E o vento perdeu...

Eu tenho quase certeza que o autor de Joker Game não estava pensando em vocação profissional (ou qualquer outra vocação) quando escreveu esse arco. Mas eu acho que tem tudo a ver e é sobre isso o que vou falar. Se você é meu leitor habitual sabe que eu sempre faço isso, se não for, agora sabe. Ei, eu juro que é legal mesmo assim!

Desde o início do anime essa é a primeira (vá lá, segunda) ameaça real à Agência D. Uma segunda agência de inteligência foi criada, a Agência do Vento, por um militar que discorda do Tenente-Coronel Yuki. Os ideais da agência foram postos à prova e triunfaram, ou essa é a narrativa que o anime constrói, mas na prática a vitória da Agência D tem bem menos a ver com matar ou não matar e muito a ver com experiência e vocação.

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Eu não lembro nomes e o anime não dá atenção nenhuma a eles, então vou expressar minha vontade de assistir Bakuon atribuindo nomes de fabricantes japoneses de motocicletas sempre que precisar. Yuki é o único nome que eu lembro, sério. Enfim, no que eu chuto seja o Estado-Maior do Exército Imperial Japonês está um general (acho que era general) que não gosta dos ideais do Yuki e sua Agência D. Ele especificamente se indigna com o fato de militares terem sido proibidos entre as fileiras da agência. Chamarei esse general de General Honda. General Honda estimulou um outro militar graduado que também não gosta do Yuki e seus métodos a criar outra agência de inteligência, uma agência de militares e para militares. Esse outro militar eu chamarei de Coronel Suzuki. Suzuki então criou sua Agência do Vento, com militares que não apenas estão livres para matar, como são obrigados a matar (e a se matar) se a situação exigir. E as situações aparentemente sempre exigem.

A recém estabelecida Agência do Vento

A recém estabelecida Agência do Vento

O oitavo episódio foi muito interessante porque a Agência do Vento só foi apresentada no final. Durante quase todo ele eu achei que estava assistindo uma clássica operação de espionagem levada à cabo pela Agência D. A infiltração, investigação, abordagem, nada me fazia suspeitar. Houve até mesmo desafios e contratempos! A única coisa um pouco estranha era a agressividade do espião, não tanto apenas por ser agressivo (embora isso sozinho já o diferencie dos espiões da Agência D até agora) mas por ser temerariamente agressivo. Me pareceu em alguns momentos que ele esticava tanto a corda que seu informante poderia traí-lo a qualquer momento e toda a sua operação acabaria indo por água abaixo. Ao mesmo tempo, não conseguia ver necessidade naquela agressividade toda.

Ele é um espião da Agência D ou da Agência do Vento? Mistério

Ele é um espião da Agência D ou da Agência do Vento? Mistério

Mas foi só quando ele matou seu informante que a coisa perdeu todo o sentido. Quero dizer, perder não perdeu, na verdade fez um sentido todo novo: ele não era um espião da Agência D. Ele apagou um informante sem necessidade nenhuma. E narrativamente o anime ainda me fez simpatizar com o pobre mordomo explorado, levado a se afundar em dívidas de jogos, enganado até o final e assassinado a sangue frio em uma viela qualquer sem que jamais tenha ameaçado ninguém. Não, ele não podia ser da Agência D. Os espiões da Agência D são pessoas bondosas que adotam criancinhas órfãs e seus cachorros. Ele era malvado. Ele era um espião da recém criada Agência do Vento, um militar treinado em técnicas de espionagem.

Nada como uma sutil ameaça de espancamento para manter seu informante na linha

Nada como uma sutil ameaça de espancamento para manter seu informante na linha

Honda estimulou Suzuki a criar a Agência do Vento porque queria acabar com a Agência D. Certo. Certo? Tudo parecia certo, até ele jogar uma agência contra a outra em um mesmo caso e dizer que a que saísse derrotada cessaria de existir. Talvez ele estivesse apenas “lutando abertamente”, algo que os dois antagonistas comentam de passagem que seja o modo digno, honrado de combater. Faria sentido se o General Honda não tivesse completado esse raciocínio dizendo que ele não acredita de verdade nisso. Enfim, na melhor das hipóteses para o anime o General Honda não gosta mesmo do Yuki, mas no fim das contas é um pragmático e quis testar sua criação contra a já estabelecida Agência D para descobrir quem é que realmente tinha razão nessa disputa, qual abordagem seria a melhor para o Exército Imperial.

