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No episódio anterior o professor Souhei disse o que aconteceu, e ele chegou a tal conclusão sem um pedaço de informação crucial que apenas nós, os espectadores, tínhamos (bom, o criminoso também, mas isso não conta né?). Como o anime nunca procurou desenvolver muito seus personagens secundários não é como se houvesse qualquer outro suspeito de todo modo, então o básico em si não é difícil de entender e aceitar, aí que se torne fácil engolir a brilhante dedução do Souhei, embora ela seja aparentemente baseada em avestruzes e não em fatos. Pessoas um pouco mais exigentes ou atenciosas poderiam contudo perceber que o Souhei resolveu uma equação de física quântica sem saber a tabuada, mas o episódio tenta evitar isso mantendo olhos e mentes ocupados com uma longa, confusa, desnecessária e errada explicação sobre sistemas de arquivo e sistemas de vigilância.

Esse episódio foi igual. Dentro do Second Life que a doutora Shiki desenvolveu, ela e Souhei conversam em uma praia virtual, detalhando como ocorreram os assassinatos e porquê. Enquanto isso, a Moe fica de castigo em uma sala trollando no chat até tomar block. A Moe em si já foi uma distração, mas além dela Perfect Insider nos presenteou com outra longa, confusa, desnecessária e errada explicação sobre tecnologia. Os temas desse episódio foram estruturas de dados e malware.

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Quero reclamar primeiro da Moe porque ela foi muito irritante nesse episódio. Ok, eu sei que ela sempre é irritante quando está com ciúme, mas ela não precisa ser irritante e burra também, né? Ela ficou o tempo todo negando que a Shiki fosse a Shiki, ela queria porque queria acreditar que na verdade a filha dela havia executado o plano como originalmente pretendido e estava ali personificando sua mãe morta. Como curiosidade de detetive isso vale, é importante questionar. Mas que pedaço de evidência ela tinha? E por que ela ficava nervosa quando afirmavam o contrário? Eu sei porque ela ficava nervosa. O ciúme ajudou também, mas não foi só isso: ela estava com raiva da Shiki desde que descobriu que ela havia matado os pais sem remorso nenhum. Digo, desde que aceitou né, porque a Shiki já era sabidamente assassina de seus pais. Foi aquela sua conversa com o Souhei que a deixou sensível sobre o assunto. Então, porque ela estava com raiva da Shiki, ela queria que a Shiki estivesse morta e insistia que quem estava ali era a filha dela. Não tem lógica mesmo. Pela lógica, todos os fatos apontavam que aquela era mesmo a Shiki: o cadáver era muito jovem e a Shiki já era uma assassina. Mas Moe estava com raiva, isso me irritou, arrastou o episódio e fez a Moe parecer uma troglodita.

Mas vá lá, é uma coisa que acontece né? Quando alguém fica emocionalmente investido tende a jogar a razão às favas e distorcer os fatos para validar suas próprias posições ou as que lhe sejam mais satisfatórias. Dá para fazer um paralelo com um mundo de espectadores de Perfect Insider. Você é daqueles que está confuso ainda quanto ao quê aconteceu? Eu não estou, mas tenho visto muita gente dizer que está. Minha hipótese é que porque gostamos (eu gostava também, juro) do anime desde os primeiros episódios, nos negamos a aceitar uma resolução tão idiota. Queremos nos sentir confusos, porque o anime nos confundiu esse tempo todo em que estava sendo divertido e que aprendemos a gostar dele. Agora ele está facinho facinho, mas está ruim. Não tem adjetivo melhor: Perfect Insider está ruim. E isso para uma história de mistério significa que, no final, ele será ruim, sem salvação, sem poréns, sem características redentoras (ok, eu gosto do character design, mas ele poderia ser usado em qualquer outra história, de preferência uma história boa). Como eu escrevo esses artigos e sou meio bitolado mesmo, eu percebi já no episódio anterior como o anime era ruim. O encanto se desfez.

Shiki e Souhei no Caribe digital

Shiki e Souhei no Caribe digital

Alguém ainda confuso? Tente assim: tudo o que o Souhei disse é o que está certo. Ignore o blá blá blá da Moe, ela só falou bobagens porque não queria aceitar a verdade. Ignore as explicações técnicas também, elas não são necessárias para entender a história e estão cheias de imprecisões de todo modo. E agora? Bom, resumo: a Shiki teve altos sexos selvagens com o tio e engravidou. Já prevendo que os pais não aceitariam isso, preparou-se para matá-los, e surpresa! eles não aceitaram mesmo e ela os matou. Ela teve o bebê, convenientemente uma garota, confinada em segredo dentro do laboratório. Criou essa criança com a moral torta dela, condicionando-a a se tornar uma assassina como a mãe e matá-la quando completasse 15 anos, como ela própria havia feito com seus pais. O motivo para isso não importa, mas o professor especula que possa ser por sentir-se culpada.

