Boogiepop at Dawn – Boogiepop ao Alvorecer – é o título do sexto volume da light novel da série. Os episódios 10 a 13 do anime de 2019 adaptaram o livro trazendo algumas respostas sobre a origem do shinigami Boogiepop, mas também perguntas, inquietações comuns a uma obra tão interessante. Ao alvorecer a busca do homem pela evolução, sobrevivência, pagará o preço ou terá sido tudo em vão?

MPLS

Se eu escrever que entendi completamente a cena que inicia e fecha esse arco eu estaria mentindo. Até cheguei a pensar que aquele mundo era uma licença poética do autor para narrar esse “arco de origem” de Boogiepop, o qual nem é exatamente isso, ao menos não completamente.

Contudo, é a origem de uma existência enigmática da qual estamos falando – sendo que nem ela sabe porque é isso, como nasceu, pelas mãos de quem ou do quê. É, talvez estivesse esperando respostas as quais não caberia a obra dar. Ela perderia um pouco da “graça” assim.

E sobre o mundo em que o Echoes está com Boogiepop, fico com a licença poética, forma bacana de introduzir a história do Scarecrow, um vilão que foi mais um herói e ajudou a tecer um ótimo background para uma certa personagem.

Uma entrada com estilo sempre é bem-vinda!

O Scarecrow (Espantalho) era um de vários humanos compostos – sintéticos, artificiais – criados pela Organização Towa para vigiar e lidar com os MPLS – um novo estágio da evolução. O que exatamente a sigla significa ainda não sei e nem acho importante.

O importante é que a frase de Boogiepop agora faz sentido, a Organização Towa não é bem uma inimiga, pelo menos se não entrar em seu caminho, o que deve continuar a ocorrer, porque ao que tudo indica Boogiepop também é um MLPS e, sendo assim, não é de se estranhar que o arco do Imaginator tenha mostrado a Towa “caçando” Boogiepop.

A Organização Towa está interessada na evolução humana para evitar maiores problemas para toda uma raça, mas o problema são seus métodos questionáveis. É então que o Espantalho conhece uma garotinha muito fofa enquanto realizava seu trabalho de detetive, encontro que mudou para sempre a vida de ambos.

Afinal, a Nagi pré-adolescente estava evoluindo e o Espantalho questionando o que fazia, se era certo tratar os MLPS apenas como alvos a serem exterminados ou como seres humanos.

Aí que entra a Nagi, ela cativou o coração do humano artificial e o fez trair a Organização, em um ato de clara afirmação da sua identidade, do seu desejo anteposto ao do criador – de quem o controlava. Só o simples fato de questionar, de buscar um caminho que agrade também ao seu eu e não só ao de outros, já é uma dádiva que acredito ser mais que o suficiente para humanizar essas criaturas.

Sorriso para proteger! ❤

Quem diria que justo a Nagi demonstraria tanto carisma para cativar alguém? Ela ter sido um MPLS eu achei até previsível, visto que Boogiepop sempre se referia a ela como a Bruxa do Fogo, e só não supus isso antes porque não sabia o que era esse MPLS – é, então não era fácil de supor assim.

Enfim, após esse arco ficou difícil não simpatizar com ela. Uma pena que eu não possa dizer o mesmo até o episódio 9.

O final do episódio foi ótimo por ter brincado com a identidade shinigami de Boogiepop. Na verdade, foi ali que essa carapuça foi vestida. Boogiepop sequer tinha um nome até encontrar o Espantalho, e depois do encontro ganhou nome e ofício.

Contudo, isso não foi o que de mais importante aconteceu nessa parte, mas sim a reflexão de que a busca pela evolução da Organização Towa pode estar sendo em vão, que as mutações que estão ocorrendo não são sinais do futuro, mas todas crias do presente.

Isso se conecta a existência do shinigami Boogiepop, do enigmático Imaginator, e de conceitos que o anime vem abordando desde seu princípio. Sobre isso devo comentar nas partes seguintes do artigo.

