Koi wa Ameagari no You ni – ou After the Rain – é um anime da temporada de janeiro de 2018 de 12 episódios que adapta o mangá homônimo, e foi exibido no prestigiado bloco NoitaminA. Ele trata de um romance tabu entre uma adolescente e um senhor de meia-idade. Contudo, a trama vai além do romance e se destaca mesmo é pelo aprazível slice of life e drama consistente, além de um excelente trabalho de personagem quanto aos protagonistas. Você precisar saber como é o amor após a chuva!

Logo de cara o anime nos apresenta a Akira Tachibana, uma garota que corria em um clube esportivo da escola, mas teve uma lesão e por isso se afastou das atividades. Na ânsia de preencher seu tempo ocioso a menina conhece um simpático gerente de meia-idade que trabalha em um café.

Tocada pelo gesto de gentileza mais simples ela se apaixona e acaba arranjando um emprego de meio-período no local. Assim começa a história de amor da Tachibana – com tudo de bom e tudo de ruim que ela terá.

Um sorriso para proteger.

Pode parecer bobo alguém se apaixonar por isso, mas precisamos lembrar que é uma adolescente e nessa idade os detalhes mais simplórios nos momentos de maior fragilidade permitem que o jovem encare a possibilidade daquele amor, que ele se agarre a ele como tábua de salvação, principalmente se está ferido, fraco, se procura algo para preenchê-lo.

Na verdade, isso vale até mesmo para o amor na fase adulta, dependendo do estado psicológico e sentimental da pessoa. Todavia, a trama não fica presa apenas ao status do amor platônico e busca desenvolver a relação entre ela e o gentil Masami Kondou no dia a dia, na convivência da qual os dois compartilham; e é aí que está seu grande acerto.

Não existe amor sem amizade.

Koi wa Ameagari no You ni não se trata de um romance fetichista no qual homens de meia-idade irão se espelhar para dar vazão a seus desejos ocultos.

Na realidade, a obra aborda isso de forma madura e inteligente ao aprofundar a figura do Gerente, fazendo com que ele deixe de ser só objeto do amor da garota e passe a ser um personagem, e um que tem que lidar com os sentimentos que ela tem por ele como um adulto responsável e consciente de que não pode transgredir limites; ainda que alguém tão jovem e bonita se apaixonar por ele massageie seu ego.

Kondou assumiu a responsabilidade com decência.

Ele encarna o papel de botar algum juízo na cabeça da garota, mas não por tratar como se fosse inaceitável uma relação com grande diferença de idade, e sim porque ele se preocupa com ela, se torna seu amigo e quer que entenda o que sente.

Sendo que ele mesmo precisa entender o que sente, e usa essa situação pitoresca para refletir sobre sua própria vida, sobre o que ficou para trás lá na sua juventude. Uma juventude que ela representa, já que tem todo um caminho pela frente para buscar sua felicidade, coisa que ele não pensa ter mais.

Quem não tem arrependimentos que atire a primeira pedra!

A relação dos dois é muito bacana e saudável, pois um aprende com o outro nas pequenas situações do dia a dia; um aprende com o outro a enxergar a vida com um brilho no olhar, enquanto o outro é impelido a considerar mais o que está a sua volta e agir menos pelo impulso. Acaba se tornando uma relação de amadurecimento mútuo e contínuo e não um flerte, uma intentona de romance delicado como esse seria.

A maneira como a Tachibana se apaixona se aproxima mais do escapismo para lidar com a frustração por ter sido privada do que ela amava fazer do que de um sentimento natural em si, algo que nasceu não de uma carência afetiva momentânea, e vai ficando claro ao longo da narrativa, de uma forma sutil e gradativa, como desenvolver esse drama assim foi melhor, pois explorou coisas que muito provavelmente ficariam de lado em um romance convencional.

Não importam nossas idades, somos todos humanos banhados pelo mesmo luar.