Quando estava chegando o dia prometido, a Shiki começou a treiná-la para substituí-la, e isso incluía entrevistas para a imprensa e conversas com pessoas aleatórias, como a Moe. Nessa conversa com a Moe, a filha da Shiki ficou supostamente abalada com a pergunta “Quem é você?”, já que ela nunca foi ensinada a ter uma identidade própria, e decidiu que não mataria seus pais mas sim se suicidaria. Aí o anime uma hora diz que ela se matou, outra hora diz que a Shiki a matou, mas o resultado é o mesmo e a culpada é a mesma pessoa de todo modo. A Shiki então saiu de lá viva na data planejada, depois de retirar braços e pernas de sua filha, e encontrou-se com o tio no helicóptero, onde subiu e fingiu ter acabado de chegar junto com ele. Depois ela subiu lá de novo e o matou. A invenção do personagem “Miki, irmã da Shiki” fez parte dos preparativos para esse dia, ela nem precisou improvisar muito.

Eu falei no artigo sobre o episódio 3 sobre as dificuldades que implicam ela ter uma gestação e dar a luz sozinha naquele quarto. Resumindo: para ela ter entrado lá sem levantar suspeitas (ou seja, sem barriga nem sequer estranhos enjoos matinais) o julgamento precisa ter sido muito rápido. Ela era muito nova e não tinha um porte físico muito grande, a gravidez era de risco e dar a luz sozinha era absolutamente uma loucura. Ela provavelmente teve sorte de sobreviverem ela e o bebê. Mas vamos dizer que ela não se importasse de morrer de todo modo (não parecia se importar, né), então tá, ela fez tudo isso e deu tudo certo. A Shiki e o diretor terem conseguido criar uma pessoa que não existe (a Miki) soa bastante forçado também. Não que seja necessariamente difícil inventar pessoas que não existem, mas sustentar uma história dessas por anos, quando os pais da suposta pessoa são famosos (bom, famosos por terem sido mortos pela filha pelo menos) e não existe nenhum registro prévio da existência dessa “irmã mais nova” deveria ter despertado a desconfiança de alguém.

Shiki e Moe na cadeia digital

Shiki e Moe na cadeia digital

A parte sobre números em computadores e trojans foi incrível. Foi o que ganhou o título do artigo, aliás. Há limitação de espaço, as variáveis em um programa qualquer têm tamanho limitado, e assim muitos sistemas antigos foram projetados para armazenar apenas dois dígitos nos campos de ano, de forma que a virada para o ano 2000 significaria a passagem de 99 para 0, o que poderia causar grandes problemas. Felizmente nada aconteceu. Essa parte pelo menos da explicação no anime foi correta: o sistema operacional Red Magic do laboratório armazenava um contador de dias em uma variável de 2 bytes, o que dá 16 zeros ou uns, ou 4 dígitos usando notação hexadecimal (que usa os números de 0 a 9 mais as letras de A até F, totalizando 16 diferentes dígitos). Assim, o máximo é FFFF, que em decimal é 65535. Não precisa entender isso, ok? O importante é: depois de 65535 dias passados, ou seja, quando o contador chegasse ao máximo (quando “todos os dígitos virassem F”), o sistema executaria o programa que corta as comunicações do laboratório e abre as portas do quarto da Shiki. Isso dá aqueles 7 anos e alguns meses que foi dito no episódio anterior. Porque era um contador de dias ele disparou à meia-noite, que é quando acaba um dia e começa outro (incrementa a variável).

O problema é que, francamente, isso é bobagem. Se alguém quiser executar um código em um dia preciso daqui a sei lá quanto tempo, é só programá-lo para executar condicionalmente quando der a hora certa, e não usar um contador de tempo. O computador já conta o tempo sozinho. Mas a Shiki é um “gênio”, e gênios são excêntricos mesmo né? Ela não teria todos esses efes se não programasse assim. A explicação sobre a diferença entre vírus e trojans foi simplesmente estúpida. Não vou explicar o que cada um deles é aqui para não alongar ainda mais o artigo e porque isso, aqui como no anime, não importa. Mas acredite em mim quando eu digo que em sistemas informáticos modernos não faz mais sentido diferenciar vírus de trojans. Até mais ou menos uma década atrás ainda falava-se em vírus, trojans, backdoors, keyloggers, mas hoje em dia é mais fácil chamar tudo de malware. A diferença de vírus para não-vírus é a forma como ele infecta o sistema, e os demais são definições funcionais. Assim, um vírus pode ser todo o resto também, ou não. Dependendo da definição de trojan usada, backdoors e keyloggers são trojans também. Isso só está no episódio para confundir.

Por fim, a Shiki aparentemente escapou no barco e uma das garotas que foi com o Souhei e a Moe sumiu, se entendi direito, porque pelas contas que fizeram o número de garotas que entraram no barco bate com o número de garotas que acamparam tirando a Moe. E se entendi direito seus colegas nem se importaram com o sumiço dela, ou olharam para a Shiki e acharam que era ela mesmo. Sei lá né, ela é um “gênio” né, tudo deve ser possível. E a Shiki queria morrer, mas já que a filha morreu, agora ela quer viver? Se não, o que ela quer? Eu que não quero mais saber, já perdi muito tempo pensando nesse anime. E obrigado por ter me acompanhado até aqui nesse artigo gigante. Regojizemos: semana que vem é o último episódio disso!

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