16-Garotas-Mágicas

Esse artigo é no mesmo estilo do 7 Animes que definiram o gênero Robô Gigante, mas melhorado. Aliás, qualquer dia publico uma segunda versão ampliada e melhorada dele também, enfim.

O gênero Garotas Mágicas se provou muito mais complexo do que eu imaginava antes de pesquisar, e se confunde com a própria demografia shoujo. Não é exatamente que ele tenha mudado com o tempo, mas sim que ele cresceu, acrescentando temas, clichês, e mais recentemente atingindo públicos-alvo diferentes também.

Desde histórias de amadurecimento e passagem (coming of age) até a defesa do mundo contra invasores alienígenas, tudo é permitido às garotas mágicas. Direta ou indiretamente influenciaram outros gêneros aparentemente muito distintos como o battle school e o idol.

Recebeu homenagens e paródias, das quais gostaria de citar Super Pig, anime para garotas, e Kore wa Zombie desu ka?, para garotos. Nem o Ocidente resistiu: W.I.T.C.H., Winx, Steven Universe, Miraculous Ladybug, só para ficar em poucos e famosos/óbvios.

Essa quase onipresença do gênero e a facilidade que ele tem para tratar de quase qualquer tema tornam um desafio apontar quais foram os animes que afinal o “definiram”, e é talvez um pouco prepotente de minha parte achar que posso fazer isso. Mas eu me esforcei, aprecie o resultado!

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As origens

Dizer quando surgiu o gênero, qual sua primeira obra, é algo que depende de perspectiva. Dependendo de sua fonte de pesquisa verá A Princesa e o Cavaleiro creditado como obra precursora das garotas mágicas, mas isso é controverso e eu fico do lado de quem não entende dessa forma. A Princesa e o Cavaleiro é de fato o primeiro mangá shoujo, mas é uma história de fantasia. A Safiri não possui poderes mágicos, é apenas uma guerreira.

Mas mesmo eliminando um candidato não significa que a coisa fique mais fácil. Pelo contrário! À rigor, Himitsu no Akko-chan foi o primeiro mangá de garotas mágicas, lançado em 1962. Em 1966 seria lançado Mahou Tsukai Sally (originalmente Mahou Tsukai Sunny, mas o título foi alterado para não gerar problemas com a Sony; pois é), que ganhou anime no mesmo ano. O anime de Akko-chan viria só em 1969. Assim, Sally foi o primeiro anime de garotas mágicas, enquanto Akko-chan foi o primeiro mangá.

A inspiração de ambos era a mesma: a série americana A Feiticeira, que foi um sucesso enorme no Japão, inclusive entre meninas. Sally era mais parecido com A Feiticeira, no sentido em que a personagem título veio de outro mundo. Já a Atsuko, de Akko-chan, recebeu o seu poder de uma criatura mágica. Alguns clichês do gênero se manifestaram pela primeira vez nessas duas séries que contavam histórias de amadurecimento de suas protagonistas bastante novas.

Fushigi na Melmo (1971)

Fushigi na Melmo

Fushigi na Melmo

Não é porque o Deus do Mangá não inventou o gênero que ele não contribuiu com ele, não é? Melmo foi uma história muito mais pesada que as anteriores – começa com a mãe da protagonista morrendo. Deus deu a ela a oportunidade de realizar um desejo, e com isso ela ganhou um pote com balas: com as azuis ela se tornava adulta, com as vermelhas criança novamente. Com as duas ao mesmo tempo voltava a ser um feto e podia virar qualquer animal (as noções de biologia do Tezuka eram fantásticas).

Fushigi na Melmo toca em questões mais complexas, como educação sexual, e diz-se que não foi muito bem aceito pelos pais japoneses por causa disso na época.

Cutie Honey (1973)

Cutie Honey

Cutie Honey

Escrito por Go Nagai, Cutie Honey foi o primeiro anime de garotas mágicas para garotos. E segundo seu autor, o primeiro mangá shounen com protagonista feminina também. Como não poderia deixar de ser, vindo do mestre Go Nagai, Cutie Honey era muito mais lascivo que qualquer outro de seus anteriores, mas também fez sucesso entre garotas, influenciando no gênero, além de ter adicionado uma série de novos clichês:

  • Cena de transformação com a personagem nua por algum tempo
  • Nomes de golpes e discursos, comuns em mangás para garotos
  • Honey foi a primeira guerreira mágica

Majokko Megu-chan (1974)

Majokko Megu-chan

Majokko Megu-chan

Consagrou o termo “majokko” para “garota mágica”. Megu-chan é a história de uma bruxa que vem para a Terra para passar por testes para se tornar a rainha do mundo mágico das bruxas, e é o primeiro anime a apresentar esse tema. O anime explora ainda diversos temas da vida em família e em sociedade, já que a Meg não entendia o conceito de família, algo estrangeiro para seu mundo. Coisas como violência doméstica, suicídio e traição são tratados no anime, que ainda introduziu outro clichê comum no gênero: a garota mágica “rival”.

