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Eu percebi nessa semana mesmo o quanto me falta repertório. Assisto muitos animes, claro, já li mais de uma centena de mangás, como não. Mas todas as histórias já foram contadas, não é o que dizem? E adivinhe só, mangás e animes não são os “originais” da maioria delas. Li poucos livros, assisti poucos filmes. Criadores de mangás e animes (e light novels, como é o caso aqui) normalmente leem e assistem coisas. Dependendo do ritmo de trabalho não muitas coisas, mas o importante é: eles têm referências que eu não tenho.

É claro que saber todas as referências do mundo é impossível. Anos atrás decidi me focar em mangás e animes exatamente porque não existe tempo hábil em uma vida para consumir tudo. Mas agora eu não mais me limito a assistir animes: eu estou aqui falando sobre a minha experiência sobre eles para você. Quão bom não seria se eu pudesse abrir mais uma janela para dentro da alma do autor, através de uma referência, um livro que ele leu e influenciou em sua obra, ou um filme que assistiu? Eu preciso de mais repertório. Como? Quando? Nem sei por onde começar.

O título desse episódio de SukaSuka é “Um sonho de uma noite de outono tardio”, o que imediatamente me lembrou Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, obra que eu já tive oportunidade de assistir mas não prestei atenção. Eu sou um imbecil. É uma peça que trata de amores ilusórios, efêmeros. E que tem fadas! Mas o meio do verão não é o fim do outono, e Sonho de Uma Noite de Verão é uma comédia, não uma tragédia.

Pesquisando, descobri a existência de um filme de máfia coreano chamado O Gosto da Vingança (“Dalkomhan insaeng” na transliteração do original, “Doce Tortura” em Portugal). Parece ter romance envolvido também, embora em cenário trágico. Em uma sequência do filme, que também está presente em um de seus trailers (que não encontrei em português), um dos personagens narra a seguinte situação (a introdução já está longa, leia após o corte!):

Em uma noite de fim de outono, o discípulo acorda chorando. Então o mestre perguntou: “Você teve um pesadelo?”, “Não”, disse o discípulo. “Teve um sonho triste?”, “Não!”. “Então por que está chorando tão triste?”, ao que o discípulo respondeu calmamente após enxugar suas lágrimas:

“Porque o sonho que eu tive não pode se tornar realidade”

Isso lembra um pouco SukaSuka, não lembra? Não o cenário, lógico, mas o espírito pelo menos. Assistimos aquelas garotinhas todas felizes brincando, comendo pudim, inocentes quando estão com medo e quando confiam. Assistimos a alegria sem limites de Ithea, uma das mais velhas. E quanto mais felizes elas são, mais infelizes nós ficamos. Bom, eu, pelo menos. E parece que o Willem também.

“É apenas uma ferida superficial”

Aquela enorme mansão no meio de uma ilha isolada, coberta por brumas pela manhã (bastante adequado para um local habitado por fadas), é como um sonho. Um sonho bonito. Um sonho fugaz. Um sonho do qual um dia todos ali estão condenados a despertar. Chtholly (cujo nome parece ser uma brincadeira misturando Cthulhu, uma entidade cósmica gigantesca e aterrorizante dos Mitos de Cthulhu, de H.P. Lovecraft, e holy, “sagrado” em inglês, o que subverte totalmente a referência anterior), a protagonista, parece estar naquele momento do sono em que a pessoa percebe que está dormindo e que tudo não passa de um sonho, mas ainda não acordou. O despertar está próximo (Cthulhu também está dormindo, aliás, segura essa referência).

“Em sua mansão com Willem a ainda viva Chtholly aguarda sonhando”

Willem já dormiu por alguns séculos. O bom sonho que teve? O doce abraço da morte. Como todo o resto da humanidade, ele também deveria ter morrido, e deve ter sido uma grande surpresa para ele quando despertou. Uma surpresa e uma frustração. Será que, como o discípulo, ele também chorou? Enviado para a mansão cuidar das garotas, ele, já calejado com sonhos, logo percebeu que estava no meio de outro. Forçou Nygglatho a despertá-lo como quem se belisca para saber se está mesmo acordado. A realidade que ele descobriu não era agradável. Provavelmente era pior do que ele podia esperar. Mesmo assim ele já viveu muito, já passou por muita coisa, e dessa vez, pelo menos por enquanto, ele não chorou.

SukaSuka é bastante pesado e emocionalmente apelativo, o que funciona bem enquanto seus personagens continuarem carismáticos e cativantes – o que não parece que vá deixar de ser o caso em qualquer momento próximo. Há muitos mistérios sobre o mundo ainda, tanto sobre o que ele foi quanto sobre o que ele é agora, mas terei muitos episódios e artigos para tratar disso. Por enquanto, de relevante, comento que se a eficácia das armas depende de seu desprendimento da vida, a aproximação de Willem pode ser contraproducente e torná-las incapazes de se auto-destruir “pelo bem do mundo”. O que parece muito bom e tal, até a hora que eu penso que isso não necessariamente irá livrá-las da morte – talvez apenas deixem de se sacrificar por um bem maior e tenham mortes dolorosas e sangrentas no meio do campo de batalha incapazes de ativar seu poder. De um jeito ou de outro, quem irá chorar por elas?

