Kage voltou triunfante a trama, nos mostrando que não existe missão mais importante que proteger os amigos, e justificando coisas no mínimo estranhas que aconteceram até aqui. Mas esse episódio não contou só com isso, como também com desenrolares bastante interessantes sobre os quais falarei agora.

Antes de mais nada, quero reiterar meu apreço a escrita do personagem Bebin, que parece mais “sujo” que o Domas, mas é quase que seu completo oposto, pois ao mesmo tempo em que as claras dá todo apoio aquele que foi delegado a proteger, por baixo dos panos ele “pensa”.

Bebin com certeza não acha que a morte do Bojji seria o melhor para o reino ou para o próprio Daida, mas ele também sabe que não será ouvido se falar isso, então nada mais adequado que passar ao Kage a missão de proteger o Bojji das sombras, evitando assim sua morte certa.

E o próprio Kage merece todos os elogios por sua volta triunfal, salvando o amigo que o deu não só sua amizade, mas também uma nova perspectiva de vida, o que se torna ainda melhor pelo quão parecidos eles são, pelos quão os dois se reconhecem, sendo ambos amaldiçoados também.

Mas antes de entrar nesse campo, como não falar do Domas, o cretino Domas que, se eu entendi direito, decidiu assassinar o príncipe Bojji por livre e espontânea vontade de provar seu “valor” ao Rei Daida, quando sua atitude desde o princípio foi é motivo de aversão deste.

O Daida mesmo mostrou uma faceta bem mais consciente e até sagaz nesse episódio, afinal, por mais dura e egoísta que seja a decisão de matar o próprio irmão, não acho que o raciocínio dele não faz algum sentido, lembrando que ele decidiu isso também influenciado pelo espelho.

Mas essa influência tem seus limites, o que vemos com sua recusa em absorver o poder do pai através do ritual bizarro promovido pelo espelho. Será que esse ritual visa compensar o fato dele não ser filho de dois gigantes, ele é mestiço de gigante com humano? Isso faz algum sentido?

Mas, de toda forma, a sedução desse poder relativamente fácil não o apetece e ele o rejeita quase que de imediato. Ele pode ainda ser obrigado a absorver esse poder, é verdade, mas duvido que o faça por vontade própria, nos mostrando como é parecido com o Bojji nesse aspecto.

Ambos os Reis, ou melhor, ambos os herdeiros do trono, querem conquistar poder por conta própria, sem subterfúgios. Eu não sei se o Daida vai conseguir sustentar essa convicção, mas só de ele conservar esse orgulho, esse tipo de orgulho bom, que desafia a malícia alheia, achei ótimo.

Um caminho mais convencional seria ele aceitar esse poder de bom grado e antagonizar o Bojji com esse “cheat”. Um caminho até preguiçoso se fosse seguido de maneira tão fácil, até porque na outra extremidade da trama temos o Bojji conhecendo novas figuras, acessando novos desafios.

E é então que retorno ao Domas, cuja falta de “determinação” e covardia não produzem nada, diferente do Bebin, que tem o apreço do Rei e age de forma a fazer o melhor pelo reino, manter o primeiro príncipe vivo, talvez até à fim de levá-lo ao trono caso o Daida se “perca”.

Domas tem uma aparência, uma personalidade, uma caracterização, que remete ao contrário. Essa dicotomia se alinha a proposta da obra de não chafurdar em estereótipos e sim buscar desenvolver personagens e interações mais orgânicas, e que tentam subverter os padrões.

Ousama Ranking pode até ser baseado em contos de fadas (o autor mesmo falou isso em uma entrevista e dá para sentir essa pegada na trama), mas em vários aspectos tenta justamente ir na contramão do que essas histórias fazem, nos levando a refletir sobre um mundo mais factível.

É claro que esse certo antagonismo entre “luz” e “sombra”, “simpatia” e obscuridade”, é bolado para levantar essas discussões na trama, mas não é como se também não houvessem personagens mais “padrões” que aparentemente são o que transmitem, como o Apeas, por exemplo.

A própria Hilling foi construída como uma madrasta bem mais realista do que o estereótipo de madrasta má que vemos muitas vezes na fantasia ou seu completo oposto, que é a figura materna boa. A história de Ousama Ranking é simples, mas irresistivelmente bem escrita.

Por fim, ficamos com duas incógnitas. O que o espelho fará com o Daida? Como ele sairá daquela situação? Além disso, o Bojji é amaldiçoado, teve seu poder de gigante (é filho de dois, mas tem tamanho de humano, né) roubado, como e por quem? Conseguirá recuperá-lo? Veremos!

Até a próxima!

P.S.: Uma mão não paga nem metade dos malfeitos, hein, senhor Domas? Mas sabe o que é legal nesse personagem? Eu o detesto, mas não consigo deixar de me interessar pela culpa que ele sente. Mal posso esperar para ver o que será feito desta infeliz criatura, desse Judas Iscariotes ou coisa pior.

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