Estamos recrutando redatores, clique aqui e se candidate, vagas limitadas!

O episódio começou com uma Tanya aparentemente preocupada com o crime de guerra cometido contra Arene no episódio anterior, talvez com a consciência pesada, não sei se ela é capaz disso ou se é completamente sociopata, mas com certeza o conceito ela entende e tenta se justificar falando para si mesma como de sua parte ela fez todo o possível para demover seus superiores do plano genocida mas foi tudo em vão. Considerando que o plano em questão era essencialmente dela para começo de conversa e que ela teve que executá-lo, fico imaginando o que se passa em sua cabeça nesse momento. Terá ela mudado? Será Tanya agora um pouco mais humana do que antes – e, pois, de acordo com o tema do anime, mais próxima de Deus?

É difícil dizer. E como o episódio logo em seguida voltou a ser apenas um episódio de guerra sem grande substância creio que sequer é oportuno avançar nessas considerações. E mesmo para um episódio de guerra ele não foi dos melhores.

A unidade de Tanya pela primeira vez no anime esteve em severa dificuldade durante uma batalha. As baixas foram pesadas e eu cogitei que talvez alguém acabasse morto, o que serviria de estopim para que o anime retornasse a um clima mais reflexivo, mas não ficou claro durante todo o episódio se o apuro naquela batalha e todas as baixas que tiveram resultou em morte. Até que na cena pós-encerramento ficou claro que não, provavelmente não teve nenhuma morte. Tanya assinou um documento de baixa do exército para um soldado ferido que não caiu em batalha, mas por ter comido uma batata estragada. Ah! Conte-me mais sobre piadas na hora errada! Nos dias que correm, se eu fosse escrever uma lista de itens que absolutamente não devem constar em histórias de guerra com certeza incluiria piadas com batatas. Ataque dos Titãs terá sua segunda temporada em abril e ele também teria sido bem melhor sem batatas.

Alemães em retirada estratégica que é só uma estratégia (sério)

Me pergunto se essa batalha existe no material original. Quero crer que não, já que pelo que li o Sioux deveria ter morrido e ele sobreviver foi uma modificação do anime, e acho que houve outras mudanças também. É compreensível que na pressão para adaptar um mangá os roteiristas escrevam uma estratégia militar mirabolante como essa, mas uma light novel tem bem mais tempo para planejamento e produção, e por algum motivo eu quero acreditar que o material original seja mais interessante (mas Ataque dos Titãs, já que já o citei, é uma prova de que nem sempre o original é melhor…).

Quero dizer, me acompanhe no plano alemão para derrotar os franceses: executaram uma manobra diversionista para atrair as tropas principais e então as emboscar e aniquilar. É um plano bem simples, testado e aprovado pela história. A Batalha de Canas, citada no anime, foi a maior derrota militar na história de Roma, e foi similar: atraiu-se o corpo principal do exército romano para o centro enquanto cuidadosamente o cercaram pelos flancos e depois pela retaguarda. 56 mil cartagineses e aliados liderados por Aníbal massacraram 80 mil romanos (mal) liderados por Caio Terêncio Varrão. Apenas 10 mil sobreviveram, contra apenas 6 mil baixas entre os cartagineses. Uma estratégia simples, sem dúvida, mas que contou com um inesperado trunfo: os generais romanos Varrão e Lúcio Emílio Paulo (que era mais prudente mas morreu nessa batalha, liderada por Varrão) não tinham experiência e apenas forçaram o avanço de suas tropas contando com a superioridade numérica sem se aperceber que estavam a ser cercados por Aníbal. Corta para Youjo Senki.

