Isekai e Alta Fantasia: Mundos alternativos, paralelos e virtuais

Bom dia!

 

“Fantasia pode ser considerada uma fuga de uma realidade complexa para um mundo mais simples, o anseio por um passado que nunca existiu, ou um veículo de regressão.”

 

Essas são as palavras exatas (livre tradução minha) de Lloyd Alexander, escritor americano, que cunhou o termo Alta Fantasia (“High Fantasy”) em seu ensaio “High Fantasy and Heroic Romance“, em 1971.

As nossas duas listas de animes isekai e nossa lista de mangás isekais estão entre os artigos mais populares do Anime21, e desde Dezembro de 2018 um deles é citado como referência na entrada Isekai da Wikipedia em português. Assim sendo, achei por bem escrever um artigo mais longo sobre o gênero e sua equivalência literária no ocidente. Não pretendo exaurir o tema, até porque isso seria muito para um blog.

Mas tentei fazer bastante.

Lloyd Alexander pode ter criado a expressão alta fantasia, em associação ao romance heroico (com efeito, é mais sobre o segundo que se trata seu artigo, que seria um subtipo de alta fantasia), mas não fez muito para defini-la.

Nesse artigo, vou partir de definições mais amplas para definições cada vez mais estreitas, até chegar ao gênero Isekai em si.

Uma história de fantasia é uma que se passa em um mundo diferente do nosso, assim que definir o que seria esse mundo é importante tanto para definir o que é fantasia quanto é, para um autor de fantasia, importante definir o seu mundo para que a história seja de fantasia.

De acordo com Kelly Cipera, em artigo no Fandomania, uma história de alta fantasia pode ocorrer em um mundo totalmente separado do nosso, em um mundo secundário a que se pode chegar a partir do nosso, ou em um mundo secundário dentro do nosso próprio mundo.

Isso não parece ajudar muito, não é? Ou está separado, ou tem interseção, ou está contido. Que outros estados possíveis poderiam haver, de todo modo?

Mas ainda que as definições estejam vagas ou insuficientes, elas serão úteis, então dê atenção a elas.

Em seu artigo, Cipera lista mais algumas definições, sendo a mais importante na minha opinião a do herói da alta fantasia: em uma história de alta fantasia há um herói, às vezes de origem humilde, que precisa superar suas circunstâncias e é compelido a agir por condições ou eventos além de seu controle. Nós vemos esse personagem crescer e se tornar alguém grandioso, vencer mesmo contra todas as chances e desafiar o mal e a corrupção.

Ela dá ainda uma dica importante, que não diz respeito apenas à alta fantasia e sempre vai nos ajudar quando estivermos em dúvida sobre como classificar determinada obra: os subgêneros fantásticos não são mutuamente exclusivos.

Isso significa que uma história pode ser ao mesmo tempo, por exemplo, fantasia urbana e espada & magia. Isso vai ser importante na conclusão desse artigo.

De volta ao problema da definição do mundo de alta fantasia, eu vou usar a definição concisa da Wikipedia em inglês, que se você pesquisar verá que está de acordo com o que a maioria dos autores e críticos aceita:

 

“Alta fantasia se passa em um mundo alternativo, fictício (secundário), ao invés do mundo real ou primário.”

 

Assim, de volta à Cipera, o mundo da alta fantasia pode sim ser um mundo separado ou um mundo secundário conectado com o real, mas dificilmente poderia ser um mundo secundário dentro do mundo real. Não é impossível, porém, depende da capacidade e intenção do autor. E nunca se esqueça: os subgêneros fantásticos não são mutuamente exclusivos.

Em contraste à alta fantasia, a história fantástica que se passa no nosso próprio mundo, o mundo real, primário, é chamada de baixa fantasia. Alta e baixa nesse caso não têm nada a ver com a qualidade da história, mas apenas com o cenário em que ela se passa.

