O anime de hoje exige responsabilidade. Digo, talvez seja um dos poucos animes lançados nos últimos tempos que seja recoberto de tamanha unanimidade. Que jogue a primeira pedra aquele que não elogia a grande gama de qualidades de Madoka Magica, e por contraste, a sua efêmera ausência de defeitos.

Vejam bem, o enredo de Madoka, e me refiro ao anime e não a protagonista, é relativamente simples. Temos um ser misterioso que tem o poder de conceder desejos a garotas adolescentes na fase da puberdade, desejos dos mais absurdos, o que me leva a questionar. Qual o limite do desejo concedido? Isso não é realmente explicitado. Sem querer jogar pedra, mas é uma pena que fique tão pouco aprofundado a amplitude do que o Kyuubey e sua trupe podem oferecer. Sério, imaginem o que vocês poderiam desejar. E não falo de coisas complexas, uma mudança sutil no DNA humano que seja, pode levar a um efeito dominó dos mais insanos.

 

 

Isso não é um defeito em Madoka Magica, ainda mais porque o desejo de Madoka, o qual debaterei em um artigo posterior, é bem interessante. Destaquei esse ponto devido ao preço do desejo ser fixo, ou seja, a garota pode desejar o que quiser, e isso será realizado. Eu disse, o que quiser, o que implica que a consequência do desejo pode muito bem interferir ou anular o preço fixo que será pago em troca de tal desejo.

Mas vamos seguindo que comecei a divagar. Essa entidade que representa o poder divino, Kyuubey, é o mestre do destino das garotas, aquele que oferece a maçã do pecado, que concede o paraíso, por assim dizer. E que em troca coleta a sua alma e lhe dá um propósito. As garotas mágicas tem que trabalhar até o fim de sua existência para Kyuubey, elas têm que caçar bruxas, seres que amaldiçoam, seduzem e alienam as pessoas, as conduzindo para a tragédia.

 

 

Esse é o enredo de Madoka Magica, crianças do sexo feminino que tem a oportunidade de vender as suas almas e trabalhar como escravas até o fim de suas vidas para uma entidade misteriosa em troca de um desejo concedido. Aí nos perguntamos, por que elas são obrigadas a trabalhar como escravas. Bem isso é explicitado nesse filme compilatório. Caso as garotas magicas não se submetam ao preço do contrato, elas definham, sua alma, alocada fora de seus corpos, no receptáculo chamado de Gema, turva até deixar de emitir qualquer luz, e quando a escuridão completa abre as portas, elas tanto morrem como renascem, revivem como outro ser, eterno e imortal, a corrupção decadente de suas almas, o colapso e a anomalia que infectam o mundo em maldições, elas se tornam as próprias bruxas que tem por missão combater e derrotar.

A sacada e o mecanismo de funcionamento do anime é simples, garotas mágicas contratadas para combater garotas mágicas corrompidas em bruxas, quando elas vencem, sua Gema pode ser purificada pela alma das bruxas derrotadas. Isso acontece indefinidamente, e caso elas vençam todas as bruxas, com o tempo suas Gemas se corromperam, e caso elas não lutem ou combatam as bruxas, suas Gemas se corromperam, ou mesmo caso gastem muita magia, ou colapsem emocionalmente, suas Gemas se corromperam. Moral da história, sempre existiram bruxas a serem combatidas, e o Kyuubey sempre recrutará novas garotas para enfrentar essas bruxas.

 

 

Parece ser um motor perpétuo, não é? Mas não é. Caso nenhuma outra garota faça contrato com o Kyuubey, ou demais membros de sua estirpe, todo o mundo será amaldiçoado por bruxas descontroladas, e ao que tudo indica, a humanidade chegará ao seu fim. O macete é que por milhares de anos as garotas têm cedido à tentação de se tornar garotas mágicas, e por milhares de anos o ciclo se repete. E sim, por milhares de anos os desejos dessas garotas moldaram a realidade. Não sabemos quais foram esses desejos, não sabemos nem como e nem quando a realidade foi modificada, o que conhecemos é apenas o preço e o mecanismo de funcionamento desse mundo.

Madoka Magica é um anime interessante só por causa disso, e também pela sugestão de que o universo busca o equilíbrio, e que para cada desejo concedido, uma reação adversa ocorre, compensando o desequilíbrio do desejo, mas isso debaterei em outro artigo para não esvaziar todo o assunto aqui. Leiam os próximos.