E claro que a Agência D venceu. Não apenas venceu, como venceu de forma humilhante. Varreram o chão com a Agência do Vento e seu chefe, o Coronel Suzuki, cometeu suicídio – a representação máxima da ideologia auto-destrutiva do militarismo japonês daquela época. Mas a Agência D venceu porque ela não mata? Venceu por ser a protagonista, por serem os heróis da história? Venceram graças aos seus ideais superiores? É lógico que não. Em primeiro lugar, é importante que se diga que não é verdade que a Agência D estivesse totalmente fechada aos militares. O primeiro arco do anime termina justamente com o Yuki convidando um militar a se tornar um espião. O que o Yuki não quer em suas fileiras é a doutrinação militar – quando ele descobriu um militar capaz de enxergar o mundo com os próprios olhos, e não através dos filtros do Exército Imperial, foi rápido em tentar recrutá-lo. Ele preferiu ficar onde já estava, certamente acreditando que seria mais útil ali.

Matar ou não matar não faz sentido como uma limitação para um espião. Não é à toa que o espião mais famoso do cinema tem associado ao seu título a tal “licença para matar”. James Bond pode matar – o que é diferente de deve matar, e aqui percebe-se a diferença entre ele e os espiões da Agência do Vento que pelo pouco que se viu aparentemente sempre matam, o que faz disso um dever de sua profissão. E é diferente também da Agência D, que jamais mata – supostamente; até agora o anime não mostrou nenhuma situação onde não houvesse alternativa ao assassinato. Esse tema é só uma construção do anime, algo que ele quer que você acredite. Mas uma análise honesta constata o óbvio: a Agência D venceu porque era melhor.

Não era melhor por não matar, mas por ter mais experiência. Se a Agência do Vento existisse há tanto tempo e fosse tão ativa quanto a Agência D, se tivesse passado por um treinamento e uma doutrinação tão severa quanto os espiões da Agência D, eles jamais cometeriam os erros crassos que cometeram – como terem seu disfarce desvendado por funcionários de um bordel. Mas não tenho dúvidas de que eles sejam ou possam ser excelentes soldados. Provavelmente soldados muito melhores do que os espiões da Agência D jamais serão – eles desprezam a ideologia militar para começo de conversa, isso tornaria impossível sua mera presença em uma instituição onde a ordem, a hierarquia e a obediência são tão importantes. Ao mesmo tempo, os militares da Agência do Vento provavelmente jamais seriam capazes de se tornar espiões tão bons quanto os da Agência D. Eles podem dominar as técnicas, assim como certamente os espiões da Agência D dominam o uso de diversas armas e técnicas de luta corpo à corpo, mas nunca saberão aplicá-las tão bem. Todas as pessoas têm seus limites. Poucas demonstram vocação para diversas áreas diferentes. Talvez vejamos mais do protagonista do primeiro arco?

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  1. Estes dois episódios foram bons pelo menos para mim, com a introdução de uma nova agência de espionagem eu não sabia que rumo a trama ia seguir, mas estava na cara que os métodos da Agência do vento eram uma merd.. autêntica e isso verificou-se no episódio nove, onde estes até foram descobertos por simples geikos ou empregadas da pousada (ou casa de chá). O coronel Yuki é simplesmente um super espião, consegue passar despercebido em território inimigo, grande capacidade de disfarce e uma grande inteligência e uma grande perspicácia para resolver os problemas (só eu é que reparei que ele mesmo sendo velho as geikos e as geishas nunca o largam, velho sortudo). Já estava na cara que a agência D é melhor pois não têm a doutrina estúpida do exercito, um espião se possível deve manter-se anónimo o máximo que puder, se ele começar a matar vai dar logo nas vistas. coisa que os espiões da Agência do Vento não percebeu e lixou-se no final. Se o Japão na Segunda Guerra Mundial não tivesse sido governado pelos militares extremistas, neste caso o infame general Tojo e uma das suas instituições como o Kempeitai que pregaram a doutrina do exército, além de obsoleta e sem sentido levaram ao final trágico, se tivessem tido outras instituições mais democráticaso Japão poderia ter seguido um rumo diferente e hoje em dia o Japão podia ter mantido os seus costumes e quiçá já estivessem num patamar muito superior se não fossem controlados por outro país (para quem duvide o Japão daqui a a umas décadas ainda aparece com mechas gigantes). No final o coronel responsável pela agência do Vento suicida-se após a sua derrota humilhante para com a Agência D, para mim este acto só deu razão aos argumentos do Yuki, para quê sacrificar a vida pelas doutrinas do Exercito. Gostei bastante da tua referência a Bakuon. em Joker Game o único nome que me lembra é o do Coronel Yuki o resto nem me lembro do nome.
    Como sempre uma excelente matéria.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá!