Uma cena de manda-chuvas tendo do bom e do melhor enquanto o povo morre de fome ou nas trincheiras não poderia faltar, ainda que não tenha acrescentado absolutamente nada

Claro que algo assim não se pode esperar da República, não é? Muito menos na escala colossal que é proposta: não se está falando de duas tropas frente a frente, mas de uma enorme linha de frentes de batalha, com quilômetros de extensão e que provavelmente inclui milhões de soldados (na Primeira Guerra de verdade, no fronte ocidental ao longo dos quatro anos de conflitos 16 milhões de soldados da Entente enfrentaram 13 milhões de alemães e austríacos). Não existe uma liderança estúpida pronta para ser enganada por qualquer general alemão e mesmo se conseguirem através de táticas muito astutas cercar as tropas republicanas não dá para achar que isso sozinho seria suficiente para forçar o inimigo a se render. Há muitas formas através das quais uma força armada tão grande assim pode ser capaz de romper qualquer bloqueio – fora que o tempo provavelmente contaria à favor dos defensores, com as ameaças de entrada na guerra de outros países, a possibilidade de enviar reforços, etc. Então é só um plano desesperado que na real não tem muita chance de dar certo. Tanya sabe disso.

Por isso esse plano é na verdade a fachada para outro plano. Está acompanhando? A retirada estratégica é um disfarce para uma armadilha, e a armadilha é um disfarce para um ataque surpresa a centros de comando republicanos. Não vou dizer que não seja algo possível, crível, mas esse nível de complexidade acaba tomando muito tempo do real desenvolvimento do anime ao mesmo tempo em que não acrescenta muita coisa. A não ser que seja o caso, e na cena em que vejo soldados plantando explosivos fiquei com essa impressão, de que a armadilha seja para valer e matar os comandantes sirva como um disfarce para isso (oh, bem, não dá para escapar dos disfarces, creio) bem como uma garantia de que não haverá muita gente inteligente o bastante viva para perceber a óbvia armadilha – além do ultraje provocado pelo ataque sorrateiro, que tende a fazer os sobreviventes reagirem com o fígado e tomarem decisões ruins para “se vingar”. Sendo esse o caso, releia meu parágrafo anterior sobre essa tática não fazer sentido na escala em que está sendo executada.

Esses detalhes todos sobre a estratégia foram bem chatos, honestamente. Pelo menos não foi tão verborrágico e o episódio contou com bastante tempo de ação, ainda que não tenha sido a ação mais inspirada de Youjo Senki até agora. A cereja do bolo, porém, estava para o plano do plano, o disfarce do disfarce, o plano do B: para atacar e matar os comandantes republicanos um pequeno número de feiticeiros da unidade da Tanya (incluindo a própria) deve voar até a retaguarda e atacá-los de surpresa. Dentro de foguetes balísticos. Divertidamente nomeados V-1, o nome do primeiro foguete criado pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Nada particularmente contra, faz algum tempo que o anime está amalgamando as duas guerras mundiais em uma só (o que, justiça seja dita, não deixa de ser pelo menos parcialmente verdadeiro, não é? o Tratado de Versalhes não foi tanto tratado de paz quanto foi preparação para a guerra seguinte). Colocaram alguns jatos a mais no V-1 para ele ficar mais divertido, suponho, e deixaram seu interior oco.

Yay! Foguetes V-1!

Viajando dentro de um desses Tanya não pôde senão se perguntar, com outras palavras, onde que ela foi amarrar seu cavalo. Como ela própria havia dito em discurso para seus homens, eles eram a ponta de lança do Império naquele ataque que visava atingir mortalmente o inimigo. Mas ponta de lança é tudo o que ela nunca quis ser. Queria uma vida boa, folgada, nas linhas de trás ou nem isso, enfim, em qualquer lugar protegido e longe de batalhas. Como sabemos muito bem, as ações dela, boas ou más, enquanto tentava ir para trás foram o que a empurrou para frente, para onde ela está agora, voando mais rápido que o som em direção ao inimigo.

