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Faz tempo que Lelouch não joga xadrez. Ele construiu toda a sua forma de raciocínio tático e estratégico à partir de sua experiência e maestria no clássico jogo de tabuleiro – que simula guerras, não menos. O problema é que em uma guerra de verdade não se conhece todos os elementos com que se está lidando. Ou em outras palavras, não se conhece todas as “peças” do adversário. Para complicar, peças novas podem entrar no tabuleiro a qualquer momento, e não adianta sequer ter grande sagacidade e capacidade de ler o inimigo porque em alguns casos o surgimento de novas forças e fatos é inesperado por ambos.

Lelouch sofreu com isso logo em sua primeira batalha (na qual ele próprio foi um elemento surpresa). Não parei para analisar agora, mas acredito que ele tenha sofrido com isso, em maior ou menor grau, em todas as batalhas que travou. E ele próprio aprendeu rápido a usar isso em seu benefício – ele é que entrou no tabuleiro como uma peça inesperada em várias ocasiões. Mas essa batalha final da primeira temporada (que nem acabou ainda, mas está em vias de acabar) foi campeã na quantidade e no poder ou efeito dos diversos elementos surpresa que surgiram – três deles, se não errei a conta, contra o governo. Todos os outros contra os rebeldes. Tóquio está em caos e Lelouch sequer está lá nesse momento – o Rei Preto foi embora! Está na hora de jogar o velho tabuleiro de xadrez no lixo; ele não serve para nada em situações reais.


Anime21 Diário

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Posso começar dizendo que estou com raiva que tenha terminado do jeito que terminou? O que aconteceu com C.C.? Por que o interesse em Nunnally? (Foi só para atrair Lelouch mesmo?). Quem atirou em quem naquela caverna? Lelouch atirou? Suzaku atirou? Karen atirou? Ao que tudo indica a rebelião vai falhar, mas se isso acontecer é o fim do Zero, que queimou toda a sua reputação por causa do sequestro da Nunnally. Como não consigo imaginar o Zero se levantando dos escombros que restam de sua reputação sem uma vitória consagradora, acredito que contra todas as expectativas os japoneses vão reverter o caos desesperador em que suas forças se encontram no momento.

Karen revela sua identidade para seus colegas de Conselho Estudantil. Agora não há mais volta para ela.

Claro que logo em seguida precisarão enfrentar o contra-ataque de Schneizel, mas se tiverem conseguido consolidar o poder no arquipélago japonês talvez tenham alguma chance. Podem ainda pedir ajuda oficialmente à China, como nação (re)constituída independente. Eles já estão na porta, felizes de ver o circo britanniano no extremo oriente pegando fogo e ansiosos para que ele parta dali para nunca mais voltar. Ou, mais pragmaticamente, estão interessados é na sakuradita japonesa mesmo. Como se vê, uma vitória japonesa seria apenas o início de um conflito maior e potencialmente mais devastador. Dadas as forças envolvidas, é possível que decidam adiar o confronto – seria o melhor para o Japão. Para Lelouch, que está firme no caminho da vingança, a continuação das hostilidades pode ser bem-vinda. Lembre-se que a próxima pista que Lelouch tem é justamente Schneizel. Enfim, agora quero retomar o tema das imprevisibilidades em uma batalha.

Ougi é traído por Villetta, mas tudo considerado um único tiro não fatal até faz parecer que ela teve alguma consideração pelo último homem que ainda confia no Zero

Começando com as arapucas que Lelouch armou contra os britannianos. O desmoronamento de uma enorme parte da cidade de Tóquio já havia sido antecipado pelo episódio 23, e agora descobriu-se como aquilo foi possível: de algum modo, em algum momento, Lelouch teve tempo para dar a ordem de sabotagem a diversos operadores das plataformas, que são uma medida de contenção anti-terremotos (uma medida burra, se me perguntar, e mesmo se fosse inteligente ainda seria burra por depender de operadores humanos para realizar algo que computadores poderiam fazer mais rápido, melhor e de forma mais segura). Quando foi isso? Desde o início da crise não me parece que ele tenha tido tempo. Não me parece que ele tenha sequer saído do lado da C.C., aliás. Vai me dizer que ele já tinha dado a ordem antes e que ela foi ativada por alguma senha? Estilo o Código 66 de Star Wars? É a única alternativa e não é muito verossímil, mas vamos com ela. De todo modo, o importante é que isso deu imensa vantagem inicial aos rebeldes, que eram numerosos mas não estavam suficientemente equipados e treinados para enfrentar o melhor que a capital tem à sua disposição.