      O problema é que uma das principais razões para o fim da ainda tímida democracia no Japão, sobrepujada pelos militares, foi o golpe que o país sofreu justamente das potências ocidentais na Conferência Naval de Washington, após a Primeira Guerra. Por sinal, isso é mencionado no primeiro arco do anime. As coisas nunca são simples, e no fim das contas acho que a influência cultural ocidental no Japão foi positiva. O país é uma potência econômica e cultural e soube absorver muito bem tudo o que veio do ocidente sem abrir mão de sua identidade.

      • Nos dias de hoje o Japão é um país de primeiro mundo (bem ele sempre foi), depois do milagre económico e do baby boom pós segunda guerra mundial e a intervenção do Ocidente nele até teve pontos positivos como tu bem referiste, mas também teve mais desvantagens do que vantagens, eles perderam o direito a ter um exercito próprio, perderam muitas das sua tradições milenares, como por exemplo o uso dos quimonos, e outros tipos de vestuário tradicional, viram a sua língua milenar adulterada com termos estrangeiros, foram obrigados a mudar a sua forma de governação, antes eram governados pelo imperador e agora são governados por dieta cheia de corruptos e malfeitores, são obrigados a comprar a dívida dos E.U.A como moeda de troca pelo apoio militar deles (que é feito mal e porcamente diga-se de passagem, principalmente em Okinawa, onde os E.U.A têm uma base militar cheia de soldados problemáticos que só sabem violar e fazer merda naquela região etc). Eu só acho que o Japão se não fosse um estado fantoche como é agora, este poderia ser ainda mais desenvolvido do que é actualmente.
        E diz lá se não era interessante ver o Japão em vez de fabricar carros, fabrica-se robôs gigantes para uso civil e militar eu acho que já não falta muito para isso acontecer, talvez ainda esteja vivo quando isso acontecer.

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        No que diz respeito a tradições culturais como vestimentas e idioma, o Japão não é o único país a ter sofrido isso. Em maior ou menor grau o mundo inteiro mudou influenciado pelo ocidente desenvolvido, e não foi preciso dominação militar para isso. Também não é como se fossem valores perdidos para sempre, apenas se tornaram mais folclóricos, menos comuns no dia à dia.

        O imperador no Japão há séculos não governava. Durante o xogunato o poder real estava nas mãos do xogum, e após a sua queda a burocracia feudal foi substituída por outra, que dava seus primeiros passos no caminho da democracia antes da Segunda Guerra.

        A base em Okinawa sem dúvida é um problema muito mais do que uma solução, mas já foi pior também, e tenho certeza que só não foi desmantelada por causa da instabilidade de toda a região. À rigor, creio que o Japão esteja melhor com os EUA fazendo frente à Coreia do Norte do que se ele próprio precisasse se defender sozinho: por causa de crimes de guerra (e os piores foram durante a Segunda Guerra, mas antes dela já tinha ocorrido a Primeira Guerra Sino-Japonesa e a Coreia havia sido anexada) o país não encontraria parceiros entre seus vizinhos mais próximos. A região é explosiva e sem a presença americana seria muito pior. De novo, não é como se essa fosse uma situação ideal, se trata apenas de reconhecer que o mundo é terrivelmente mais complexo do que aparenta ser. Se o Japão tivesse um exército provavelmente haveria uma corrida armamentista sem precedentes no Extremo Oriente. A certeza de que o arquipélago é “inofensivo” funciona como uma garantia de paz a mais para a região.

        E sobre robôs gigantes, bem, eles não são práticos de verdade, caros de produzir, de operar e de realizar manutenção com todas as partes móveis que possuem, mas sim, são legais =D

  2. O teu site devia ter um selo de utilidade pública, é dos poucos que conheço onde o redactor tem um conhecimento geral decente e sabe discutir os temas.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Haha, muito obrigado =)

      Eu aprendo muita coisa com meus leitores também, e com outros blogueiros que eu visito regularmente. Além de toda a pesquisa que eu faço para escrever esses artigos e outras coisas que aprendi por aí provavelmente procrastinando ao invés de fazer o que eu deveria estar fazendo =D

      • Procrastinar é vida, a tua situação faz-me lembrar a minha situação no trabalho, quando chego tenho 20 relatórios para fazer, adio o máximo possível e ponho-me a ler livros de história, ai perco o tempo e depois tenho que fazer os relatórios à pressa mas não me arrependo.

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