Definitivamente isso é um romance. E a parte musical não ficou nada mal nesse episódio também. Até o drama começa a dar sinais de que ficará encorpado e, enfim, existirá. Em resumo, em termos narrativos, esse episódio acertou em tudo onde o anterior errou. Será isso um bom sinal? Eu quero que seja, mas não posso deixar de ficar desconfiado. Afinal, os mesmos produtores desse ótimo episódio foram capazes de produtir aquele desastre de primeiro episódio. Terá sido um erro pontual? Será que esse segundo episódio definirá o tom da série? Ou será que ela irá variar loucamente e seus episódios terão níveis de qualidade aleatórios no largo abismo que separa esse episódio de seu anterior? São questões interessantes, mas irrespondíveis. Não depende de mim, de você, só podemos especular. Então, ao invés de perder tempo com isso, vou falar de como foi e do que achei desse excelente segundo episódio!

Kousei ao voltar à sala de espetáculos depois de muitos anos. Ainda é reconhecido, ainda se sente desconfortável

Kousei ao voltar à sala de espetáculos depois de muitos anos. Ainda é reconhecido, ainda se sente desconfortável

Começarei pela constatação mais, literalmente, visível: a animação não é o forte de Shigatsu. Se estamos apenas no segundo episódio, lembrando que os estúdios costumam gastar mais com a animação dos primeiros episódios para impressionar os espectadores, e mesmo assim temos uma enormidade de cenas que não passam de uma câmera se movendo através de uma imagem estática, queda-se provada minha afirmação do início desse parágrafo. A animação de Shigatsu wa Kimi no Uso é muito fraca. Vastas porções do episódio são close-ups, cenas estilizadas e outras técnicas comuns em animação de baixo custo. Mas justiça seja feita: se eles tinham algum orçamento para a animação, todo ele foi gasto na performance de Kaori ao violino. Foi uma cena muito bem animada, não foi perfeita, mas foi muito bonita e bastante detalhada. Fez jus à música tocada pela garota. E a animação ruim do resto do episódio acaba aumentando, por contraste, a beleza da cena.

Kaori e a platéia, antes da apresentação

Kaori e a platéia, antes da apresentação

Nesse episódio Kaori tocou em um concurso de violino, e não perdeu a chance de demonstrar mais uma vez o quanto é um espírito livre. Ignorando que se tratava de uma competição, e portanto os participantes estavam sendo avaliados segundo sua capacidade de seguir fielmente a peça musical proposta, ela apresentou sua própria versão da música que embasbacou completamente plateia e jurados. E eu, que pouco entendo de música erudita (sei o bastante apenas para chamá-la de erudita, e não de clássica), fiquei bastante impressionado com a música tocada também. Devem ter contratado um bom músico para aquela cena (ou adquirido os direitos para usar no episódio uma música já existente). Mas como apesar da performance deslumbrante Kaori não havia seguido a partitura corretamente, o que é fundamental em competições, não restou aos jurados, mesmo aqueles que ficaram comovidos com sua apresentação, senão desclassificá-la. Não que ela se importe com isso, ela diz ao final das performances que não liga para classificação. Ainda assim, ela foi eleita a melhor pelo voto popular da plateia e passou para a próxima fase da competição. Kousei, que nem queria ter entrado de novo na casa de espetáculos onde ele já sofreu no passado, ficou especialmente tocado pela música de Kaori, a ponto de reconhecer mentalmente ao fim das apresentações que já estava apaixonado. Lembre-se: ele acabou de conhecê-la! E foi maltratado por ela por conta de um mal entendido!

Tsubaki estava certa, olhos de pessoas apaixonadas brilham, Kousei

Tsubaki estava certa, olhos de pessoas apaixonadas brilham, Kousei

Antes de continuar, permita-me uma digressão. Afinal, música clássica ou música erudita? Rigorosamente falando, música clássica é aquela produzida pelos músicos clássicos, que o eram por serem adeptos da corrente artística conhecida como classicismo. Sim, é a mesma da literatura, embora cada uma tenha suas características e não tenham coincidido exatamente em seus momentos de início e de fim. Beethoven por exemplo, tocado por Kaori e pelos demais participantes do concurso, não era clássico: era romântico. Na verdade foi um grande compositor no período de transição entre os dois movimentos, mas costumo com muito mais frequência vê-lo listado entre os românticos. Já o termo música erudita se refere a música produzida por estudiosos de música, e o termo erudito significa exatamente isso, feito com erudição, educação. O que até o século 19 funcionava muito bem para distingui-la da sua contraparte, a música popular, tocada pela plebe não especialmente instruída para tanto. O século 20 naturalmente deixaria a fronteira entre as duas muito borradas, indefinidas, já que estilos que nasceram como populares passaram a poder ser tocados por pessoas altamente instruídas e que levam essa instrução, essa erudição, para seus estilos musicais e suas obras. Fora a conotação preconceituosa que há em classificar um tipo específico de música em “erudita”, em detrimento a todo o resto que seria, por exclusão, ignorante. Eu e você, que estamos acostumados a ver o anime ser considerado uma arte menor, sabemos o quanto isso é danoso. Eu, pessoalmente, prefiro o termo música erudita, mas emprestando um significado diferente para “erudita” aqui, me referindo apenas ao estilo musical tocado com instrumentos e arranjos historicamente identificados com o que antes era sinônimo de erudição, sem menosprezar a música popular. Você está livre para continuar falando música clássica se quiser, realmente não faz diferença e aqui entre nós nos entendemos perfeitamente, só senti a urgência de compartilhar um pedaço de conhecimento que adquiri durante a vida. E esse parágrafo acabou ficando bem maior do que eu imaginava. Ah, bem, se eu falar demais pode reclamar!