O mundo real com fantasia adicionada tipicamente é chamado de baixa fantasia, mas em alguns casos a definição pode ficar em uma zona cinzenta. No final, talvez seja o caso de lermos o que escreveu um dos maiores autores de fantasia, aquele cuja obra codificou o que conhecemos sobre alta fantasia hoje em dia: J. R. R. Tolkien:

 

[O mundo de fantasia é] “um Mundo Secundário no qual a sua mente pode entrar.”

 

Tolkien escreveu isso em 1947 no ensaio entitulado “On Fairy-Stories“. O que ele quer dizer com um mundo no qual a “sua mente pode entrar” é que, enquanto a ficção normal pede suspensão de descrença, esse não é o caso no conto de fadas, se o autor for habilidoso o suficiente para escrever um, pelo menos.

Uma nota antes de continuar: a minha tradução livre não faz justiça à escolha deliberada de Tolkien pelo termo “fairy story”, muito menos comum do que “fairy tale”. Faz sentido a escolha por um termo novo porém familiar porque o autor estava, justamente, definindo com suas próprias palavras o que vem a ser um Mundo Secundário. Não é qualquer conto de fadas que atende os requisitos da alta fantasia, ou como ele definiu, da “fairy story”. Agora retornemos ao ponto.

O mundo secundário, conforme Tolkien descreveu, deve possuir coesão interna e deve revelar isso para o leitor, de forma que ele não exige suspensão de descrença: ao ler a história, o leitor é transportado para aquele mundo e tudo nele simplesmente se torna real, verdadeiro. Não há necessidade de suspensão de descrença. Pelo contrário: se ocorrer da história exigir suspensão de descrença, seu autor terá fracassado.

Tolkien era um autor rigoroso.

Sobre a coesão interna de um mundo de alta fantasia, Lloyd Alexander foi mais sintético:

 

“O mundo de fantasia faz algum tipo de sentido. Se há ambiguidades nele, elas são reconhecidas como tais.”

 

É uma definição que abraça a de Tolkien ao mesmo tempo em que deixa espaço para manobra: o mundo secundário pode ter ambiguidades. Ora, o nosso próprio mundo real, primário, não parece-nos muitas vezes estar cheio de ambiguidades e perguntas sem resposta? De certa forma, isso é parte do que dá verossimilhança a um mundo fictício. Algo perfeito como um relógio talvez seja artificial demais e se sabote por causa disso.

Um comentário final sobre os mundos secundários é importante de se fazer: eles são sempre mundos totalmente separados (ainda que possam possuir ligação) do mundo primário?

Depende do que se quer dizer com “totalmente separados”. Em certo sentido, nem a Terra-Média de Tolkien é “totalmente separada”. Ela foi criada, e o autor mesmo disse isso em mais de uma ocasião, como uma versão alternativa do passado remoto da nossa própria Terra – o mundo primário!

Deixo aqui esse link para perguntas e respostas sobre o tema no Stack Exchange, porque as respostas estão cheias de referências para textos e entrevistas do autor britânico, e a maioria delas não está em domínio público.

Agora sim, isekai. Tudo o que vou escrever aqui é baseado no artigo Isekai – A World of Possibilities, de Max Rivera, para o blog A Fun Derangement of Epitaphs.

A primeira definição que ele dá é:

 

[Isekai é] “uma história em que os personagens são jogados em outro mundo. Esse é um mundo que difere vastamente daquele que conhecemos; tem uma cultura diferente, um idioma diferente, leis diferentes e uma história diferente.”

 

Esse “mundo que difere vastamente” e que tem “uma cultura diferente, um idioma diferente, leis diferentes e uma história diferente” se parece um bocado com o mundo de fantasia que “faz algum tipo de sentido”, ou seja, possui coesão interna, de Lloyd Alexander, e no qual a nossa “mente pode entrar”, sem necessidade de suspensão de descrença, de Tolkien.

Ele prossegue na definição do mundo do isekai:

 

“Um mundo completamente diferente ou mesmo paralelo ao que nós conhecemos.”

