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A melancolia, do episódio retrasado, e a preguiça, do episódio anterior, concorrem para o título de “menos pecaminoso dos pecados”. Melancolia e preguiça, para esses efeitos, são relacionados. Ainda hoje, no catecismo, uma interpretação da melancolia é a de que ela seja uma “preguiça espiritual”. A falta de alegria do melancólico é associada à recusa de satisfazer-se com a bondade de Deus. Já a preguiça não é pecaminosa apenas por si própria (afinal não se trata de fazer algo, mas de deixar de fazer), mas porque a negligência preguiçosa leva aos demais pecados capitais (ou a pecados menores). O simples ócio não é preguiça: preguiça é deixar de fazer o que se deve fazer.

E a gula? Por que comer é um pecado, se é um instinto natural e algo necessário para se continuar vivendo? É interessante notar que diversas religiões, não apenas o cristianismo, valorizam o jejum como algo virtuoso. A princípio, se pode comparar a gula com a luxúria: sexo também é instinto natural e necessário para a vida, mas luxúria não se trata do sexo necessário (ou erotismo em geral, ou em algumas interpretações qualquer tipo de prazer), mas do “desnecessário”. A gula é semelhante. O que seria comer “desnecessariamente”?


Anime21 Diário

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O Papa Gregório I tinha a resposta exata para isso. Comer implicava no pecado da gula quando a pessoa:

  • Comia fora da hora apenas para satisfazer o paladar
  • Comia comida de qualidade superior apenas para satisfazer-se
  • Comia comida exótica ou excessivamente cara apenas para satisfazer-se
  • Comia muito rápido
  • Comia muito mais do que o necessário

Como pode ver, gula não é apenas comer muito. Basicamente você estava (a forma passada aqui é importante, logo chego nisso) proibido de comer por prazer – e é nesse ponto em que a gula, na prática, se torna uma forma muito específica de luxúria, se entendermos luxúria como qualquer busca por prazer terreno. A ideia presente no senso comum dos tempos atuais contudo é que gula seja apenas comer demais mesmo, e há razões práticas tanto para ser assim como para ter sido diferente no passado.

Beelzebub é a Rainha Demoníaca da Gula de Sin: Nanatsu no Taizai, e é também o demônio associado à Gula por Peter Binsfeld. Ela diz, já perto do final do episódio, que no passado costumava comer muito mesmo. Hoje em dia ela parece ser mais comedida e capaz de sentir prazer com qualquer tipo de comida, em qualquer quantidade – e ainda assim é um pecado? Ora, o tema recorrente do anime é desconstruir a noção de pecado. Ter inveja não é pecado. Sexo não é pecado. Querer dinheiro para cuidar de seus filhos não é pecado. Eu concordo com essa interpretação e essa é uma das razões de eu achar esse anime tão interessante apesar de todos os óbvios pesares: não acho que seja importante (no sentido de distinguir o certo do errado) o que você sinta, mas como você age a partir daí. É possível ter pensamentos horríveis e se controlar e agir de forma exemplar, bem como é possível cometer atrocidades em nome de bonitos ideais.

Comer demais ou comer por prazer era um pecado em um passado em que não havia certeza de que houvesse comida suficiente para todas as pessoas. Meus pais (e aposto que os seus também) costumavam me dizer: “Você tem que comer tudo isso e ser grato! Enquanto você tem um prato cheio de isso daí que você não gosta, tem crianças morrendo de fome na África!”. É lógico que é bastante difícil para uma criança entender a relação causal entre desperdício de comida em um continente e a fome em outro (e ela até existe, mas acalme suas crianças: provavelmente o prato de arroz e feijão delas não tem nada a ver com isso), mas era desgraçadamente fácil para qualquer pessoa entender há alguns séculos atrás, substituindo apenas “crianças na África” por “um monte de pessoas na cidade, talvez seus vizinhos”.

