Beastars é originalmente um mangá escrito por Paru Itagaki, que curiosamente é filha de Keisuke Itagaki, o autor de Baki. Pessoalmente mal consigo ver semelhança entre os traços dos dois, aliás, o mangá de Beastars é lançado no Brasil pela editora Panini.

Se você gostar da animação, produzida predominantemente em 3DCG pelo estúdio Orange, que fez um trabalho primoroso em Houseki no Kuni, indico que dê uma conferida no original, mas por ora falemos dessa estreia promissora.

Beastars pode ser da filha do autor de Baki, mas nada tem a ver com este, ou até tem se pensarmos que em ambas as obras os personagens são animalescos, mas em cada caso de um modo bem distinto do outro…

Beastars é uma história em que animais são antropomorfizados, vivem em uma sociedade semelhante a humana e até coexistem, apesar de possuírem uma diferença talvez mais pungente do que a cor ou a raça, a forma como se alimentam.

Aliás, como os carnívoros se alimentam nesse mundo? Eles comem animais mortos ou existe carne sintética? Porque desde os primeiros minutos do anime fica clara uma coisa, predar outro cidadão é crime!

A face da presa é a face do medo.

O assassinato na escola inclusive foi uma primeira cena bem interessante, pois ao mesmo tempo em que brincou com a possibilidade do protagonista ser o predador; mas não deve ser, isso quase nunca rola; trabalhou o tema “instinto” já nos primeiros instantes.

Os animais têm instintos, seja para se alimentar ou sobreviver, mas são os carnívoros que se alimentam de carne. Não me diga… Sendo assim, como não aproveitar esse problema e trazê-lo para a trama, ainda mais envolvendo seres que ainda estão em formação?

Imagino que fora dos muros da escola a coexistência pelo menos pareça mais solidificada e eu entendo isso, pois, repito, a escola é um amontoado de jovens em processo de amadurecimento, prontos para questionar tudo e todos, inclusive uns aos outros.

O legal é que nada foi gratuito, ocorreu um caso de predação na escola e isso aumentou a tensão entre as partes, recuperou temores adormecidos e gerou discussões acaloradas. Acho que o que ainda falta é que mais detalhes sobre o mundo sejam revelados.

Só com eles é que poderemos saber em que passo essa coexistência entre carnívoros e herbívoros está e assim entender o quadro geral, o que também tem sua relevância para entender por que o assassinato do aluno aconteceu.

Carnívoros versus herbívoros, quem está certo e quem está errado?

Algo que curti muito nessa primeira parte foi a clara intenção da direção de dar a entender que o Legosi era perigoso, que estava seguindo seus “instintos”. No final acabou sendo tudo um mal-entendido da ovelha, mas o tema estava ali e deu para sacar bem qual era ele.

O Legosi na verdade é gente boa e, como eu já esperava, o total oposto do que o anime fez parecer no comecinho. Tanto que me parece claro como ele se restringe, como se tivesse medo de dar vazão a sua natureza de predador.

Acho esse tipo de protagonista melhor para a trama como ela se apresentou na estreia, pois a tendência é de que o outro lado de sua personalidade seja mostrado, e que este lado aproveite o que de mais interessante as circunstâncias do mundo têm a oferecer.

O herói é carnívoro, a heroína herbívora, como se dará a relação deles ainda não sei, mas algo é certo, mundo e personagens estão alinhados para que se passe uma mensagem que deve nos interessar, afinal, humanos também são animais, né…

Enfim, gostei da forma como o Legosi expôs estar acostumado ao preconceito e também como o mal-entendido se resolveu. Ele ser amigo da vítima e parecer mais um cordeiro em pele de lobo que o contrário para mim só reforçou sua incapacidade de matar alguém.

Legosi é um stalker da paz.

Por outro lado, não sei se posso dizer o mesmo do Louis, um personagem que gostei logo de cara não só por seu design bonito e porte elegante, mas também porque ele é um ótimo exemplo de que herbívoros também sabem se impor na sociedade.

Ele me pareceu um personagem bastante ambicioso, competitivo e manipulador. Muito sagaz, mas certamente ainda o falta experiência para evitar ou lidar com o “probleminha” do qual o Legosi o salvou. Aliás, quero ver qual será sua relevância na trama.