Jeremiah renascido

O segundo golpe de Lelouch foi contra Suzaku. Não sei se ele pretendia matar o amigo de infância, mas me pareceu que o deixou à própria sorte ao não dar ordens específicas sobre como lidar com tão valioso prisioneiro. Dessa vez Lelouch só devolveu o troco, não foi? E preparou para Suzaku a mesma armadilha que já haviam preparado contra ele em batalha anterior. Só não entendi como ele convenceu a Sayoko a colaborar – ele já havia gasto o geass nela, se não me engano no episódio em que foi bisbilhotar a Karen no banho. Ele pediu a ela como Zero e ela aceitou colaborar de boa? Ele blefou ao ameaçar Nunnally para convencê-la a colaborar, assim como ele blefou ao ameaçar Sayoko para levar o Suzaku para onde ele queria? Bom, não importa. A invasão da Academia Ashford e a captura do Lancelot foram um sucesso.

Por fim, parece que quando ele usou o geass no Darlton no estádio sangrento, ordenou que ele traísse Cornelia. Fico imaginando quais foram as palavras exatas que ele usou para obter resultado tão perfeito. E não sei também porque eliminou o Darlton logo em seguida – acusado de alta traição, ele não viveria por muito tempo, mas poderia ali naquele campo de batalha causar ainda alguma confusão entre as tropas britannianas que seria útil à rebelião. Ele deve ter julgado que seria desnecessário e que o risco de mais um oficial de alta patente acusado de traição depois de manipulado pelo geass – e querendo sua cabeça – não valia o benefício dessa hipotética confusão no campo adversário. O problema maior nesse caso na verdade é que pelo o que o próprio Lelouch disse esse caso pareceu mais sorte do que planejamento. O Darlton apareceu, mas poderia não ter aparecido a tempo, foi o que eu entendi. E o Lelouch subestimou terrivelmente a força da Cornelia (ou superestimou a vantagem de uma máquina mais poderosa, ou ambos), era possível sim que acabasse derrotado se não fosse esse golpe de sorte.

E vou começar agora a listar os infortúnios de Lelouch justamente pelo outro oficial de alta patente acusado de traição depois de manipulado pelo geass: Jeremiah. Ele voltou robótico e com um enorme robô super-poderoso. Atrasou e atrapalhou Lelouch o tanto quanto pôde, e ainda destruiu e desestabilizou as forças japonesas no caminho de fuga do protagonista. Nem mesmo os britannianos contavam com Jeremiah naquela batalha. Da mesma forma ninguém contava com Lloyd que, tendo ido apenas para salvar Suzaku, acabou derrubando o Quartel General que Lelouch havia estabelecido na Academia Ashford para libertar todos os alunos que ali estavam – mas é digno de nota que outra perturbação imprevista, a Villetta, foi quem começou o caos no local. E se os dois não tivessem sido suficientes para derrubar o centro de comando japonês, a Nina estava pronta para fazer isso – na verdade, para derrubar Tóquio inteira. Lloyd e Rakshata conseguiram impedi-la por enquanto.

Mas é provável que nem Lloyd nem Villetta fossem suficientes para expulsar a Ordem dos Cavaleiros Negros dos terrenos da escola se não fosse por outro elemento surpresa imprevisível: o sequestro de Nunnally por V.V., que foi de fato o evento mais importante desse final de temporada. Lelouch teria dado um jeito não importa o quê, desde que não perdesse a cabeça. Mesmo se acabassem derrotados, ele conseguiria proferir um discurso contagiante e manteria seu prestígio intacto e consequentemente sua capacidade de continuar agindo para um dia retornarem à carga. Desesperado pela perda da irmã, a sua razão para tudo, porém, Lelouch começou a cometer erros em penca e perdeu a confiança de vários de seus seguidores. O pior: perdeu confiança principalmente entre seus aliados mais importantes.

