Quem acredita nisso?

Em outros episódios e arcos já se tinha claro que a história de Concrete Revolutio é uma história de disputas de poder. No meio dela as pessoas, super-humanas ou não, e outras criaturas sencientes igualadas pela lei à super-humanos, apenas sofrem os efeitos de uma disputa que eles sequer tem ideia que exista. Levam tiros de balas perdidas no meio dessa guerra de informações (e muitas vezes tiros ou outras formas de violência bem físicas mesmo). São jogados uns contra os outros. Tudo isso em nome da “prosperidade” … é mesmo?

Até agora, na maioria dos episódios eu tenho tratado dos personagens, ou do tema do episódio em especial, ou de alguma outra coisa vistosa assim porém trivial. A verdadeira história de Concrete Revolutio sempre foi uma história de fundo, emergindo apenas em alguns momentos como o arco dos Cavalos da Montanha e o arco final da primeira temporada. E esse episódio. Como o anime está correndo para o seu fim, acho que agora é hora de eu dar mais importância a isso. Quem detém o poder procura manter a população desinformada, burra como um cachorro, para poder domesticá-la para seu próprio proveito.

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Em um período de guerras no passado do Japão, acho que o anime menciona ter sido o Período Sengoku, mas o Período Sengoku foi há mais de 300 anos atrás, a época em que a protagonista do episódio congelou na Antártica, enfim, ela pode simplesmente ter tido uma vida muito longa antes de congelar? Não importa. Koma, a Guerreira da Máscara de Ferro, combatia inimigos claramente não japoneses, o que poderia ser uma referência à chegada dos Barcos Negros do Comodoro Perry, que forçaram o Japão a se abrir para o mundo e foram a origem de um conflito interno que acabaria levaria à Revolução Meiji e ao fim do Xogunato. Mas a chegada do Comodoro Perry ao Japão foi séculos depois do congelamento da Koma. Então talvez nesse caso não haja nenhuma referência ao mundo real? Seria incomum para Concrete Revolutio. Acho que estou perdendo alguma coisa, se souber de mais do que eu, por favor comente.

Mas a referência à cultura popular é forte nesse episódio. Koma e sua batalha contra Zeth Satan é claramente inspirada em tokusatsus com cenário de época, como Garo. Aliás, a Koma quando trajada como Guerreira da Máscara de Ferro parece o Garo, que usa armaduras inspiradas em felinos de grande porte. Enfrentou uma força alienígena (não necessariamente de outro planeta, mas talvez fossem), com direito a dramas pessoais e conflitos entre servir à justiça ou ao próprio coração. E esse tipo de conflito, comum em alguns tokusatsus mais complexos, também é de importância maior em Concrete Revolutio. Afinal, o que é Justiça?

Koma devidamente trajada como a Guerreira da Máscara de Ferro

Koma devidamente trajada como a Guerreira da Máscara de Ferro

Koma estava apaixonada por um vilão e era correspondida. Asahi teria com gosto mudado de lado se isso servisse de algo. A justiça não teria sido feita? Zeth Satan não seria derrotado, mesmo Asahi sendo poupado já que, afinal, ele havia se arrependido? Isso é muito mais complicado do que parece. A primeira questão é que as pessoas em geral jamais confiariam completamente em Asahi, e poderiam dirigir sua desconfiança também à Koma, assim desacreditando a própria justiça. Como fazer, se não puderem confiar em quem tem por único dever e função assumida defender a justiça? E mesmo se fosse possível convencer a todos, ou se Asahi simplesmente passasse a vida se escondendo para preservar a imagem pública da Koma (e assim, preservar a ideia de que a justiça funciona), ele não poderia conviver consigo mesmo, tendo cometido tantos crimes e saindo ileso. A única redenção que ele encontra para si mesmo foi sacrificar-se para selar Zeth Satan. Mas isso foi justo com Koma?

O prêmio por ter lutado

O prêmio por ter lutado

Ela desistiu (literalmente) de sua vida como humana normal para se transformar na Guerreira da Máscara de Ferro. Ela lutou durante anos. E o que ela ganhou com isso? A paz? A paz servia bem a todos, era algo bom, sem dúvida. Mas e para ela mesma? Ela nunca quis nada. Ela só quis o amor, mas isso lhe foi negado. Esse episódio replica o conflito de vários outros, mas vou mencionar apenas o anterior: o que o Homem-Humano queria? Apenas o amor de sua filha. Ele não fez mal a ninguém, pelo contrário, ele fazia o bem. Mesmo assim, tudo lhe foi negado. Nos dois casos (e em vários outros em Concrete Revolutio) a vontade de indivíduos é esmagada em nome de um suposto “bem maior”. Esse bem maior haveria de ser, para todos os efeitos, uma justiça de nível mais elevado que justificaria as “pequenas injustiças” necessárias para mantê-la.

Koma também foi manipulada pelo Primeiro Ministro

Koma também foi manipulada pelo Primeiro Ministro

Por isso o Cavaleiro Arco-Íris foi morto e sua história manchada. Por isso um dos membros da Cavalo da Montanha morreu. Por isso monstros foram incitados e mortos por super-humanos. Por isso tanta coisa errada foi feita. E valeu a pena? Koma viajou 300 anos para o futuro e descobriu que não: a paz não durou. A guerra sempre vai existir. Será esse apenas um destino cruel, será que não importe o quanto se lute por essa justiça elevada tudo sempre dará errado no final? Esse episódio mais do que qualquer outro não deixa espaço para dúvidas: não é esse o problema, não é isso o que acontece. No mais das vezes, a tal justiça é só uma propaganda, uma versão. O verdadeiro objetivo é a conquista de poder. O agora ex-Primeiro Ministro fez o diabo em nome dessa justiça de mentira para manter seu próprio poder, não para o Japão prosperar. E tenho certeza que não é para o bem coletivo que se tramou sua queda nesse episódio.

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