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A ideia de felicidade está desde sempre associada a mais fundamental das perguntas: Qual é o sentido da vida? Obviamente definir o que é “felicidade” é em si um grande desafio e se ela for a resposta ao sentido da vida ou estiver a ela relacionada, filosofias completamente conflitantes podem surgir a partir de definições diferentes para “felicidade”. E fica pior: a linguagem em si é uma armadilha, e “sentido” ou até mesmo “vida” podem assumir significados bastante diferentes. “Sentido” é um objetivo? Um estado? Se for objetivo ele é atingível ou é um ideal? “Vida” é apenas a vida humana? É a vida do indivíduo ou a vida da humanidade como um todo?

Longe de querer responder o que tantos ainda continuam tentando depois de milênios, vou só aproveitar esse episódio de SukaSuka para fazer alguns comentários bastante superficiais sobre a filosofia da felicidade, e comentar sobre esse episódio que ao mesmo tempo me deixou tristesatisfeito.

De início, eliminemos qualquer valor transcendental e as escolas de pensamento que dependem delas (notavelmente as religiões) dessa análise, porque no mundo de SukaSuka, embora a alma pareça ser eterna, muito provavelmente não existe deus. E essa alma eterna não é algo que te pertence, mas algo que você toma emprestado e usa durante a sua vida para armazenar suas memórias e sua personalidade. Assim que você morre, ou na iminência da morte, tudo isso se perde. Será isso apenas consequência da magia necromântica de Souwong ou será da natureza das almas em SukaSuka? Não há elementos suficientes para responder essa pergunta de forma satisfatória e não acho que a resposta seja necessária de todo modo. Retornando, portanto, ainda que até teólogos do porte de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino reconheçam a importância da felicidade, eles a interpretam de um ponto de vista místico, transcendental, que não interessa à SukaSuka.

Por que Chtholly estava feliz? Por que ela estava tão feliz que nada mais lhe importava, a ponto dela ter-se abandonado alegremente ao abraço da morte? Seu corpo era multiplamente perfurado pelas bestas durante a sua luta e a dor deve ter sido excruciante, e mesmo assim ela dançava. Poderia estar feliz por estar cumprindo um propósito, como talvez fosse o caso da Nephren (falarei dela adiante)? É improvável que Chtholly agisse movida por propósito ou por um bem maior. Seu salto no vazio não produziu nenhum bem. Ela não salvou Nephren, ela não salvou a nave (que daquele momento em diante pareceu ter conseguido retornar em segurança para as ilhas do céu), e ela não pareceu sequer ter salvado ou, ao fim e ao cabo e à despeito do que ela mesma disse, ter se importado em salvar o Willem. Do ponto de vista utilitário, sua ação gerou mais mal do que bem, e portanto foi um erro.

Chtholly gira como uma criança inocente brincando

O utilitarianismo classifica uma ação em certa ou errada baseado em sua utilidade, que por sua vez é definida como sendo a soma de todos os bens (ou prazeres) de dada ação menos a soma de todos os males (ou sofrimento). Chtholly parecia feliz, então apenas para não dizer que nenhum bem foi produzido, assumamos que ela produziu felicidade para si mesma (a máxima que ela poderia ter durante toda sua vida, segundo a própria). A soma dos males é a soma do pesar de todos aqueles que ficaram para trás: Ithea, Nygglatho, Nopht, Rhantolk, Tiat e todas as garotas do orfanato, Limeskin, os soldados que ela cativou naquela nave, etc. Será que a felicidade individual de Chtholly era maior do que a dor de todas essas pessoas? Se essa definição parecer injusta ou pesada ou sei lá, por qualquer motivo ainda tiver resistência contra ela, lembre-se que a famosa raposa de um dos livros infantis mais populares do século 20 já defendia essa posição: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Essa não é uma definição sem problemas, contudo, e ela foi e continua sendo criticada até hoje, ainda que continue sendo bastante popular. A ênfase dada ao coletivo em detrimento do indivíduo é apenas o primeiro problema. A Chtholly tinha uma crítica ainda mais forte: de que adiantaria ela continuar vivendo se jamais seria tão feliz quanto era naquele momento? Claro que essa é uma afirmação drástica e quando feita genericamente é quase sempre sem fundamento, mas no caso dela provavelmente era verdade. Ela já havia perdido todas as suas memórias, pouco restava de sua própria personalidade a não ser seu amor pelo Willem, e mesmo isso estava condenado a desaparecer depressa. O que ela fez foi escolher quando, onde e como morrer. Advogados da eutanásia certamente aprovariam a atitude da Chtholly. Mas mesmo no caso geral, o fato é que só somos felizes ou infelizes em relação a um estado anterior, donde se constata que o estado de contentamento constante não é terreno fértil para a maior felicidade possível.