É divertido ver a candidata a Líder Suprema do Inferno tão vulnerável assim – não havia lugar melhor para Belial enganar Lúcifer do que um hospital

A noção do pecado da gula mudou. Beelzebub mudou. Hoje a ideia geral é de que gula é um pecado apenas se ao comer demais você está fazendo alguém passar fome, e depois de sucessivas revoluções agrícolas (a mais recente em pleno século 20, conhecida como Revolução Verde) e globalização econômica é virtualmente impossível que alguém passe fome por produção insuficiente. Mecanismos de mercado e principalmente governos incompetentes (ou em alguns casos assassinos mesmo) são os maiores responsáveis pelos surtos de fome que o mundo passa – inclusive aquele da África na década de 1980 que chocou tantas pessoas ao redor do mundo. Assim, faz sentido continuar considerando a gula um pecado?

Não sei. Mas diante desse panorama traçado, faz sentido que Beelzebub tenha sido a conquista mais fácil de Lúcifer, que até agora vem baseando a sua, digamos, “plataforma”, na noção de que não é necessário combater os pecados capitais para salvar as almas das pessoas. Se não faz mais sentido que a gula seja um pecado, ela já está automaticamente alinhada com o Grande Plano que Nossa Rainha e Salvadora Lúcifer tem para nós.

As duas se tornam melhores amigas no hospital

  1. Acho que este episódio, foi o único que gostei realmente até agora. Mesmo com a sua fórmula de ser a Lúcifer a enfrentar as representantes dos pecados e blá, blá, blá, mas a Beelzebub me conquistou à primeira vista. Esta não tinha interesse algum em enfrentar a Lúcifer, ela apenas queria desfrutar da sua refeição tranquilamente. Mas como já se sabe, a Lúcifer tem pavio curto e desafiou a Beelzebub para uma competição de quem come mais. Eu por momentos, reflecti sobre aquilo que eu sei e conheço sobre a gula e tal cena da disputa de quem come mais, não me pareceu ser a mais correcta, para a Beelzebub, já que esta desde o inicio parecia de não gostar de comer muito, a tal ponto de esta forçava-se a comer. Aquela carne que a Lúcifer e a Beelzebub comeram (aquilo era carneiro certo?) devia estar estragada ou contamina com parasitas.
    Eu desde que as duas se sentiram mal, depois de comerem eu desconfiei da Belial, ela que é doida para derrotar a Lúcifer.
    A parte do internamento da Lúcifer foi muito suspeito, o próprio clima do hospital era duvidoso, a maneira como os enfermeiros se comportavam e tal. E se dúvidas tinha sobre aquele hospital, a aparição da média bem interessante de corpo, eu percebi de imediato que a Lúcifer tinha caído numa armadilha. Eu nunca pensei, que veria num anime, aquilo que este anime mostrou naquela parte, em que a médica avisou a Lúcifer, que esta teria que levar com um supositório para ficar melhor. A cena em si, já era um pouco pesada, mas no anime, mesmo não mostrando o acto em si, o facto do anime dar foco a tal gesto por detrás das cortinas do quarto de hospital. A Lúcifer foi completamente humilhada pela Belial nessa parte. Outra coisa que eu achei estranho, foi o facto do quarto onde a Lúcifer estava, ser um quarto misto. Aqui os quartos de internamento de pacientes são divido pelo sexo, homens de um lado, mulheres no outro. Mas como o Japão é tão avançado em tanta coisa, já não digo nada.
    Aquela parte em que a Levi, parece que fez xixi na cama, foi muito engraçada. Será que aquilo era mesmo urina, ou a Levi teve um sonho molhado por causa de ter dormido na mesma cama que a sua amada Lúcifer.
    A Maria neste episódio esteve muito bem, tão bem que até a Lúcifer ficou com orgulho dela e agradecida por esta ter cuidado dela.
    Adorei a personagem da Beelzebub, tanto no design como a maneira de estar dela. Ela é muito simpática, além que nunca pareceu ser uma ameaça real aos planos da Lúcifer. Foi muito bonito, ver que as duas se tornaram melhores amigas.
    Depois de ver esta versão do Beelzebub neste episódio, eu fiquei admirado como os japoneses transformam, coisas que sempre foram descritas como feias e horríveis em coisas bonitas. Para mim o melhor Beelzebub que já vi num anime, foi a versão do anime Hoozuki no Reitetsu, onde o Beelzebub era um ser demoníaco, magro e feio e cheio de moscas à volta.
    Como sempre, mais um excelente artigo de Sin: Nanatsu no Taizai Fábio

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