Década de 1980: a Era do Studio Pierrot

Todos os animes anteriores têm uma coisa em comum: foram produzidos pela Toei. O primeiro anime de garotas mágicas de um estúdio diferente foi Magical Princess Minky Momo, de 1982, produzido pelo Ashi Productions. Mas quem dominou a década de 1980 foi o Pierrot e cada nova série tinha um conceito completamente novo, embora compartilhassem o básico do gênero. Mencionar cada um deles separadamente seria demais, mas mencionar um sem mencionar os outros seria injustiça.

Mahou no Tenshi Creamy Mami (1983) foi o primeiro anime onde a protagonista ganhou o poder de, durante um ano, se tornar mais velha para que pudesse se tornar uma idol. Exatamente o mesmo conceito de Full Moon wo Sagashite (2002). Mahou no Yousei Persia (1984) por tudo o que estudei foi o primeiro anime do gênero a envolver um chamado por ajuda de outro mundo. Persia não viveu suas aventuras em outro mundo, como na década seguinte fariam Hikari e companhia em Guerreiras Mágicas de Rayearth (1994) e Miaka em Fushigi Yuugi (1995), mas a ideia básica estava lançada. Mahou no Star Magical Emi (1985) é parecido com Creamy Mami, mas Emi se torna uma mágica para ajudar a trupe de mágicos de seus avós ao invés de uma idol. Mahou no Idol Pastel Yumi (1986) não tem nada a ver com idols, apesar do título! Yumi apenas se torna capaz de dar vida por um curto tempo a objetos que ela desenha no ar; de todas as garotas mágicas do Pierrot ela tinha a pior vida doméstica, seus pais viviam brigando e sua mãe era uma alcoólatra.

Claro que o estúdio não perdeu a chance de criar crossovers entre todas as suas garotas mágicas também, não é? E em um desses crossovers surgiu pela primeira vez uma equipe de garotas mágicas lutando juntas. Houve ainda um OVA com mais uma garota mágica original, Mahou no Stage Fancy Lala (1988), que uma década depois ganharia uma série para TV com uma história completamente diferente.

Bishoujo Senshi Sailor Moon (1992)

Bishoujo Senshi Sailor Moon

Bishoujo Senshi Sailor Moon

Uma grande revolução no gênero, de várias formas, e seu sucesso fez com que suas escolhas moldassem o gênero para sempre. O conceito de equipe já havia surgido em OVA crossover das garotas mágicas do Studio Pierrot, como escrito logo acima, mas foi em Sailor Moon que elas lutaram realmente unidas por um mesmo propósito desde o começo, uniformizadas, codificadas por cor, com seus poderes tendo a mesma origem. Um casamento entre o conceito de guerreira mágica que havia surgido com Cutie Honey, os temas femininos comuns do gênero (especialmente os dedicados ao amor) e a estética e modo de operação das séries super sentai. Foi um sucesso avassalador.

No Japão e no mundo. Sailor Moon foi um dos animes responsáveis por tornar popular o próprio anime no ocidente, e muito especialmente o gênero garotas mágicas e, um pouco mais amplo, os mangás para garotas, os shoujos.

Cardcaptor Sakura (1998)

Cardcaptor Sakura

Cardcaptor Sakura

Seria difícil uma lista dessas que não citasse o CLAMP, não é? E embora eu pessoalmente prefira Guerreiras Mágicas de Rayearth, por achá-lo mais original, mais divertido, entre outras qualidades, não há como negar que entre os dois Sakura foi um sucesso muito maior. De novo, tanto no Japão quanto fora dele.

Sakura (e Sailor Moon também) trazia na história alguns temas mais complicados (todos devidamente eliminados pela adaptação ocidental, nos dois animes), muito especialmente a homossexualidade (o amor não correspondido da Tomoyo pela Sakura, o affair entre o irmão da Sakura e o Yukito, e em Sailor Moon as sailors Urano e Netuno).

