direito, segundo a Michiru. Ela diz isso para Tsukasa porque ele não está conseguindo obter sucesso no trabalho que ela delegou a ele, que é supostamente de baixo nível de dificuldade (e é mesmo, viu). Ela assume que o Tsukasa não está conseguindo se entender com a Isla porque não está tentando entendê-la, e Isla tenta defender Tsukasa mas a conversa não vai muito longe.

Na verdade, o problema todo foi que em uma abordagem a um trabalhador de oficina mecânica que tem um giftia trabalhando com ele a Isla acabou fazendo uma péssima escolha de palavras e soou ameaçadora, o que levou dono e andróide a fugirem. Isla ainda apresentou outros defeitos logo em seguida, como não compreender quando Tsukasa a perguntou justamente porque foi agressiva e tropeçar quando deveria ter saído correndo. Tsukasa fica frustrado mas não revela nos relatórios que a culpa é da Isla; talvez porque em parte ele realmente se sinta culpado pelos erros dela. E claro que quem fica mais frustrada ainda é a própria Isla. Tsukasa descobre mais tarde que a andróide está recorrendo a uma bateria de exercícios todos os dias, e vislumbra de relance os resultados dela: habilidades físicas cada vez piores. Quando ele conversa com ela depois, ela diz que só está fora de ritmo por ter ficado tanto tempo fora das ruas e que por isso está treinando. Tsukasa por sua vez se propõe a trocar de lugar com ela na hora de fazer a abordagem aos clientes, pelo menos até que ela “recupere a forma”.

A partir daí ele se dedica a estudar métodos de abordagem e criar seu próprio manual de procedimentos, o que não passa despercebido pelo funcionário novo que aparece no departamento, que na verdade é velho e estava apenas de férias no episódio anterior: Yasutaka Hanada. Um homem com aparência e modos de quem é mais experiente e já viu de tudo por ali, e também de quem é mulherengo, o que deve explicar pelo menos em parte porque a Kazuki está sempre irritada com ele. A própria Kazuki já trabalha ali há 10 anos, o Yasutaka deve ter tempo de casa similar, então creio ser lógico que eles já tenham visto alguns giftias próximos chegarem ao limite de 9 anos. O jeito rígido de Kazuki, preocupada com Isla em particular e com andróides em geral (foi ela quem estipulou as regras para abordagem e determinou que os sentimentos dos giftias sejam levados em conta, nenhuma outra unidade semelhante no mundo trabalha dessa forma, segundo Michiru), e o jeito meio desleixado e desprendido do Yasutaka podem ser resultado de terem passado por esse tipo de experiência. A própria Isla provavelmente já viu isso acontecer não só com os andróides que ela recolhe rotineiramente, mas com um companheiro de trabalho. Talvez ela própria tenha apagado as memórias de alguém com quem conviveu durante anos.

De todo modo, como eu disse, Yasutaka reparou o esforço de Tsukasa, e estranhou quando o rapaz disse que estava querendo ajudar a Isla enquanto ela não recuperava sua boa forma. Yasutaka argumentou que embora sejam em quase tudo muito parecidos com seres humanos, giftias não esquecem de nada, jamais, e isso inclui habilidades e treinamentos pelos quais já tenham passado. A implicação disso é óbvia: se Isla perdeu uma capacidade que tinha antes, não foi por falta de treino ou por esquecimento. É por defeito e limitação tecnológica. Ela jamais irá se recuperar. Tsukasa acreditou rapidamente nisso como quem tivesse percebido algo óbvio, mas resolveu no fim das contas confiar na Isla. Yasutaka mais tarde conversa com Kazuki e a bomba é revelada: Isla tem apenas mais 2 mil horas de operação. Um pouco menos que três meses, ou uma estação do ano se quiser ser romântico.

Agora está óbvio o que já era provável: Isla não vai durar até o fim, estamos assistindo uma tragédia anunciada. Durante esses três meses, que correspondem no mundo real à uma temporada, vamos acompanhar Isla conforme ela definha, acumula defeitos, como Tsukasa vai lidar com isso, como a própria Isla vai lidar com isso considerando o quanto ela está depressiva. Isla é como um profissional que lida com a morte diariamente e, não conseguindo perder a empatia (é comum médicos de emergência começarem a perder a empatia; é um mecanismo de defesa contra um mundo particularmente cruel no qual eles vivem), a andróide começa a vislumbrar a própria morte. Com o agravante que ela é um robô, então deve se perguntar o tempo todo se ela deveria mesmo se preocupar com isso, afinal ela não é humana. Tsukasa quer conhecê-la melhor, mas ele não sabe que tem tão pouco tempo para viver com ela. Talvez ele descubra em algum momento, talvez ele intua. A forma como ele irá reagir será importante para a própria Isla conseguir lidar com isso.

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