Embora o utilitarianismo seja recente (século 18), suas raízes são bastante antigas. A noção de felicidade e prazer como o sentido da vida vem desde pelo menos Epicuro e Aristipo, na Grécia antiga, e suas respectivas filosofias epicurismo e hedonismo. A diferença entre ambos está, adivinhe só, na definição do que é felicidade. De forma bastante simplificada, enquanto o hedonismo incentiva a constante busca por prazer, no epicurismo a felicidade é um estado passivo de ausência de dor, sofrimento e medo. Zenão de Cítio, outro grego clássico, definiu uma filosofia bastante diferente e que permite entender o comportamento de Nephren – e em menor medida, da maioria das fadas: o estoicismo.

O estoicismo não trata de buscar a felicidade ou minimizar a infelicidade, mas de aceitar o que a vida lhe dá, cumprir o seu papel na sociedade e ser um ser humano decente e fraterno com todos os demais seres humanos, independente de posições sociais, riquezas ou origem. No que diz respeito à felicidade, é praticamente o oposto de tudo o que citei até aqui! Nephren era estoica. Através de suas interações com os demais personagens, ela era uma das que mais sabia sobre a real natureza de sua condição e das circunstâncias do mundo. E mesmo assim, por injusto que possa parecer a nós (eu mesmo não cansei de dizer em artigos anteriores, de forma direta ou indireta, que a situação das fadas é injusta), ela continuava repetindo: “esse é o meu trabalho”. Se ela ia morrer, e ela lutou muito além de seu limite sabendo que esse seria o resultado, que diferença faria se os outros morrem ou vivem? E mesmo assim ela lutou por eles. A seu modo, ela era feliz fazendo isso. Ela admirava profundamente Chtholly por quem ela era e por sua capacidade de ser feliz de uma forma completamente diferente dela.

“É o meu trabalho”, diz Nephren

Willem provavelmente encontra-se agora em uma crise niilista. Sua vida passada não apenas foi em vão, como ele descobriu a verdade desesperadora de que as bestas que ele enfrenta não são senão seres humanos. O monstro no fim das contas era humano. Em sua própria cidade, ele provavelmente enfrentou, derrotou e matou vários de seus antigos amigos, colegas, pessoas queridas. Sua vida passada não tinha sentido. Tampouco ele conseguiu preservar o sentido de sua nova vida, dado que foi incapaz de proteger Chtholly – e mesmo que tivesse conseguido protegê-la, ele já estava em crise pensando se talvez seu amor e cuidado por ela não eram apenas uma forma de expiação de suas culpas passadas. A nave foi atacada pelas bestas que nada mais eram que seus antigos compatriotas, muitos dos seus atuais companheiros morreram, Chtholly parecia ter-se perdido para sempre, e nesse contexto ele procurava proteger o pouco que lhe restava cumprindo sua função como guardião das fadas. Em um último ato de desespero, ele saltou atrás de Nephren. Em terra, ele ainda foi forçado a ver sua amada Chtholly sucumbir diante de seus próprios olhos. E se Limeskin estiver certo, Nephren foi logo depois (mas aparentemente Chtholly “limpou” o venenum de Nephren, à moda Madoka Magica, e pelo final é bem possível que os três ainda estejam vivos, mas para todos os efeitos isso não importa para o anime e para a minha análise). Willem jaz arrebatado pelo absurdo da condição humana e a completa ausência de significados e valores. Enquanto seguir sua jornada pelo mundo devastado, Willem deverá procurar seu próprio significado para a vida e tornar-se assim no Übermensch de Nietzsche.

Qual é o significado da sua vida?

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Concordo totalmente! São tantas pontas em aberto que o anime deixou, e pior, várias ele abriu nesse último arco mesmo! Mas foi um bom anime e a relação entre Willem e Chtholly foi bonita de se assistir, então tudo bem =)

Comentários