Quem Kaori está procurando

Retornando ao episódio e à Kaori, não restam dúvidas de que ela é um espírito livre, no sentido de que faz o que acha que tem que fazer, não o que esperam que ela faça, mesmo quando ela está consciente dessa espectativa. Ainda assim, ficou claro para mim e para Kousei (mas acho que os demais não notaram isso) o quanto ela é insegura e precisa da aprovação alheia. Talvez isso explique as lágrimas do primeiro episódio. Nesse, após se reunir com seus amigos depois da apresentação, fez questão de perguntar a todos eles o que acharam, inclusive Kousei que havia ficado afastado para dar espaço a ele e Watari, e se mostrou extremamente ansiosa enquanto aguardava por sua resposta. Suas mãos tremiam. Pouco, mas tremiam. Pouco, mas Kousei percebeu. E deu uma excelente resposta, restaurando a auto-confiança de Kaori ao mesmo tempo em que não se comprometeu demais. Ali ele já estava apaixonado por ela. Ele é bastante perceptivo e pensa rápido. Mas não parou mais para pensar na insegurança da Kaori depois. Ele tem seus próprios problemas, afinal.

Cena introspectiva do protagonista indo embora da escola

Cena introspectiva do protagonista indo embora da escola

É difícil falar desse episódio sem retornar o tempo todo à performance de Kaori. E longe de achar isso algo negativo. Acho muito bom, foi o ponto alto do episódio em termos de animação e de emoção. Pois bem, retornando à performance de Kaori, em dado momento o chefe dos jurados (a única pessoa que não gostou da apresentação dela) disse que, entre outras coisas, ela estava tornando difícil para a pianista acompanhá-la. Lembremo-nos que Kousei é um pianista também e torna-se óbvio que isso não foi colocado nesse episódio à toa. De fato, a forma como Kousei começa a pensar nela, tanto como interesse romântico quanto o interesse por sua música, demonstram ele também, de certa forma, tentando acompanhá-la. Ele, que havia desistido da música e que acreditava que era o tipo de pessoa por quem ninguém se apaixonaria estava começando a querer acompanhar Kaori. Acho importante dizer também que gostei da forma como o Kousei foi representado nesse episódio. Um personagem instrospectivo, ciente de suas limitações e de seu trauma. As cenas dele pensando consigo mesmo ficaram boas e críveis. Sua mãe costumava dizer onde ele deveria chegar, e quando ele chegou lá, não encontrou a recompensa que esperava. Na verdade, o que ele mais queria ele não podia mais ter: sua mãe. Agora não tem mais ninguém dizendo para ele o que fazer ou onde chegar, e ele havia perdido qualquer vontade de tentar sair do lugar. É aí que entra a Kaori. É aí que a cena da piano perseguindo o violino indomável de Kaori se torna tão significativa. Agora ele quer, de novo, chegar a um lugar, ainda que ele pareça incerto e um pouco indefinido. Ela chegou para tirar a vida dele da estagnação em que estava, parada por todos esses anos. Mas também ela tem seus problemas, e estou curioso para descobrir quais são e como Kousei poderá ajudá-la. Será que ele está em condições de ajudar alguém?

Ao fim Kousei a convence a não procurar Watari, e ela decide ir fazer alguma coisa com ele

Ao fim Kousei a convence a não procurar Watari, e ela decide ir fazer alguma coisa com ele

Só fico com pena da Tsubaki, a amiga de infância de Kousei e que nutre um amor secreto por ele aparentemente já há muito tempo. Nada na história dá o menor sinal de que ela tenha qualquer chance. Pode-se afirmar que ela teve muito tempo e não soube aproveitá-lo, mas estamos falando de ficção. Ela não teve tempo nenhum, quando a história começou ela já estava condenada a ser apenas um instrumento de enredo. Imagino que haverá algum drama quanto a isso, mas no final ela irá torcer muito pelo casal principal porque, afinal, foi Kaori quem conseguiu fazer Kousei voltar a tocar a música que ela tanto gosta de ouvir. Ou alguma baboseira assim. Nesse aspecto, o Watari parece ser um personagem melhor construído: um galinha que pega todas as garotas que puder e ainda é um bom amigo e conselheiro para o protagonista. E sua existência por enquanto é mais importante também: Kousei tem sua primeira oportunidade de ficar a sós com Kaori porque ela estava esperando pelo Watari, mas como esse iria embora com outra garota e Kousei quis poupá-la da provável dor de ter que assistir isso, ele se esforça para convencê-la de que não é uma boa ideia procurar pelo Watari, e como uma recompensa inesperada, ela declara então que hoje ele irá “substituir” o outro.

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