 

Esse mundo completamente diferente que Max descreve é terrivelmente parecido com o mundo secundário da alta fantasia, conforme definimos até agora, não é? De fato, isekai não é senão alta fantasia. Normalmente, claro, sempre pode haver exceções (embora Tolkien talvez preferisse que as chamássemos de fracassos, e não de exceções).

Simples viagens no tempo por exemplo são desprezadas por muitos como não sendo alta fantasia. Tolkien em On Fairy-Stories comentou especificamente sobre A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, e como ele não é uma “fairy story” (alta fantasia). Embora ele tenha usado o exemplo para, no fundo, demonstrar como as fronteiras do gênero não são tão bem definidas.

Se uma viagem no tempo não é alta fantasia, o que dizer de InuYasha? Por todos os meios, o mangá de Rumiko Takahashi está de acordo com a definição de isekai. Ou o Japão Sengoku sobrenatural de Takahashi não é “vastamente diferente daquele que conhecemos”, não possui uma cultura, leis e história diferentes, com seus youkais rondando e aterrorizando os seres humanos?

É preciso ser mais diferente do que isso? Bom, ainda é o “mesmo mundo”, apenas em período de tempo diferente, distância vencida pelo Poço Come-Ossos. O que dizer então de Youjo Senki? É uma versão alternativa do passado, e é sem dúvida um mundo diferente, para o qual o protagonista foi propositalmente enviado. É alta fantasia ou não é? Isekai ou não?

Porque em um o que separa os dois mundos é o tempo e no outro o espaço dimensional, um pode ser e o outro não pode ser alta fantasia ou isekai? Tolkien mesmo disse que a distância no tempo pode sim, no mínimo, desafiar a definição, e não vou ser eu a duvidar de Tolkien. A distância no tempo pode sim ser suficiente para determinar um mundo secundário. É necessária avaliação caso a caso, bom senso, e entender que nem sempre será possível uma definição certeira.

Em termos históricos, provavelmente o primeiro livro contemporâneo (há exemplos mais antigos) de gênero isekai no Japão é Isekai no Yuusha, de Haruka Takachiho, publicado em 1979. Outro exemplo da mesma época é Rin no Tsubasa (1984), de Yoshiuki Tomino, o criador de Mobile Suit Gundam.

De longe o caso mais difícil de classificar são o das histórias em que o mundo secundário é um mundo virtual – um game, normalmente. Para alguns, o fato do mundo secundário não ser “real” (não ter existência física) é o suficiente para rejeitar qualquer pretensão de uma história do tipo ao gênero isekai. Max define assim esse tipo de história:

 

“Ficção de realidade virtual na maioria das vezes alude a um mundo diferente ou paralelo ao mundo que nós conhecemos. Talvez não seja um mundo físico, mas ele dá a sensação de entrar em um mundo completamente diferente.”

 

Nesse ponto eu entendo que, quando escreve “dá a sensação”, ele se refere aos tropos e clichês comuns do gênero isekai. Então histórias em mundo virtal podem se passar em um mundo diferente, com suas próprias regras e sua própria coesão interna. Ele provavelmente é, em alguns casos sem espaço para dúvidas, noutros dentro de uma zona cinzenta, alta fantasia. E isekai é alta fantasia. Se uma história de mundo virtual é alta fantasia, como isekai, e possui os tropos e clichês do isekai, por que ela não seria isekai?

É o mais recente dos subgêneros, então é compreensível que haja divergências e confusão quanto a sua definição. Embora não seja assim tão recente quanto muitos devam pensar: a primeira light novel do gênero é Criss Cross, de Kyouichirou Takahata, de 1994, cuja história reúne 256 jogadores em um servidor de um “RPG Virtual”. Só muito depois viriam .hack e Sword Art Online.

Há histórias em mundo virtual para todos os gostos. Digimon é uma das mais famosas, na qual o mundo digital é praticamente um mundo paralelo, independente, e os digiescolhidos se transportam com corpo e tudo para ele. Dependendo da temporada podem ir e voltar a qualquer momento ou não, o mundo digital é um mundo paralelo que sempre existiu ou foi criado por seres humanos.

