As "partes" que fazem uma boa história

Muitos livros bons acabam ficando famosos, seja na academia ou entre leitores casuais, porém nunca é à toa que eles ficam famosos. A maioria dos livros, ou o conteúdo deles em geral, compartilha semelhanças. Não na história em si, mas sim em como eles narram a história. Não é nenhuma novidade o que eu falei até agora mas eu vejo que muita gente não faz a mínima ideia do porquê aquele título ser popular entre as pessoas. Tendo esse foco em mente pretendo “expandir” as visões das pessoas. Hoje em dia vejo muito haterismo por parte de algumas pessoas com títulos que não as agradam (especialmente quando alguma editora de mangás não acerta o que as pessoas esperam…) ou quando levam spoiler, e pessoalmente acho isso um problema (principalmente os spoilers da internet e olha que eu nem assisto Game of Thrones ou The Walking Dead). Cada título tem uma história diferente, mas quando é pra desenvolver algo todos desenvolvem de forma similar.

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Na época em que eu fazia colegial (ano passado) aprendi algo que eu achava muito interessante e chato ao mesmo tempo: arquétipos. Líamos livros (como The Lord of Flies e The Catcher in the Rye) e os relacionávamos a diferentes arquétipos. Era extremamente chato (por eu odiar livros). Mas percebi que mangás e livros podem compartilhar os mesmo arquétipos. Pra quem não sabe, arquétipos são “elementos” usados em histórias, cada arquétipo tem um propósito, seja desenvolver o personagem ou a própria história, e se usados na hora certa podem transformar um Fairy Tail da vida em um Fullmetal Alchemist.

Antes de expandir os arquétipos, eu quero deixar claro que quero diminuir a quantidade de spoilers o máximo possível, eu vim falar sobre desenvolvimento de história e não sobre as histórias em si. Não vejo motivo em transformar cada artigo em uma metralhadora de spoilers. Enfim, que esse site seja um lugar onde pessoas possam entrar sem estragar a futura experiência delas.

Não tenho certeza se aprendi todos os arquétipos existentes, mas garanto que aprendi o suficiente para poder falar efetivamente como desenvolver uma história decentemente. Os arquétipos que sei são “The Golden Age”, “The God Teacher”, “End of Childhood”, “The Cataracts of Heaven” e “A Human Year”. Eu pretendo focar nos usados para desenvolver a história e não nos usados para caracterizar personagem (como o “The Hero”, “The Teacher”, “The Villain”, etc) porque né, quem tá lendo deve saber o que é cada personagem.

Obviamente, minha professora explicou como cada arquétipo funcionava de uma maneira bem filosófica que deixava a aula muito mais chata. Então tentarei explicar tudo de uma maneira bem… simples(?).

Começando com “The Golden Age”, ou “A Era de Ouro” em português. O título é bem autoexplicativo (além de ter um nome bem clichê). A Era de Ouro é nada mais e nada menos que um paraíso ou uma utopia, é o ápice da felicidade. Um mundo perfeito criados pelos deuses, até os humanos chegarem e destruírem tudo. Como consequência desse pecado cometido, a utopia vira sonho e as pessoas fazem de tudo para recuperar aqueles tempos maravilhosos. Geralmente, em livros, os deuses possuem características da natureza, porém também possuem caraterísticas o suficiente para lembrar um humano. Porém nem sempre as histórias precisam ter um background tão à la Berserk pra utilizarem isso. Isso pode ser moldado de acordo com a nossa realidade ou mesmo no futuro. Como em Fullmetal, onde os irmãos Elric consideram a utopia deles como um mundo onde eles têm os corpos deles, mesmo ignorando o fato de que eles vivem no país da treta. Ou o Ash sonhando que vai ganhar uma Liga Pokémon… se é que no novo jogo vai ter Liga Pokémon. Mas temos casos bem mais sérios como em Matrix, toda aquela treta com as máquinas, destruir elas, e assim vai. No geral, A Era de Ouro é o objetivo do protagonista.

Ash trocou a vitória pela imortalidade e ninguém percebeu.

Ash trocou a vitória pela imortalidade e ninguém percebeu.

