Sendo honesto, o Ikuta só ensinou traquinagem pra Yatri

Esse anime não tem nenhuma sutileza. Poderia ser pressa mas já estamos no sexto episódio e não só eu continuo a não saber onde o anime pretende chegar (ou sequer por onde pretende ir) como além disso ele ainda está dedicando episódios inteiros para desenvolver personagens. Esse episódio foi o episódio da Yatri, principalmente, e contou parte importante da história do Ikuta. Alderamin não divulgou até onde eu saiba quantos episódios terá, e é tentador imaginar que terá pelo menos 2 cour, talvez divididos. Não é pressa, mas mesmo assim o anime achou por bem logo após um episódio com um brevíssimo flashback da infância de Ikuta e Yatri transmitir outro com esse flashback inteiro. Isso não é nada sutil e já está beirando a previsibilidade.

Sei mais um pouco sobre o passado, mas o futuro ainda é um mistério. Para adicionar uma camada extra de mistério, desde o primeiro episódio há momentos de narração, ora da Yatri, ora da princesa Chamille, que dão a entender que elas estão narrando fatos do passado, ou seja, o que estou assistindo ainda não é o “presente”. Permanecem havendo duas opções: ou o anime será sobre como o Ikuta irá chegar a esse presente que suas companheiras narram, ou sobre o que irá acontecer depois, com tudo isso que veio antes sendo uma longa e (espero) importante caracterização de cenário e personagens.

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Essas duas crianças desenvolveram rápido um senso de confiança mútuo

Essas duas crianças desenvolveram rápido um senso de confiança mútuo

A Yatri conheceu o Ikuta quando o pai desse ainda era um general e um herói de Katvarna. Ela já havia deixado claro que conhecia sobre seu passado, e agora sabe-se que conheceu pelo menos parte dele em primeira mão. Criada desde pequena para ser uma soldado, usar tops e não ter umbigo, em dado momento de sua infância foi-lhe feita a proposta de passar um tempo com Bada Sankrei, então renomado no império. Seu pai aprovou e ela embarcou na mais incrível aventura de sua infância: aprender a ser uma criança.

Sacar a espada ela já sabia muito bem. Provavelmente poderia derrotar muitos adultos menos hábeis ou que a menosprezassem. Como uma extensão de sua espada, parte integrante dela, da forma como foi educada para ser, tudo o que ela fazia de humano era calcular cenários futuros em meio a batalhas em tempo real da mesma forma como enxadristas planejam seus movimentos com antecedência – e outra semelhança é que ambos buscam prever os movimentos de seus adversários, o que é vital para obter a vitória.

O Ikuta depois cresceu e ficou idêntico ao pai!

E aparentemente era só com isso que seu pai se importava mesmo. Talvez lhe faltasse um primogênito homem a quem sacrificar em nome de bobagens abstratas como o “país”, a “honra” e a “família”? Talvez haja um componente religioso aí no meio também. De todo modo, não tenho certeza se teria sido melhor para ela ser poupada do serviço militar no caso de possuir um irmão mais velho porque se Katvarna possui uma sociedade tão rígida quanto parece, sendo sua família tão rígida quanto ou mais, e nobre, acredito que não sendo uma soldado só restaria o papel de reprodutora em um casamento de interesses com um nobre de outra família a quem ela jamais amaria. Isso é altamente especulativo e encerro essa especulação acreditando que, mesmo se fosse esse o caso, ela provavelmente cresceria cumprindo seu dever como filha de seu pai sem jamais questionar.

Nunca tivesse conhecido Ikuta esse tipo de obediência a um destino escrito imutável talvez jamais fosse sequer questionado por Yatri, mas conhecê-lo parece ter bastado para pelo menos perceber a estranheza de sua posição. Ainda que apesar de tudo ela continue no caminho já traçado para ela sem olhar para os lados. Talvez ela esteja satisfeita apenas por saber que outra opções existem? Talvez ela tenha se convencido em algum momento de que outras opções podem existir, mas ela escolhe seguir esse caminho mesmo assim? Talvez ela esconda alguma frustração embora disfarce muito bem?

Qualquer que seja a resposta, a pergunta só pode ter sido feita em primeiro lugar porque ela conheceu o Ikuta. Essa é a importância dele em sua vida, ela a reconhece plenamente e parece feliz que o tenha conhecido. Talve até um pouco mais do que feliz considerando como ela narra como ele “voltou para ela”. Foi uma frase bastante pessoal, íntima, mas posso estar vendo coisa demais até porque não conheço o texto original japonês e talvez ele não carregue essa conotação. Ainda assim, as ações de ambos parecem indicar que no mínimo têm alguma intimidade e confiam um no outro. E a Yatri com certeza respeita muito o Ikuta.

Acho que for por isso que o Bada foi acusado de traição, se é que você me entende ...

