Ego Jinpachi não tem “ego” no nome por acaso e se o trocadilho com o “treinador” não me incomoda, a roupagem cringe da crença dos japoneses de que podem vencer uma Copa ao produzir seu Haaland sim.

Ainda assim, estou achando Blue Lock daora. Por quê? Primeiro, o Kira (o “Killer” que foi “morto,” outro trocadilho haha) quitou mesmo da trama. Segundo, a “materialização” do monstro, conceito do Bachira, foi animal.

Comparo o “monstro” ao “instinto de gol” que persegue os melhores “strikers,” que posso chamar de centroavantes ou atacantes (afinal, todo centroavante é um atacante), só o que não posso é não achar perturbador 11 em um time.

Contudo, conceitualmente isso faz sentido quando você aborda a ideia do “futebol do zero” como o Jinpachi fez. Conhece a pirâmide invertida (que é até livro)? A ideia de que o futebol era todo ataque no começo, mas a coisa se inverteu.

Não que hoje em dia só existam defensores em campo, mas o jogo geralmente é construído a partir da defesa. Os atacantes diminuíram, se sofisticaram e ganharam diferentes funções além da de atacar, pois gol é importante, mas…

Não tomar gol também é, assim como criar jogadas degols. Inclusive, o próprio Ego cita isso, que o Japão já produz grandes zagueiros e meios-campistas, o que falta mesmo é alguém para finalizar… Só não sei “como” produzem nessas posições.

A apresentação do Sae, o projeto de Messi boçal japonês, não me agradou até por ser bem distante da realidade. Se ele era tão craque assim, por que não virou titular no Real Madrid? Os jogadores japoneses têm evoluído, mas…

Ainda são raros os casos de jogadores world class japoneses como, por exemplo, é o Heung-min Son, o atacante sul-coreano do Tottenham. E não falo isso porque torço pro Tottenham na Europa não, é porque ele é world class mesmo.

Sendo assim, esse descolamento da realidade (escancarado na ideia “genial” de apresentar o Blue Lock ao mundo) me incomodou demais nesses episódios, pois aproximou muito o anime de outros do gênero quando ele poderia ser “mais.”

Felizmente, tentei pensar fora da caixinha e consegui. Achei a ideia dos 11 atacantes tentarem formar um time boa a fim de expandir a visão de jogo deles. Ainda bizarra e tendenciosa ao fracasso, mas perspicaz, de verdade.

Voltando a história do monstro, a parceria que o Isagi e o Bachira começaram a construir nesses episódios (parceria com tons de rivalidade, claro) foi muito positiva para intensificar as cenas em que Blue Lock se sai melhor.

Quais são essas cenas? As cenas de domínio de jogo de pés, contorno das expressões e destaque nos olhos rabiscados. Visualmente Blue Lock talvez só esteja tentando mascarar a ausência de animação fluída em jogo, mas tem dado certo.

Além disso, sonoramente e “roteiristicamente” o anime tem me cativado pelas constantes reflexões a cerca do egoísmo, do “equilíbrio” disso com o coletivo e a complexidade que é botar uma bola dentro das redes do adversário.

Organizando minha “bagunça” (tal qual a do futebol do zero), Sae tá na Disney, o Blue Lock pelo menos parece uma piada a imprensa e em meio a esse extracampo turbulento, curti muito o Isagi refletir mais e mais sobre o seu jogo.

E nisso adentro no território do terceiro episódio, o qual sai das desigualdades estruturais ligadas as qualidades dos garotos (quem come melhor é quem tem melhores números, etc) para focar na competitividade pura e (nada) simples.

Me surpreendi com o VAR que citaram (espero que os operadores não sejam Brs huehue), não com a constante incitação ao egoísmo em contraste ao jogo coletivo, o qual, para a surpresa de zero pessoas, flagelou o time do protagonista.

O time Z, diferente do time X, demorou a entender que precisava ser uma “unidade” minimamente organizada e isso se deveu muito a ausência de alguém para “dar o murro da messa” e tomar as rédeas da situação, como o Shoei fez.

O Isagi não poderia ter feito isso? Não. Ele é o protagonista, ainda tem muito o que evoluir, então fez todo sentido que ele (e o time dele) começassem mal para se recuperar ao longo do torneio, como foi compreensível seu raciocínio.

O Isagi é todo “sem graça,” qual será o diferencial dele nessa história? Seu monstro (instinto) ou sua capacidade de pensar fora da caixinha? Talvez os dois? O que o passe dele, em contraposição a finalização, nos indica?

Que, diferente do primeiro episódio, o Isagi passou a pensar menos na hora de uma decisão importante e passou a confiar mais em seus instintos, os quais não estavam errados, afinal, seu colega marcou o gol de “exibição.”

Nem sempre o melhor, o certo, vai ser chutar ao gol e esse equilíbrio é algo que desejo ver o Isagi compreendendo, até como forma de aceitar suas limitações e usá-las ao seu favor. Isagi ainda tem um longo caminho a sua frente.

O futebol busca o gol como um faminto busca um prato de comida e tudo que esses moleques puderem fazer a fim de dominar as ideias e ações do jogo deve agregar ao futebol deles. Claro, sem esquecerem de serem “fominhas.”

E o Jinpachi trazer o exemplo do basebol para definir o futebol e, a partir disso, reforçar suas ideias foi muito positivo pelo que estou achando que ele está querendo fazer, que é ter ideias, mas não se limitar somente a elas.

Se ele despreza tanto a tática e a disciplina, então por que fez os garotos jogarem em times? Se ele está almejando apenas o gol, por que fez seus ratinhos de laboratório “voltarem” as origens? Jinpachi é um belo dum sacana, né?

E isso é ótimo, pois se é inevitável que um maluco desses seja caricato, mas, pelo menos ele não é vazio de ideias. Estruturalmente o anime segue uma grande bullshit, mas em seu cerne há algo muito legal para nos fazer refletir.

O que é? Que opiniões e sensações diferentes podem existir, coexistir e se colidir a fim de alcançar o objetivo definitivo do esporte futebol, que é o gol. Jinpachi quer o gol e sabe o que tem que fazer para chegar nele.

Isagi está começando a entender, mas a jornada ainda é longa… O Jinpachi não citou craques que nunca ganharam a Copa do Mundo por acaso, né? O que esses garotos têm que ter a fim de superá-los rumo ao troféu?

E é aí que eu acho que, infelizmente, o anime se perde um pouco ao “tirar os pés do chão” sobre as carências do futebol japonês. Ainda assim, Blue Lock segue irresistível, selvagem e cativante. Assista como esquenta para uma partida de futebol e…

Até a próxima!

Comentários