Próximo: “The God Teacher” é um pouco mais complicado. Em português é “O Professor Deus”, e é um pouco difícil de falar porque (tirando minha tradução péssima) toda história retrata isso de formas diferentes. No geral, esse arquétipo nasce como consequência da Era de Ouro, já que todo apocalipse precisa de um herói e todo herói precisa de um mestre. E esse mestre é esse arquétipo, ele serve como uma ponte que conecta a realidade com o paraíso. Mas nem sempre esse mestre é do bem. É aqui que as coisas ficam loucas. Como fazer para reconhecer eles? Geralmente esses “professores” dão presentes ou ensinam técnicas para a sociedade, mostrando o caminho pra salvação. Pra mim um ótimo exemplo disso é Cavaleiros do Zodíaco. Atena, Hades, Poseidon, e sei lá quantos mais deuses tem naquele universo. Cada deus atua como um professor, cada um “dá” para seus cavaleiros novos poderes e também guia eles (vulgo dá ordens suicidas). E fora que tem obras que deixam bem misterioso se esses professores são do bem ou não, como em Shokugeki no Soma, que não deixa claro se os professores ou a Elite dos Dez são realmente do bem ou do mal até um certo ponto. E acho que como introdução isso está decente. Em outras palavras, personagens que salvaram uma civilização apresentando um novo poder (de acordo com as crenças e tradições daquela civilização) são considerados professores.

Deixaram a Saori de vestido só porque ela é mulher né?

Continuando a lista temos “End of Childhood”, ou em outras palavras “A Perda da Inocência”. E não, não é quando os Power Rangers de D. Gray-Man perdem seus poderes (me perdoem). Outra categoria que tem o título autoexplicativo, mas eu vou fazer textão mesmo assim. Acho que para entender esse arquétipo melhor, todo mundo precisa ser mente aberta com ele. O termo inocência é bem amplo, indo de “não sei” até “socorro”. Pode ser usado para retratar o que o personagem teme, ou aquilo que está fora da zona de conforto dele. Um belo exemplo é Ataque dos Titãs, aqueles titãs sem vergonha que andam por aí comendo pessoas são o exemplo perfeito pra isso. Porém o Eren também é um ótimo exemplo e fruto disso. Ele nunca imaginou que um titã comeria a mãe dele, que diferente dos titãs que são usados para retratar medo, Eren, ou melhor, as ações dele representam “explorando o desconhecido” (acho que posso fazer título de filme com esses títulos clichês que eu crio). Sabe aquela velha frase “quanto mais eu sei, menos eu sei”? E é razoável argumentar que sempre que alguém perde a inocência ele acaba falando algo como “meu mundo acabou”, em outras palavras, o fim da Era de Ouro. Não acho que preciso explicar isso, já judiei demais do Eren. Uma aproximação mais realista e atualizada pode ser nós combatendo o mal da sociedade. Todo mundo sabe que a sociedade, independente de ser monarquia, ditadura ou democracia, tem suas falhas. E essas falhas são frutos da perda de inocência da sociedade (vulgo corrupção). E qual anime não tem corrupção? E quando digo corrupção, digo todo tipo de corrupção. Um exemplo é o governo de Fullmetal, ou algo mais popular ainda, o Kira de Death Note. Uma das maiores armas desse arquétipo é o poder de fazer as pessoas questionarem quem elas realmente são. Sério, eu amo isso. Um dos meus exemplos favoritos está em Fullmetal Alchemist (se você não gosta de Fullmetal, vai ter um tempo bem difícil com meus posts). Fullmetal faz o excelente trabalho de fazer os alquimistas questionarem a si mesmos se o que eles fazem é certo, especialmente com a relação Ed e Tucker. E para ser sincero eu acho que a cena de Ed e Tucker é um dos melhores usos desse arquétipo porque, querendo ou não, ambos são parecidos, e isso faz com que Ed crie mais questões sobre ele mesmo. Bem, de novo, acho que como uma introdução isso está bom, esse arquétipo é muito amplo e dá para fazer fazer 10 páginas só sobre ele, então paro por aqui e vamos em frente.

Essa cena marcou uma geração

Essa cena marcou uma geração.