Século 21: Garotas Mágicas para outros públicos

Desde Cutie Honey sempre existiram animes de garotas mágicas que não eram para garotas, mas via de regra eram OVAs e outras produções menores. Foi a partir da virada do século que esse gênero se popularizou também entre outros seguimentos de público, primeiro com Mahou Shoujo Lyrical Nanoha (2004) e logo em seguida com Shakugan no Shana (2005). Ambos voltados para o público masculino, principalmente jovens adultos. Quando uma garota assiste uma garota gera um tipo de identificação que gera um tipo específico de história, mas não deve ser difícil imaginar que quando você corta esse laço entre espectador e protagonista e o substitui por outro, de outra natureza, a própria história acaba sendo bastante diferente, bem como as escolhas criativas da produção. A primeira consequência imediata é que ser uma garota mágica se tornou algo mais difícil, sofrido. Não o sofrimento normal de uma vida normal, mas sofrimento construído por enredo.

Bewitched Agnes (2005) é um caso mais curioso: ele retornou à inspiração original das garotas mágicas, a série A Feiticeira (que se chama Bewitched em inglês, e cuja mãe da protagonista se chama Agnes). Além de uma homenagem, é uma história para mulheres mais velhas, com problemas de mulheres mais velhas. Agnes sofre com o paulatino afastamento de seu marido ao mesmo tempo em que começa a se sentir atraída por outro homem. Para complicar mais as coisas, o dia que ela beijar um ser humano normal ela perderá seus poderes mágicos.

Franquia Pretty Cure (2004)

Futari wa Pretty Cure

Futari wa Pretty Cure

Se por um lado nesse novo século o gênero garotas mágicas se expandiu como nunca para outras demografias, por outro ele não abandonou as garotas. Ainda que muitos adultos, principalmente homens, assistam os animes da franquia Pretty Cure, nada muda o fato de que são produtos feitos para meninas e garotas pré-adolescentes. A inovação nesse caso é mais técnica, com batalhas muito mais físicas e mais bem coreografadas do que jamais haviam sido até então no gênero.

Puella Magi Madoka Magica (2011)

Puella Magi Madoka Magica

Puella Magi Madoka Magica

Esse poderia muito bem estar na categoria “outros públicos”, mas Madoka Magica é grande o bastante para merecer menção à parte. Ele parte daquela linha “garotas mágicas mais sofridas”, mas inova por construir esse sofrimento não com o roteiro propriamente dito, mas com a desconstrução dos clichês básicos do gênero. O resultado é poderoso e uma experiência inesquecível.

Seu sucesso foi tão grande que inspirou toda uma geração de animes “de fazer garotinhas sofrerem”, como Gen’ei o Kakeru Taiyou (2013) e Yuuki Yuuna wa Yuusha de Aru (2014), principalmente, mas também as série Selector WIXOSS (Selector Infected WIXOSS e Selector Spread WIXOSS em 2014, e Selector Destructed WIXOSS em 2016) e Symphogear (com três temporadas entre 2012 e 2015, e uma quarta provavelmente ano que vem).

Bibliografia

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  1. Excelente lista de animes que definiram o género de garotas mágicas Fábio. Desta lista só vi dois deles, Sailor Moon e Madoka. Para mim Sailor Moon é dos melhores animes deste género até hoje e foi aquele que iniciou a minha admiração pelos animes, vi este anime com 5 anos e mesmo não percebendo algumas coisas gostei muito de o ver. Já Madoka é outra coisa, eu vi a série tv e os filmes e posso afirmar uma coisa, este anime é uma completa desconstrução deste género, faz parecer de inicio que é só um bando de garotas que fazem um contracto para se tornarem garotas mágicas e depois é tragédia atrás de tragédia. Até hoje recordo o ódio que senti daquela espécie de coelho que atraia as garotas com palavras doces e depois de lhes conceder o desejo elas que se virassem ou morressem a lutar contra as bruxas. Eu gostei bastante da Madoka, ela tinha o coração puro demais, mas preocupava-se com as suas companheiras, tanto que trolou o coelho mágico ao pedir-lhe para se tornar uma entidade omnipotente capaz de acabar com as bruxas, mas aquele arrependimento dela de ter aceitado se tornar uma garota mágica, até hoje está marcado na minha memória, aquela cena em que ela cai na luta contra a super bruxa e começa a olhar a Homura e pede-lhe que ela volte no tempo para a salvar foi demais para mim, destaco o excelente trabalho da seyuu da Madoka aquela voz sofrida foi muito bem feita. A Homura sofre tanto como a Madoka, já que a jornada na volta do tempo dela, para salvar a Madoka é quase infinita.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Madoka foi um dos primeiros trabalhos de dublagem de protagonista em série dramática da Aoi Yuki, e alçou a carreira dela a níveis completamente diferentes. Uma coisa interessante que descobri pesquisando é que apesar de todo o barulho que causou, como não é uma série para garotinhas, Madoka não necessariamente vai deixar uma marca eterna no gênero. Claro, qualquer novo anime de garotas mágicas ou semelhantes com personagens sofridas vai ser imediatamente comparado à Madoka, mas isso não necessariamente irá representar o mainstream do gênero. Ao contrário do que Sailor Moon fez, por exemplo.