 

 

E agora vamos a review do filme em questão Hajimari no Monogatari. O filme compila parte da série original exibida no decorrer de 12 episódios, e tenho que confessar, o formato filme funciona muito bem com esse cenário em especial. Temos filmes compilatórios que destoam muito da dinâmica particular dos animes seriados, que tem estrutura episódica e particularidades em cadenciar o seu enredo, mas esse filme de Madoka encaixa como uma luva, diria até que o formato filme é mais adequado para essa história do que o formato seriado, pois pelo que me recordo, o anime em si de Madoka, o seriado, me deixou entediado em vários momentos, o que não acontece aqui, nesse filme.

Não me levem a mal, Madoka é um ótimo anime, mas não me prendeu adequadamente devido a segmentação que a série animada força ao ritmo da obra. Ademais, uma salva de palmas por ser uma obra original e ter tamanha densidade em seu eixo central.

 

 

Sobre o filme em si, o que se destaca? Tudo. Desde a minúcia na apresentação e desvelar da história, com grande ênfase na arquitetura absurdamente linda e incrível que se revelam ao ampliar o horizonte do olhar nas cenas, elementos que ornamentam e climatizam perfeitamente a situação dos personagens, e que fazem um contraste absurdo e elogiável ao cubo quando as protagonistas adentram no labirinto das bruxas. Madoka Magica me encanta, e muito. A ambientação em uma cidade moderna, limpa, organizada e avançada, com amplos espaços preenchidos pelo progresso e superação da civilização, é imersa no conflito transcendental e mágico dentro do caos e da sinestesia representadas pela fantasia demente e doentia da decadência das bruxas. Só isso já é o bastante para matar qualquer descrença em relação a qualidade do que nos é apresentado, mas Madoka Magica não é um anime que é regido por sua ambientação, ela é apenas um suporte, e que suporte, para a história central, para a história que é o enredo que acima descrevi.

 

 

A história das garotas mágicas e de seus conflitos humanos, de sua ascendência como seres sensíveis e de seu colapso como seres demoníacos. Sim, é a variação da significação entre uma criança e um adulto. As garotas podem ser entendidas como a pureza humana em sua plenitude, o potencial infinito de transformação, a luz que constrói o futuro. E as bruxas, as garotas como adultas, imersas no mundo adulto, ou mesmo a pós adolescência, a época da morte da infância, o trauma da vida, o qual, aliás, é muito bem apresentado e representado na figura da mãe de Madoka, a Junko, em seu diálogo profundo e sincero para com a filha. As alegorias e o peso da vida, as dores e sofrimentos. Esses sentimentos que degradam a felicidade e arremessa as pessoas no desespero, esse é o gatilho final que representa a queda da magia em maldição, da sanidade em loucura, da generosidade em egoísmo. As catástrofes naturais são o futuro da infância, por assim dizer.

Temos toda essa pungente energia nesse cenário, o qual, como destaquei, tem por centro a intimidade dos sentimentos das garotas. Mami, em sua solidão inconsolável, Kyouko em seu trauma indescritível, Sayaka em sua impotência soberba e Madoka em sua gentileza inadequada. Cada uma imersa em conflitos íntimos e em constante atrito umas com as outras. Essas características são o veneno que se acumula e as leva a maturidade, e isso sem esquecer de Homura, a alma obstinada que luta contra o universo de modo resoluto.

 

 

Madoka, apresentada para essa realidade insana, é constantemente alertada por Homura, ou mesmo controlada, para que não ceda as vontades de Kyuubey, o qual constantemente arremessa a garota em face da tragédia. Mami, aqui sendo a veterana e a trabalhadora afetuosa, que busca salvar as vidas que são ameaçadas pelas bruxas, é uma figura responsável e fiel a sua escolha, cumprindo adequadamente e diligentemente a sua tarefa. Kyouko, a garota rebelde e violenta, faz contraponto para mostrar que nem todas as garotas mágicas são submissas a valores positivos, ela, ao contrário, preza apenas por si mesma, pois sentiu na pele as consequências de seus desejos. Sayaka, a melhor amiga de Madoka, se arremessa nas lamúrias do amor e do ódio, sendo a caótica tempestade que se esvai em desespero. Sua psique se despedaça e implode o seu discernimento.

Deixarei para os próximos artigos uma maior elaboração das personagens de Madoka Magica, e assim considerarei esses artigos como uma mesma monolítica estrutura de análise. Ou seja, acabei por apresentar aqui, parcialmente, a constituição geral desse filme e dessa obra chamada Mahou Shoujo Madoka Magica. Mas como não quero o deixar muito longo, o continuarei nos demais. Nos vemos em breve.

 

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