Quase acabando, “Cataracts of Heaven” tem outro nome mais simples, conhecido como “A Enchente”. Esse arquétipo representa o ciclo da vida, e bem… em toda história alguém morre, infelizmente é um acontecimento que precisamos encarar. Todo mundo tem o desejo de viver o máximo possível e esse arquétipo nos ajuda a aliviar esse medo com a ideia de reencarnação. Como o nome sugere, ele tenta lavar nossa dor pra longe. Eu preciso parar com essas piadas sem graça… Mas sério, A Enchente representa que “Deus” usa água para limpar/destruir os pecados humanos. Isso é simbólico, implicando que é necessário matar para limpar. E é engraçado como água salva e destrói vidas. Água é usada geralmente em rituais para representar a passagem para uma nova etapa da vida. Bem, com minha experiência vendo animes, eu não lembro de nada parecido, mas eu sei que em Hamlet de William Shakespeare a Ophelia morre em um rio (bem raso por sinal), fazendo referência a isso. E bem, em contos brasileiros temos Iemanjá (ou não). Voltando aos animes, creio eu que Zetsuen é a coisa mais próxima que posso relacionar. Zetsuen no Tempest não usa esse arquétipo como um acontecimento mas sim como um background, várias partes onde o anime mostra desespero têm umas cenas onde mostra gotas de água voando por aí, e outras um tufão. É gente, se A Perda de Inocência é minha favorita por ter infinitas referências, A Enchente é o contrário, tá difícil achar algo totalmente fiel a essa proposta. Mas se você ignorar toda essa água, e focar no ciclo da vida, tudo vira um “apocalipse”. Ou qualquer outro anime ou acontecimento que representa o fim de uma era e o começo de uma nova.

Sério Zetsuen tem efeitos tão daora. Nunca achei que rosa cairia tão bem em qualquer personagem.

Sério, Zetsuen tem efeitos tão daoras. Nunca achei que rosa cairia tão bem em qualquer personagem.

E finalmente terminamos essa introdução aos arquétipos com “A Human Year”. Esse arquétipo pode ser mais usado para “testar” como a mente imagina e transforma as nossas experiências. Um exemplo é como imaginamos o namoro perfeito ou pro lado mais dark da vida, como pensamos em coisas ruins. O propósito desse arquétipo é fazer nos perguntarmos por que colocamos tal coisa em tal momento? Isso também serve pra mostrar que algumas coisas são iguais no mundo todo, como a chuva representando tristeza, o inverno ser uma estação “morta”, no verão é só felicidade e assim vai. Enfim, esse tipo de arquétipo entra naquelas coisas que se bem usadas não fazem tanto efeito, mas se mal usadas estragam totalmente a obra. Isso pode não se aplicar à vida real mas creio eu que em uma história é extremamente importante.

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“Maldito Submarino! Falaram que eu ia ficar igual à Saori!”

Ufa, acabei, enfim, isso é uma pequena parte do que eu espero relacionar a alguns animes. E espero que o resto não seja tão longo assim!

 

 

Revisado por Tuts

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  1. Eu só tenho uma palavra para descrever o texto que acabei de ler, épico, aprendi muito com este artigo. Eu nem era para comentar, quando este artigo saiu, eu só tinha lido os dois primeiros parágrafos, até que em conversa com o Fábio, ele me indicou a ler o artigo inteiro, e não é que eu estava a perder um excelente texto, muito bem organizado, bem simplificado para o leitor e acima de tudo cheio de conteúdo cultural. A ler este texto, recordei-me das muitas aulas de literatura que tive que assistir, se elas tivessem sido tão boas como este artigo talvez eu não tivesse tanto receio de ler um livro. Se os meus professores e professoras de português me explicassem os significados das coisas de forma simples, como tu Akune fizeste para explicar os arquétipos talvez eu tivesse ganhado um gosto maior para a leitura e escrita. No preciso momento em que referiste Fullmetal Alchemist, fiquei fã do teu artigo. Fullmetal foi daqueles animes que me marcou, tudo naquele anime é perfeito, principalmente o desenvolvimento gradual dos personagens principais e dos outros também. A cena do Tucker até hoje me marca, eu quando vi esta cena, a minha cabeça ficou cheia de lemas morais e até imorais, quase como um problema filosófico de difícil resolução. Ao ler o teu artigo, fiquei fascinado à quantidade de referências literárias que colocaste no artigo, no meio do artigo fiquei perdido no meio de tantas referências, para uma pessoa quase leiga em termos literários como eu, foi um pouco difícil acompanhar o teu raciocínio no artigo, mas ainda assim agradeço, já que fiquei curioso com alguns títulos que referiste. Dos muitos animes que fizeste referência só conheço o Fullmetal e um pouco dos cavaleiros do Zodiaco (já agora a imagem no final do artigo, é daquele anime em que a protagonista é princesa do país da chuva?).
    Estou ansioso para ler mais dos teus artigos Akune.

    • Bom saber que curtiu, e antes que eu esqueço, o anime da moça na chuva é Zetsuen no Tempest. Talves Fullmetal seja o topico do próximo post… Ou não, preciso ver qual anime escolher primeiro.

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