Suzaku está fora de si

Esse é o momento em que vemos a diferença entre crianças e soldados: Cornelia fez tudo o que fez durante toda a sua vida para proteger a sua irmã, então sua morte foi um golpe muito forte. É a sede de vingança que a está movendo nessa batalha final sim, mas exceto pelo tempo de silêncio reservado que ela teve no quarto de Euphemia, tudo que ela está fazendo é lógico e responsável. Vá lá, as situações talvez não sejam facilmente comparáveis porque, afinal, Cornelia já perdeu sua irmã então não tem mais o que perder, enquanto Lelouch apenas teve a sua irmã sequestrada, então ela ainda está viva e pode ser salva, e é precisamente isso que ele está tentando fazer. Ocorre que o comportamento irracional de Lelouch é também o de Suzaku, que esmurrou Lloyd, desobedeceu ordens superiores e tecnicamente roubou equipamento militar, e está, como Lelouch, ensandecido em campo de batalha – e Suzaku está na mesma situação de Cornelia, já não tem mais o que perder, apenas de quem se vingar. E nessas horas acho conveniente lembrar que Lelouch está desde o começo do anime em campanha de vingança contra os assassinos de sua mãe – apesar do discurso da C.C. no pós-encerramento dizer que ele só queria um pouco de felicidade. Isso é conversa pra boi dormir.

Enfim, o artigo já ficou gigante então vou parar por aqui, sem especulações sobre a próxima temporada (tenho várias). Farei uma pausa de uma ou duas semanas nessa coluna e retornarei com a segunda temporada de Code Geass. Até lá!

Eu acho que a Nunnally esconde algo, mas vou deixar para falar disso na próxima temporada

  1. Só 3,5? Pensei que viria um 4,0 ou 4,5, a depender da sua mão pesada, haha Mas eu concordo contigo sobre alguns detalhes da trama que só nos fazem pensar em como diabos tal coisa aconteceu. Acerca da ordem da meia-noite, a sua conclusão também é a única forma que imagino que tenha acontecido; para ela acontecer, Lelouch teria de ter certeza que invadiria Tóquio. Fica um pouco forçado, mas eu aceito pelo impacto da cena. Sobre a Sayoko, não tenho certeza, mas me recordo de que em algum episódio vi a fotografia dela em um tela que listava os integrantes da Ordem. De qualquer forma, ótimo artigo como sempre. Ficarei aguardando o retorno dos próximos reviews. A segunda temporada, a meu ver, dá um salto de qualidade em vários aspectos com relação à primeira. Mas vai saber o quanto você vai pegar no pé dela, haha.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá!

      Então, eu me lembrei depois de escrever o artigo (estava bastante cansado quando o fiz) que Lelouch já tinha um plano pronto para invadir Tóquio quando a Euphemia anunciou a criação da Zona Administrativa Especial do Japão, então sim, ele teve bastante tempo para cooptar os controladores do sistema da plataformas. Só as plataformas em si que continuam sendo uma burrice, mas vá lá =P

      Acho que vi a Sayoko em uma lista dessas também, mas assumi que ela estava lá porque o Lelouch a enfiou de qualquer jeito, não porque ela fosse de fato associada à Ordem. Ela nunca pareceu ser associada à Ordem dos Cavaleiros Negros, mesmo ela sendo japonesa continua tendo sido algo que veio do nada.

      E a nota, bem, foi bem legal, não foi? Poderia sim ter dado um pouco mais, mas aí acho que estaria sendo injusto com outros episódios que foram realmente incríveis. Esses foram apenas muito bons, com o defeito extra de ser um final de temporada que não encerra nada (nem a temporada, nem o que o próprio arco final começou) e abrir um monte de coisas. Se eu estivesse assistindo na época em que foi lançado eu teria ficado furioso, hehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário, te vejo na próxima temporada! Ou em algum outro artigo antes disso =)

