Finalmente posso dizer que valeu a pena começar essa jornada de resenhas dos filmes de One Piece, digo, o emblemático sexto filme dignifica tão bem a expressão de uma personalidade e primor de adaptação, utiliza de maneira tão pertinente e controlada a espinha dorsal da obra, e inova em liberdade ampliando ou remodelando elementos centrais da essência de One Piece, que é indiscutivelmente um filme incrível.

 

 

Logo no começo percebi que tinha algo ali. Não tenho costume de pesquisar a equipe de produção de um filme ou de qualquer obra animada, mas algo ali me era familiar, muito familiar. A linguagem expressiva dos quadros, o fluxo distorcido da animação que se estabelece exatamente naquela linha tênue entre feio e o artístico, a cadência de flames e a conexão atmosférica regada a interação mais orgânica e verossímil impecável ao considerar os personagens e suas personalidade.

Sim, tudo nesse filme me cheirou a maestria.

Entretanto, como um todo, o filme não tem nada de perfeito, por mais que elogia os inúmeros pontos positivos e o excelente trabalho realizado pelo diretor e pela equipe, esse filme utiliza de recursos simplificadores e fantásticos para imergir o espectador em seu encanto, sem jamais revelar ou desenvolver explicação total para os eventos mistérios que o circundam. Na verdade, é até o contrário, o filme propositalmente se concentra em se entregar pelo fluxo das emoções, dispensando qualquer lógica real que desvende o que diabos aconteceu com aquela ilha e como diabos a situação acabou como acabou.

 

 

Porém, mesmo que não explicita, a animação nos proporciona a interpretação adequada e uma resposta que facilmente acessamos. A habilidade no como a história se desdobra, desenvolve o sentimento pleno de satisfação frente ao desfecho conclusivo de todos os conflitos.

Vamos aos fatos ainda não mencionados. Quem está a cargo desse filme é ninguém menos do que Mamoru Hosoda, um dos diretores mais proeminentes dos filmes em animação de nossa geração. Ele é cirúrgico, não apenas domina a linguagem própria da fantasia, do suspense e da comédia, como intercala o filme em três momentos distintos.

Perante a duração de um dia, os chapéus de palha adentram a aventura pelas fronteiras de uma ilha paradisíaca, ou um resort de entretenimento que descobrem em um folheto, uma isca e chamariz para piratas gananciosos que cruzam as redondezas. Essa ilha garante atrações que fisgam individualmente cada um dos membros, e ao mesmo tempo, os arremessa em circunstâncias hilárias frente ao surreal.

 

 

Como disse, o filme se entrecorta no percurso de um dia, o começo ensolarado e alegre, enérgico, frenético e criativo regado a eventos esportivos e rivalidades competitivas. O líder da ilha paradisíaca, o Barão, almeja quebrar o espírito de amizade dos Mugiwaras, mas acaba vencido pela inventividade insana do bando. Do calor da manhã seguimos para o acirramento do dia, onde o humor prevalece constante e a vida do filme pulsa. Após rirmos até sentirmos dor, chegamos ao segundo ato, o momento em que o mistério entardece, literalmente, onde o crepúsculo toma forma e a sombra de um dia cai pesada sobre a melancolia dos eventos tragicamente apresentados. Essa transição é aplicada de modo tão delicado que nem percebemos que conforme a atmosfera e as cores esmaecem, conforme a escuridão se adensa, o humor desaparece e a amargura prevalece. Conforme a densidade do terror finca os dentes na realidade, o medo e ansiedade tomam formas, o breu da noite adentra pelo desespero, o choque paralisa não apenas os personagens, mas a nós, que assistimos.

A condução precisa do traço e da angustiante situação, o manejo com os diálogos e a exposição lenta e gradual da situação, tudo é apresentado de maneira tão natural que somos asfixiados pela competência com que todo o palco é montado.

 

 

A noite profunda perfura o coração de Luffy, completamente derrotado e impotente.

Todos os arcos dos personagens secundários e coadjuvantes florescem majestosamente, todos os personagens principais tem o tempo e os holofotes pelo tempo adequado, tudo se amarra como um poema visual de encher os olhos.

Não quero entrar em detalhes exatamente por desejar que apreciem essa grande façanha da animação, para que percebam a maestria de uma condução diretiva de tantos elementos que se conectam e engrandecem.

 

 

Como disse, não é um filme perfeito, mas é herdeiro de uma beleza sensitiva e emotiva ímpar, é uma saga que supera, e muito, todos os filmes anteriores, e que facilmente poderia estar elencado de igual para igual com qualquer clímax pertencente ao cânone principal da franquia.

Aliás, todas as imperfeições, como disse, podem ser facilmente dissolvidas pela compreensão da premissa, e do adequado estabelecimento do conjunto de elementos que guiam a nossa experiência por essa obra. Tudo pode ser resolvido pelas entrelinhas que se ocultam e são ditas sem se pronunciar abertamente, mesmo que exijam certa abstração de respostas definitivas e cobrem um ângulo de deleite pelo fantástico, ainda assim, é um filme impecável no que tange a habilidade e condução dos eventos, no desfecho e equilíbrio dos papéis, nas amarras e harmonia com que guia os sabores da história.

 

 

Os três atos demarcados e ambientados de maneira sublime ao ponto de nem percebermos o estabelecimento do inferno, e quando percebemos, lá estamos. A batalha minimalista de um perdedor que estava morto desde o princípio, e digo isso ao me referir ao antagonista, mas posso também alocar o protagonista nessa página que escorre uma morte anunciada.

A flor arrebenta o solo duro e infértil para sugar a vida e parasitar o coração do homem cujo sonho se perdeu.

 

 

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