      E eu ia escrever isso no artigo mas me esqueci pois estava com pressa para publicar. Imperdoável =D

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

  2. Que legal, que legal! Eu já sabia a maioria dessas informações, mas algumas coisas me surpreenderam – por exemplo, o fato de que Minky Momo não foi produzido pelo mesmo estúdio de Creamy Mami! Já saíram tantos OVAs com as duas, em alguns casos como amigas, e em outros como rivais, que eu (que nasci depois dessa época e só tive contato com os OVAs dos anos 90, nunca com as séries originais, tipo “Gigi e a Fonte da Juventude”…) não fazia nenhuma ideia. Minky Momo que, aliás, dizem ter sido o verdadeiro My Little Pony da indústria de mahou shoujo – era pra ser só uma série bonitinha pra garotas, um monte de marmanjões acabaram se interessando, e disso surgiu todo um segmento de séries mahou shoujo com visuais bonitinhos (ao contrário de um Cutie Honey, que era evidentemente feito pra outros públicos) mas que ainda assim não dispensava a fanbase masculina. [Meu fantástico conhecimento da história do lolicon em mahou shoujo. *suspira*]

    Aliás, também não sabia que Madoka tinha inspirado outras séries aí. Acho legal. Apesar disso, me sinto meio ofendida quando leio que Madoka foi o primeiro “mahou shoujo dark e góstico” (como qualquer um que tenha assistido Princess Tutu, que saiu uns 10 anos antes e foi bem famoso, deve saber. E se não sabe é só dar uma pesquisada em diversos OVAs relativamente obscuros dos anos 90 e até 80. Aliás, pergunta pro Gu do Coisas de Otaku que ele explica com alegria!). Porque de fato talvez Madoka tenha sido o primeiro mahou shoujo dark e góstico *voltado para o público masculino*, então para mim pensar dessa forma é tirar todo o crédito das origens do mahou shoujo em, bem, demografia shoujo. Além disso, muitas das séries citadas aí (inclusa minha favorita de infância Sailor Moon) tinham momentos bem trágicos e tão dignos de lágrimas quanto umas cabeças cortadas por aí. Enfim, pontos a serem discutidos!

    No mais, gostei muito do post! Bem legal e informativo, parabéns pela pesquisa. <3 Peço desculpas aliás por não estar passando muito aqui, mas minhas semanas tem sido corridas e eu não consigo acompanhar anime e postar ao mesmo tempo, aparentemente… (_ _") Enfim. Grata pelo post! Até mais!~

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Mas eu não incluí Madoka por ser sombrio, mas sim por construir essa atmosfera desconstruindo os clichês do gênero. Mesmo Nanoha não está aí por ser ligeiramente mais sombrio que outros do gênero, mas por ser o primeiro grande mahou shoujo para homens desde Cutie Honey – com exceção de OVAs e outras bizarrices que tiveram aos montes nos anos 1980 e 1990.

      E eu adoraria ter incluído Princess Tutu na lista. É um anime que estou louco para assistir, ele é bastante inovador mesmo. Só que essa não é uma lista dos melhores ou mais inovadores, é uma lista dos mais impactantes e, analisando a lista completa de todos os mahou shoujos pós-Tutu, não tem nada que se assemelhe a ele _e seja para garotas_. Talvez merecesse uma menção? É para se pensar.

      E sim, olhei TODOS os mahou shoujos, li suas sinopses e pesquisei um pouco mais sobre os que eu não conhecia e achei interessantes ANTES de ler a história do gênero em si. A Mahou Shoujo Wikia que incluí na bibliografia é muito interessante para isso porque tem os animes separados por décadas, algo que é um inferno conseguir no MAL ou no ANN.

      Obrigado pela visita e pelo comentário ^^

  3. Excelente Post, eu realmente nunca ouvi falar da maioria das obras citadas, mas fiquei com uma certa vontade de assistir.
    Quando lí o titulo pensei na hora que madoka seria citada.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Não tinha como fazer lista sem Madoka, né? =)

      E eu fiquei com vontade de assistir vários também, inclusive vários que não chegaram até a lista mas descobri durante a pesquisa, hehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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