Acho que for por isso que o Bada foi acusado de traição, se é que você me entende …

Sobre o passado do Ikuta, ou mais especificamente sobre o passado do pai do Ikuta. A Yatri narra que após o tempo que passou com Bada e sua família o general foi preso por traição (e o Ikuta desapareceria por anos com sua mãe). Esse “após” significa “imediatamente em seguida”? Sendo o caso, será que a visita dela teve algo a ver com isso? No mínimo, sob a responsabilidade de Bada ela, a filha de um nobre, quase morreu. Por outro lado estava sendo treinada para ser soldado, então situações de risco desse tipo não deveriam ser consideradas tão graves, na minha opinião, mesmo tendo sido acidental. Talvez sua estadia tenha sido parte de um plano forjado para incriminar Bada? Ele tinha métodos e ideais bem heterodoxos para sua época e isso talvez incomodasse figurões. Me lembro do Ikuta dizer (ou foi a Yatri que disse por ele? não importa, foi dito) que Bada foi condenado por traição após recuar de um campo de batalha perdido, mas isso pode ser uma mentira conveniente que ele contou para a Yatri. Se bem que tendo havido um julgamento parece pouco provável que a acusação específica ficasse escondida assim.

O que quer que tenha sido, assim que “voltou para ela” Ikuta a convidou para que fugissem juntos do país. Como eles permanecem no país, ela certamente recusou. Admira e tem grande amizade (e talvez algo mais) com Ikuta, que mudou para sempre sua forma de ver o mundo, mas continua até hoje trilhando um caminho que já estava escolhido para ela antes mesmo de nascer.

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  1. O episódio pareceu querer forçar uma simpatia pela Yaturi. Comigo não funcionou, ainda a acho uma cadela ensinada que só faltou abanar o rabo para a princesa e o imperador. E o modo cachorra louca do episódio passado não me impressionou. Achei forçado ela não levar pelo menos um tiro naquela situação. Nesse episódio, aquela luta com os lobos foi outra forçada de barra, lobos são inteligentes mas não tanto, senão ninguém estaria protegido dentro de casas. Ah, vá!
    O autor parece bom para montar cenários de batalhas, mas para criar cenários de convívio social…
    Ainda torço o nariz com o tal interesse romântico que ele criou da princesa por um cara que a esganou e sempre a despreza, parece até shoujo! xD

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Não posso dizer que comigo “funcionou” porque eu já simpatizava com ela antes, eu só a conheci um pouco melhor =)

      Tem-se que considerar que nesse cenário Katvarna é uma monarquia com a sociedade extremamente hierarquizada e rígida, com mobilidade social provavelmente bem próxima de zero. Em lugares assim, mesmo os que estão em posição superior são oprimidos. A princesa é a epítome disso em seu desespero por querer destruir o império – nada menos. Acho que isso explica o comportamento de todos, inclusive da Yatri.

      E bom, não são lobos do nosso mundo, são lobos daquele outro mundo =D E mesmo assim os garotos reconheceram o quanto o líder deles ainda era excepcionalmente inteligente para um lobo. Acho que isso não importa, aquela cena tentava mostrar outra coisa. Provavelmente mais do que foi mostrado no anime.

      Quanto aos interesses românticos … acho que o da Yatri pelo menos está bem explicado. E o da Chamille é esse clichê mesmo que você identificou. É mais necessidade do enredo do que desenvolvimento mesmo.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! =)

  2. Pessoalmente estou a gostar deste anime, tem bons personagens e histórias de vida bem interessante. Este episódio para mim serviu e já fazia falta, para explicar a intimidade e amizade entre o Ikuta e a Yatri. A Yatri como tu bem referiste era apenas um peão nas mãos do seu pai, provavelmente treinada para ser um soldado, já que não me parecia que esta tivesse um irmão homem, neste caso se existisse um filho varão, a única opção da Yatri seria que esta teria que se casar e seria apenas uma reprodutora mais nada, ainda assim prefiro a Yatri soldado. O pai do Ikuta nos poucos segundos que apareceu no episódio, pareceu ser super boa pessoa e a mãe do Ikuta era linda, eu acho que a estadia da Yatri com a família do Ikuta lhe fez muito bem. O Julgamento do General Bada foi daqueles julgamentos de fachada, ele deve ter irritado outros nobres poderosos com as suas tácticas menos convencionais. Aquela cena dos lobos para mim não foi nada exagerada, os lobos são dos animais mais inteligentes que há, um lobo sozinho não é perigoso, mas se for uma matilha ai sim há problemas. Aquela cena em que o macho alfa recua para ir buscar a sua cria só prova que os animais têm sentimentos. Com este flashback é impossível não ter um ship entre estes dois, prefiro que o Ikuta fique com a Yatri do que com a princesa.
    Como sempre uma excelente matéria Fábio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Eu sinto que a princesa é uma personagem bastante trágica, mesmo se no futuro, crescida, rolar algo entre ela e o Ikuta, não deve ter futuro. Apesar de tudo ela representa a monarquia katvariana, a instituição fiadora de tudo o que há de atrasado nesse país e acredito que qualquer que seja o fim, ela irá cair junto – mesmo se sobreviver.

      A Yatri é o oposto. Filha de uma família nobre, condenada a seguir o destino traçado para si por terceiros, desde cedo o Ikuta já a salvou. A salvação de Katvarna deve se misturar à salvação da Yatri – e ela perder o controle em combate e precisar do Ikuta para voltar aos seus sentidos é só mais uma forma dele “salvá-la”. Não é à toa que são as duas as narradoras dessa história.

      Muito obrigado pela visita e pelo comentário =)

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