  2. Eu não lembro se cheguei a comentar nessa série de posts, porque fui adiando e adiando os comentários e sinceramente não me lembro. Mas de qualquer forma queria agradecer a série e parabenizá-lo demais, porque adorei todos os posts que já li até agora (e eu já li muuuitos posts de Code Geass na vida, é grande coisa).
    Sobre a sorte daí pra frente as estratégias se tornam muito cagadas e pouco estratégicas, mas é… né. Sobre a felicidade… eu não acredito que a CC estava mentindo sobre ele querer só um pouco de felicidade a princípio. Não que não fosse uma campanha contra os assassinos de Marianne, mas creio que ele não teria paz enquanto não pudesse fazer absolutamente nada a respeito da situação inteira –

    • o meu comentário foi cortado, mas enfim, queria dizer que não são todos os príncipes que perdem a mãe e são deportados com a única irmã legítima agora cega e paraplégica. É… complicado. Enfim, vou ler os outros posts que ainda não consegui ler! Espero conseguir comentar os da temporada seguinte! Até lá!

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Olá!

        Sim, eu acho que ele queria paz. Acho que no mundo isso é um paradoxo, ou uma tragédia? Eu devia pensar melhor, mas é algo nesse sentido: só não quer paz quem sempre a teve e não sabe o inferno que é viver sem ela. Esse não é o caso do Lelouch. Ele quer paz. Mas o caminho que ele escolheu não foi esse, e se em algum canto de sua mente ele queria paz, em outro ele estava ciente de que sua escolha era pela vingança, pela guerra. Quando isso ficou dolorosamente óbvio, ele tentou garantir o futuro dela – longe dele. Tudo deu errado.

        Em que pese o Lelouch ter tomado várias decisões que o levaram ao desfecho trágico da primeira temporada, contudo, os momentos chave de sua queda não estiveram sob seu controle, porém – especificamente, ele não tinha controle sobre Suzako durante toda a série, e a hamartia ocorreu quando seu poder saiu de controle. Acho que a primeira temporada é uma tragédia clássica (grega). Estou apostando que a segunda será shakespeariana – sua tragédia será resultado direto de suas escolhas conscientes. E estou curioso para o que vão tentar na terceira. Existirá uma tragédia pós-moderna?

        Já estou pensando alto e falando besteira =P

        Obrigado pela visita e pelo comentário! =D

        E sim, você já havia comentado uma vez, hehe, pouco antes da hamartia o//

      • “Se queres paz, prepare-se pra guerra”? Totalmente Lelouch, e nunca Suzaku. E calma, muitas águas ainda vão rolar. Aliás, quero ver a tragédia pós-moderna acontecer. 😛
        O Suzaku… é complicado, né? Ele não tinha, mas ele tinha o tempo inteiro a possibilidade de sumir com ele usando o geass. Não fez porque não queria. Aí, bom… foi uma escolha deliberada também. Ele queria uma paz específica, talvez tenha um ensinamento aí (e “ensinamento” em um sentido bastante … inespecífico, não que Code Geass queira ensinar alguma coisa além de “o que fazer pra desflopar uma galera fazendo blockbuster de robozinhos”). Enfim, obrigada novamente e até os próximos!

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Mesmo que o Lelouch fosse controlar o Suzaku com geass, qual seria o comando? É fácil dar ordens simples para pessoas que você só precisa que executem uma tarefa pontual e nunca mais vai ver na vida. Mesmo sem a questão moral de controlar ou não o Suzaku, dar uma ordem a ele para os fins pretendidos pelo Lelouch seria bastante arriscado. Ainda mais porque ele continua presumindo (inteligente que é, é uma assunção perfeitamente válida) que o efeito do comando pode eventualmente passar.

        E eu adoro essa citação de Vegécio, já a usei várias vezes em meu blog, mas ela se aplica a sociedades, estados, nações. Pessoas, indivíduos, ou mesmo famílias, ainda se dão melhor procurando se adaptar à paz possível – e convenhamos, se Lelouch não tivesse se intrometido no roubo da C.C. no começo do anime, nada disso teria acontecido e eles teriam sim uma vida pacífica, ainda que ele fosse mentalmente perturbado para sempre pelo ódio – o que é totalmente um problema dele, não do resto do mundo, muito especialmente de todas as pessoas que já morreram por culpa da vingança pessoal dele.

        É o problema da “paz específica” dele.

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