  1. Este episódio de SukaASuka foi muito bom e teve um pouco de impacto em em duas cenas, pelo menos para mim. Antes de começar a falar do episódio em si, a tua introdução neste artigo, foi muito boa. Eu já a li umas três vezes e é assustador a maneira como essa introdução se encaixa nos acontecimentos deste episódio.
    Passando ao episódio, ele começou calmo, com umas partes bem fofinhas entre o Willem e as crianças. Afinal pudim afastou todas as desconfianças e receios que elas tinham pelo protagonista. Até aqui tudo bem, até à cena do pátio, onde as crianças estavam a brincar sob a supervisão do Willem. Até que uma delas cai do desfiladeiro abaixo e se magoa, a minha cara foi a mesma que o Willem fez. Como a criança que caiu, com um ferimento profundo na cabeça, diz para ele que está bem. E ainda sob o incentivo das outras crianças ainda se levanta, meio desequilibrada por causa da queda para ir buscar a bola. Essas crianças não sentem medo da morte, nem se preocupam consigo mesmas. Que entidade usurpou e deturpou a mente daquelas crianças, é pior que muitos inimigos que aquele mundo já tenha enfrentado. O coitado do Willem, nem queria acreditar que aquelas crianças, mesmo sendo armas vivas, não tivessem a noção de perigo. Mesmo o Willem ter exigido explicações àquela troll que toma conta das crianças, ele não queria acreditar naquela situação. Como tu bem referiste, era quase como se ele estivesse num sonho, daqueles muito maus. Ele mesmo já tendo visto a sua quota de sofrimento e dor, ele próprio é o último da sua espécie, ele não estava preparado para a dura realidade daquelas crianças, que se veio a descobrir que eram descentes de fadas e que só elas podiam usar determinadas armas para derrotar os demónios que atacam aquela zona. Mas mesmo assim é triste, ver a situação em que as crianças estão. Elas não tiveram culpa de nascer, aliás elas só têm que combater, porque a raça que antes podia manusear as armas místicas já tinha sido extinta. Armas misticas que já existiam quando o Willmem era mais novo, só que agora com outro nome.
    Passando às garotas mais velhas, fico triste com a falsa alegria que elas tentam passar, para os outros personagens. Principalmente para a Ithea, que parece ser a mais alegre e enérgica de todas, mas aquela alegria que ela tenta transmitir, é falsa, ela sabe que pode morrer a qualquer momento. No preciso momento em que a arma que ela empunha, para lutar contra os demónios lhe retirar o resto da sua vitalidade ela morrerá, tal como as suas antecessoras. Eu achei bem triste, a última opção destas fadas, numa batalha. Se elas verem que já não conseguem lutar, terão que se sacrificar para matar os demónios restantes, ou então causar estragos no inimigo. E eu penso que no caso da Chtholly, deve ser a mesma coisa, mas esta cada vez que luta. abusa muito do seu poder.
    Aquela cena, do regresso da Ithea e da Chtholly, foi triste, a própria cara do Willem demonstrava isso. Ambas regressaram arrasadas da batalha, mas a Chtholly foi aquela que mais recebeu dano durante a batalha. A Ithea bem tentou brincar e fazer piada com a situação, mas apercebeu-se a tempo que o Willem não estava lá para ouvir as piadas dela.
    A cena da enfermaria, foi bonita e muito bem dirigida. Quando a Chtholly, num momento de reflexão, decide que o seu último desejo antes de morrer, queria ser beijada pelo Willem. Eu neste momento, esperei que fosse acontecer aquele típico cliché dos protagonistas masculinos que ficam todos malucos quando o assunto é beijar uma mulher. Mas bão, Willem, como bom homem que é, fez-lhe uma massagem, para aliviar os pontos de pressão, que estavam a provocar a febre na Chtolly e no final, este dá-lhe um beijo na testa, quase como um gesto de amor paternal. Esta cena para mim foi muito bem feita.
    Respondendo à tua pergunta no final do artigo, aqueles que vão chorar por elas, seremos nós os espectadores e o próprio Willem. Já sinto no ar, as mortes que estão por vir neste anime. E ainda vamos chorar muito, com os acontecimentos deste anime.
    Como sempre, mais um excelente artigo Fábio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá!

      O Willem me deixou uma forte impressão, e isso não mencionei no artigo, pelo senso de dever e responsabilidade que ele tem. Naquela situação ao final da episódio, com a Chtholly falando sobre morte e último desejo, o caminho fácil seria ele ter dito a ela para não pensar em morte, que se pensassem direito na situação encontrariam outra solução, etc, mas nada disso. É óbvio que ele está muito preocupado com ela e não quer que ela morra, mas ele não diz isso porque se dissesse agora seria vazio, seria uma esperança vã.

      Guerra é guerra, é muito horrível o destino das fadas, mas o que resta? Elas podem viver um pouco e lutar, ou todos no mundo inteiro já poderiam ter morrido há séculos. Eu ainda não tenho intenção nenhuma de simpatizar com quem as transformou em armas, acho-os desprezíveis, mas, como Willem, não sou capaz de oferecer uma solução alternativa, por mais que essa me parte o coração.

      Sobre a cena da massagem: tecnicamente não foi nada, lógico. Mas a montagem visual, principalmente com as reações da Chtholly, foi feita para emular sexo. Ainda vou escrever um artigo de cena sobre isso, hehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! =)

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