  1. Este episódio de Youjo foi mediano, não foi tão bom, como os episódios 7 e 8. Gostei bastante daquela conversa entre a Tanya e aquele capitão que ela convenceu a ficar na retaguarda, afinal dar um bom conselho, às vezes pode trazer algo de bom e foi isso que aconteceu com a Tanya. A Tanya como sempre curiosa para descobrir os planos do alto escalão. Agora o plano mirabolante dos generais responsáveis pelas estratégias, pode ser muito bonito no mapa, mas na realidade é bem diferente. Aquela estratégia de retirada estratégica, não faz sentido algum, na Primeira Guerra Mundial haviam centenas de milhar de quilómetros de trincheiras, milhões de homens a defenderem essas mesmas posições, mesmo que o plano mirabolante do Império tenha um resultado aceitável, ele só vai aniquilar um exército ou dois da Republica, e esta aniquilação não vai propriamente levar à rendição da República. Se bem que aquela ordem do alto general da República de mandar avançar todo o exército daquela frente, atrás das tropas do Império, é mesmo a cara dos generais franceses na Primeira Guerra Mundial. E esse mesmo general da República parece mesmo, desde o porte físico à maneira de agir, como o general Joseph Joffre, o homem que na Primeira Guerra Mundial chefiava um dos exército mais poderosos daquela época e que mesmo assim, perdeu milhares, senão milhões de homens com as suas ordens estúpidas e estratégias de guerra obsoletas. Esse mesmo general fez tanta merda, mas tanta merda, que quando a situação da batalha de Verdun estava pela hora da morte, teve que chamar o general Philippe Pétain, um mulherengo, mas um excelente general. Foi graças a ele, que o exército francês, conseguiu enfrentar de igual para igual, as tropas alemãs em Verdun. Já para não falar que Pétain não gostava nada do general Joffre. Só é pena que na Segunda Guerra Mundial, o Pétain, já nessa altura Marechal, se tenha vergado aos Nazis e criado o regime colaboracionista de Vichy.
    Aquela cena da batalha de trincheiras neste episódio foi muito boa. Aqui se vê com exactidão, a mistura de elementos das duas Guerras Mundiais, baterias de artilharia de calibres que só apareceram na Segunda Guerra Mundial, as tropas francesas com uniformes e capacetes da Primeira Guerra Mundial e os alemães já com uniformes e capacetes já do final da Segunda Guerra Mundial, já quando a Alemanha Nazi, já não tinha aço para os capacetes, nem tecido para os uniformes dos soldados e nem couro para fazer as botas da infantaria. Mas posso afirmar que tal mistura de elementos de ambas as guerras, em Youjo é bastante funcional e agradável de se ver. Fiquei bem contente em ver que o Warren, não morreu, ele é o único que sabe expressar o medo e terror da guerra neste anime, ele faz um excelente contraste com a Tanya.
    Agora a parte que menos gostei neste episódio, a reaparecimento do cientista maluco, eu não suporto este personagem, nem que ele estivesse banhado em ouro de 24 quilates. E eu fiz a mesma cara que a Tanya, aquele cientista já era maluco por natureza, mas depois de receber a ajuda divina ficou muito pior. Achei bem interessante, a introdução dos V1, o pai dos misseis balísticos. Mas uma coisa eu sei, tal foguete não era para levar pessoas a bordo, e sim cargas explosivas, mas foi bem engraçado ver que eles acoplaram mais uns foguetes à máquina. A maneira como eles usaram os V1, fez-me lembrar dos planadores, só a forma de lançamento é que mudou. Muito historiadores acreditam que os mísseis balísticos V1 e o seu sucessor V2, foram a derradeira arma de vingança dos Nazis. Eles lançaram milhares de V1 e V2 sobre Londres, os londrinos reconheciam logo com que bombas estavam a ser bombardeados, por causa do som que os V1 e V2 faziam, os londrinos chamavam a estas bombas de Buzz Bomb, por causa do som que estas bombas produziam.
    A parte do lançamento dos foguetes foi muito boa, a adrenalina daqueles que iam lá dentro devia ser interessante de ver, se a Tanya uma maga de elite fez cara feia, imagine-se os outros magos de baixo escalão. A cara de raiva, dentro do V1, foi muito engraçada. Pode ter sido impressão minha, mas aquele bunker que aparece no final do episódio, parecia-me muito uma parte da Linha Maginot, só a Linha Maginot teria aquela envergadura de betão e aço. Por norma as casamata/bunkers normais de defesa fronteiriça costumavam ter uma arquitectura mais simples, como se viu nos primeiros episódios de Izeta, aqueles bunkers nas montanhas.
    Aquela parte depois da ending, foi bem engraçada, mas também muito realista. A forma como aquele soldado do esquadrão da Tanya foi dispensado por causa de uma intoxicação alimentar, neste caso tinha comido uma batata estragada, costumava acontecer muito na primeira Guerra Mundial. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, a logística dos exércitos não estava apta, para agir num conflito em larga escala. Já para não falar que na primeira guerra Mundial ainda não havia comida enlatada, a maioria da comida das tropas tinha que ser preparada na hora, e na maioria das vezes a qualidade dos ingredientes era muito duvidosa. Só lá para o final da Primeira Guerra Mundial, é que os exércitos começaram a usar comida enlatada para alimentar as tropas, mas essa opção num curto espaço de tempo, deixava as tropas doentes. Já que essa mesma comida enlatada era feita com carne dos cavalos que puxavam as peças de artilharia, de cavalos doentes e algumas vezes com restos de carne de porco que sobravam dos talhos (açougues). A única coisa de qualidade que era servido aos soldados de todos os países envolvidos na Primeira Guerra Mundial era o álcool, os soldados franceses tinham direito a um litro de vinho por dia, os soldados alemães a um litro e meio de cerveja, afinal para se travar uma guerra sangrenta e sem precedentes era preciso estar bêbado. Já para não falar que muitos dos soldados franceses, se mutilavam a si mesmos, para serem dispensados do serviço militar. Os casos mais recorrentes,eram de soldados franceses, que apareciam com ferimentos de bala nas mãos, muitos soldados franceses, na Primeira Guerra Mundial, preferiam ficar aleijados, do que continuar nas linhas da frente.Imagine-se o terror que eles sentiam para fazerem tal coisa.
    A cena do jantar, onde os dois generais estavam a comer e beber, do bom e do melhor, aquele general com um bigode vistoso. fez-me lembrar o general alemão Paul von Hindenburg e o outro general que anda sempre de olhos fechados, fez-me lembrar o general Erich von Ludendorff, que teve um papel importante em várias batalhas na Primeira Guerra Mundial. Ele além de excelente general ele era um estrategista muito bom, mas a maioria dos seus louvores, foram roubados pelo Hindenburg.
    Como sempre mais um excelente artigo, de Youjo Senki Fábio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      E não é que o plano maluco no final das contas deu certo?