Sword Art Online em sua temporada original e .hack, no caso de seus protagonistas, possuem uma fórmula mais comumente associada ao gênero: o mundo virtual é um game, os jogadores continuam no mundo real em corpo, mas imergem mentalmente no mundo virtual (secundário) e de lá não conseguem sair.

A partir da segunda temporada de SAO, bem como no caso de todos os personagens secundários de .hack, que não estão presos no game, os jogadores podem entrar e sair a qualquer momento, o que costuma ser um argumento contra a classificação desses como isekai. Ora, há alguém que dirá que Gate não é um isekai? E nele, contudo, é possível ir e vir entre o mundo primário e o secundário livremente.

Há também casos como Overlord, em que o jogador fica preso no mundo virtual e não se tem mais nenhuma notícia do mundo real, ficando mesmo a dúvida sobre se aquilo ainda é um game ou se tornou um mundo físico paralelo de fato. Tate no Yuusha provoca ainda mais, ao estabelecer que o mundo secundário é, sim, físico, mas ao mesmo tempo ele existe tal como é em forma de game, portanto virtual, nas várias versões do mundo primário das quais cada herói veio – exceto, claro, no mundo primário do qual veio o herói do escudo, protagonista. Os heróis podem até mesmo acessar menus estilo-RPG e evoluem tal e qual em RPGs!

No fim das contas, em caso de dúvida, lembre-se do que escreveu Kelly Cipera: os subgêneros fantásticos não são mutuamente exclusivos.

 

  1. Avatar

    Um texto coeso e que me levou a um subgênero que não conhecia: Isekai. Você discorreu de tal maneira que levanta mais dúvidas do responde especificamente sobre a alta fantasia, e foi o que me cativou. Ora, se não for para questionarmos e debatermos a fantasia somos levados pelo mesmismo e o gênero nunca evoluirá.

    Parabéns pelo ótimo artigo.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Rodrigo, tudo certinho?

      Primeiramente, fico feliz que tenha não só gostado do meu artigo, como tenha sido levado a refletir por causa ele. Foi essa exatamente a minha intenção.

      A fantasia como gênero, do qual o isekai faz parte, não é imutável. Ela muda com o tempo, muda de acordo com cada autor, muda de acordo com o lugar onde é escrita, muda até mesmo de acordo com as conveniências comerciais das empresas que produzem e publicam esse tipo de material. Querer estabelecer uma definição rígida para algo que por natureza é dinâmico na melhor das hipóteses é inocência, na pior é presunção.

      O que eu fiz, pois, foi citar um conjunto variado de autores que já se debruçaram sobre o tema para melhorar a nossa compreensão e delinear um pouco melhor os contornos do gênero (ou do subgênero, se considerarmos a alta fantasia um subconjunto da fantasia), sem no entanto trancar suas fronteiras.

      E no final das contas eu fiz isso movido por discussões comezinhas. Publicamos listas aqui, que são artigos simples para os nossos leitores descobrirem coisas novas para ler ou assistir, mas vez ou outra aparece alguém debatendo se tal ou tal obras deveriam mesmo estar na lista, porque o gênero na verdade é isso e aquilo. É um debate cansativo e bastante comum no caso do gênero isekai.

      A resposta é que não há respostas. Há elementos que aproximam e elementos que afastam. Cada um sabe de que elementos gosta, então tentamos sempre ser abrangentes, ao mesmo tempo em que deixamos claros os nossos quesitos para a lista e descrevemos com alguma liberdade sobre que elementos esperar de cada obra. A partir daí o leitor ou leitora já é capaz de tomar sua decisão. É isso o que importa.

      Muito obrigado pela visita e pelo comentário! 😊

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Guilherme, tudo certinho?

      É Tate no Yuusha, anime de janeiro desse ano e que continua em transmissão.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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