Louis pode ajudar Legosi a encontrar um meio-termo entre sua personalidade normalmente passiva e seu instinto animal intenso, afinal, ele mesmo é exemplo de que é possível ter uma personalidade arrojada que não dependa da vontade de comer alguém.

Eu sei que isso pegou mal, mas foi exatamente nisso que o avanço do Legosi para cima da Haru no fim do episódio me fez pensar. Aliás, já está mais do que na hora de comentar o que achei da heroína, né? Se duvidar gostei mais dela que do Legosi ou do Louis.

Adorei a Haru, pois tanto ela me pareceu forte para suportar as “pancadas” que recebe dos colegas, quanto frágil. Eu não compro a ideia de que uma pessoa na posição dela não se importa com o que sofre e nem que remoa tudo, ainda que com motivo…

Só não gostei mais do Louis do que da Haru.

Achei a construção da personagem nesse primeiro episódio muito boa, ficou fácil se sensibilizar com ela, mas não sentir pena. Ela nem dá motivo para isso, pois ignora quando lhe parece mais apropriado, mas encara se o problema vem de frente.

A coelha fofa, geralmente símbolo de preza fácil na ficção, aqui é uma jovem que busca se impor ante as adversidades que se apresentam a sua frente e tem suas próprias circunstâncias dificultosas. Haru é uma personagem complexa, ou eu espero que seja.

Não fica claro se ela fez mesmo o que as garotas dizem que ela fez e, quer saber? Quer tenha feito ou não isso não importa, dependendo da habilidade de quem escreve a história dá para entender as razões dela numa boa.

Juntar ela e Legosi pode ser perigoso se o relacionamento dos dois for trabalhado como algo disfuncional, mas duvido muito que isso aconteça justamente pela força que ela demonstrou ter e a passividade dele. A cena final foi um “arroubo”.

E é justamente na excelente cena derradeira que o instinto animal do carnívoro volta a ser explorado e o lobo se lança para agarrar sua presa. Pela atração que a fome proporciona ou é algo a mais? Acho que sei a resposta, mas não sei responder…

No final achei que essa estreia foi mais sobre ela do que sobre o Legosi.

O que acredito é que duas personalidades diferentes têm boas chances de se encaixarem. E ainda que o primeiro contato tenha sido entre predador e presa, eu acredito em uma quase inversão de papeis e acho possível até um cenário em que a Haru se impõe sobre o Legosi.

Quero muito ver como os dois vão se aproximar e o que exatamente o Legosi viu na Haru. Se foi só o desejo primitivo de devorar ela e só com o tempo algo complexo vai se desenvolver ou essa complexidade já estava presente quando ele a agarra por trás.

Por fim, eu achei a animação de Beastars bem bacana e gostei do refino dado a produção, senti um ar de requinte que não costuma casar bem com animes colegiais, mas aqui me pareceu a proposta certa. Não ficou “elitista” nem nada do tipo.

Beastars é uma simples história de boy meets girl com pano de fundo colegial ao mesmo tempo em que não é só isso, há temas interessantes a serem trabalhados e me parece ser uma ideia explorada de forma original o suficiente para prender a atenção do telespectador, e não é por serem animais.

Está bem, não é apenas por isso, já que essa estreia certamente nos mostrou que a história tem potencial para até mesmo superar as minhas já ótimas expectativas. E as suas, como estão para o que vai acontecer entre o lobo e a coelha adolescentes?

Até a próxima!

E algo nasceu entre o predador e a sua presa.

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    Hello peoplessss!!! Dinovo na área!!
    Sendo sintético, Beastars é bom? É!
    Mas o caminho dele é a fábula…E nesse caminho cabem muitas interpretações…

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá James, desculpa pela demora em responder!

      Fábulas exigem interpretação, mas normalmente possuem um e apenas um significado e ele é bastante óbvio. Acho que por enquanto Beastars continua merecendo a etiqueta de fábula, mas como é uma história longa, ainda em andamento, acho difícil que consiga se sustentar dessa forma por muito tempo.

      Deve degenerar em algo misto, com uma trama de drama adolescente normal, mas com alguns temas centrais e resoluções de arco típicas de fábulas.

      Ainda um dos meus preferidos da temporada.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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    …Como o sexo e o amor (um lobo e uma coelhinha problematica)…Não necessariamente nessa ordem…Poder pela violência ou politica (um cervo ou a força de um lobo)…Elucubrações moçada só isso..

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