      Bom, isso era previsível. Só soava inverossímil quando de seu anúncio nesse episódio, e continuou sendo inverossímil até o final. Mas esse comentário fica para o artigo certo.

      Acredito que o autor de Youjo Senki planejasse cobrir cada guerra separadamente, mas em algum momento ele deve ter começado a achar que seria mais divertido e proveitoso misturar elementos das duas, afinal, se é tudo ficção, por que não? No começo eu estranhei, você, estranhou, qualquer um que entenda um pouco desse período histórico estranhou, mas com o tempo a história de Youjo Senki ganhou brilho próprio apesar dessas distorções das referências e passou a ser divertido – bem divertido, na verdade! Inclusive porque apesar de misturar as guerras, as referências a eventos e pessoas reais continuaram. Talvez o autor tenha pesquisado enquanto escrevia? Não sei. Mas sei que ficou bom =)

      Quanto aos foguetes V-1 e V-2, é verdade, eles não tinham função estratégica nas batalhas, sua função era apenas tentar aniquilar a moral do povo britânico. Mas àquela altura, em que a maré da guerra já começava a mudar, esses bombardeios serviram como mais uma motivação para os ingleses se unirem na guerra contra a Alemanha Nazista. Hitler podia ter vários generais geniais (e alguns nem tanto), mas ele próprio era um péssimo estratego. Só mandava bem na oratória mesmo, e olhe lá, tem muito a ver com o apelo populista de seu discurso e as condições terríveis pelas quais passavam os alemães durante a República de Weimar.

Comentários