Com o passar do tempo a concretização do romance vai se tornando cada vez o que é menos atrativo na trama, e sim o quanto a personagem da Tachibana amadureceu, o quanto ela passou a se dar conta de coisas das quais não tinha noção antes e o quanto ela aprendeu a tratar bem seus sentimentos, dar vazão ao que ela quer que se torne real – como é sua volta as pistas.

O mesmo vale para o Kondou, que com quanto mais o conhecemos, mais compartilhamos daquilo que o afligia e daquilo que ele se arrependia. Além disso, vemos como ele se permite aprender com alguém mais jovem e usa essa influência de forma positiva em sua vida. Algo coerente para quem é caracterizado como ávido leitor, uma pessoa fascinada pelo conhecimento que não se prende a preconceitos ou a uma frágil noção de que tem mais experiência.

Um abraço sincero, sem malícia e, acima de tudo, gentil.

Esse anime tem uma trama madura e consistente recheada de bons personagens que buscam ajudar uns aos outros, e dá um excelente exemplo de como lidar com um romance tabu em uma sociedade preconceituosa e taxativa igual a japonesa – que é, ao menos nesse sentido, bem similar a brasileira.

Claro que existem personagens desagradáveis, na verdade, apenas um, mais também não o retratam de maneira vilanesca, se tratando apenas de alguém cheio de preconceitos e tantas outras falhas de caráter. Aliás, o anime passa uma mensagem adequada quando a protagonista bate o pé e não se vê presa a um ciclo vicioso de chantagem.

É verdade, ela erra em um primeiro momento ao sair com um cara inescrupuloso, mas não permite qualquer avanço dele e se mantém firme no que ela tem todo o direito de fazer, ir trás do seu amor, seja por um homem de que idade for.

É assim que uma mulher deve responder a quem tenta fazer mal a ela.

A autora mandou bem ao não ter insistido mais com esse tipo de situação e achei até que ela serviu como um “alerta” para que as mulheres não cedam a homens que queiram se aproveitar de suas fraquezas. Vira e mexe isso tem espaço na ficção, mas não é sempre que é cortado quando deve ser cortado sem maiores problemas.

Porque, infelizmente, é um pouco do retrato do que é a sociedade e não uma propaganda positiva de que o aproveitador sai impune, mas a constatação de que um cara assim pode estar mais próximo do que você imagina e que a mulher deve buscar se impor para evitar ser ainda mais vítima do que ela já é.

Os outros personagens da trama são pouco desenvolvidos, mas destaco a amiga da protagonista e os colegas de trabalho dela que até servem para mostrar o contraste entre um romance normal e um romance não convencional como o que a Tachibana busca ao longo da trama.

A Haruka possui pouco tempo de tela, mas já é o suficiente para fazer o público compreender melhor a situação da amiga no clube, e perceber que as portas para ela nunca se fecharam dentro do esporte que ela curtia praticar.

“Amiga é coisa pra se guardar, do lado esquerdo do peito…”

É aí que o anime se encaminha para o seu final, quando os protagonistas vão tomando noção do que querem e do que podem fazer em suas vidas, quando vão percebendo que o amor impossível os deu a certeza de que poderiam se aventurar em novas possibilidades sem ter medo, que a felicidade não é uma via de mão única e sim uma estrada sem forma a ser moldada por seus desejos e esforços.

Eu entendo a tristeza de quem queria ver um casal sendo formado, mas após ter visto o último episódio eu convido você, caro(a) leitor(a), a refletir sobre essa necessidade, se o fim não foi mais satisfatório desse jeito. Um amor impossível não é necessariamente algo que limita você, não se você tiver sorte de ganhar um amigo antes de tudo, e desse amigo ajudar você e você fazer o mesmo por ele.

Nunca é tarde para correr atrás dos seus sonhos.

Koi wa Ameagari no You ni é um anime de roteiro e direção belíssimos, e antes de me despedir não poderia esquecer de elogiar a excelente animação e trilha sonora, assim como a ótima atuação dos atores de voz e o ritmo leve, mas cadenciado e envolvente com o qual a trama é guiada. Esse é um anime que merece ser apreciado e exaltado, uma obra-prima muito inteligente e gratificante. Até após a chuva!

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