Essa seria a definição de shinigami? E Boogiepop é um, portanto…

Serial Killer Versus Boogiepop

O segundo episódio desse arco foi o menos interessante dele, contudo, não se pode menosprezá-lo, afinal, nele foi definida a vilã do arco e apareceu o herói, Boogiepop.

A Dra. Kisugi era bem o tipo de pessoa normal que ao se deparar com algo anormal lidaria com isso da pior maneira possível, assim como Boogiepop diz posteriormente que ocorre com muitas pessoas. E isso não exatamente por ela ser medíocre ou comum, mas porque seu coração era fraco, seu psicológico, seu “eu”, era “instável”.

O fato das mulheres terem medos mais apetitosos eu acho que se deve a todas as preocupações que elas carregam consigo. Não que os homens não as tenham, mas a pressão familiar, social em um contexto geral, para ser de um modo, o temor em sair de casa e voltar viva sem sofrer algum tipo de assédio, as obrigações sociais impostas a mulher como filha, esposa, mãe, etc. E isso, enquanto a mulher deve pensar em construir uma carreira se não quiser viver sua vida toda a completa mercê do machismo de um pai ou esposo, só corrobora para que as mulheres tenham mais problemas, os mais difíceis de lidar, que os homens.

Não poderia existir nome mais apropriado para uma criatura que come o medo que Fear Ghoul.

Enfim, tem uma infinidade de coisas que as mulheres levam consigo ao saírem de casa, então faz sentido o medo delas ser mais “intenso”. Aliás, a própria Kisugi é mulher e deve ser por isso que se fixou tanto a ideia do medo, transformando sua erradicação em propósito.

A consulta entre a Touka e a Kisugi foi o ponto alto desse episódio já que nela Boogiepop apareceu e foi interessante ver a declaração de guerra feita. Confirmando o que suspeitava, Boogiepop não tem sexo, então devo usar artigo para me referir a existência apenas por conveniência, quando achar que fica melhor; já que não se trata de um cara, nem de uma coroa, mas de um autointitulado shinigami.

Boogiepop só leva para o lado “pessoal” quando isso prejudica o “coletivo”, percebeu?

Mostrar exatamente quando Boogiepop surgiu dentro da Miyashita Touka não era a intenção aqui, e acho melhor assim, pois esse não é exatamente um arco de origem, mas sim de “apresentação” para explicar as conexões entre Boogiepop, Nagi e o pai da garota. Algo que vou comentar melhor abaixo.

Por fim, Boogiepop declara guerra a Kisugi, e explica o que acha sobre o que a levou a se tornar uma serial killer. A ideia de que normalidade demais é desequilibrada ao entrar em contato com o oposto é interessante, e meio que justifica a insistência da Nagi por não ser normal, para evitar ser engolida pelo que acontece de anormal ao seu redor? Aposto nisso.

O fato é que a “tendência” da assassina é exposta e isso é bem explorado no final desse arco – mas até lá irei comentar o melhor episódio dele.

Mais um sorriso a se proteger (quando na verdade é ele que protege).

Kirima Seiichi: Morte e Vida

A ligação entre o pai da Nagi e Boogiepop era bem mais indireta do que eu imaginava. Contudo, não poderia ser melhor, afinal, ele era um autor que escrevia para as pessoas marginalizadas, sendo que muitas delas eram MPLS, “amostras” da constante evolução da humanidade. Isso tudo antes mesmo de ele conhecer a existência dessas pessoas com habilidades.

Então ele escreveu sobre o Imaginator antes mesmo de se encontrar com a Minahoshi Suiko? Se sim, talvez ela tenha se autointitulado com o nome da criatura da obra de Seiichi em sua homenagem e, claro, por acreditar que correspondia a descrição feita por ele? Não duvido disso.

Mas esse não é mais o arco do Imaginator e o foco aqui foi a forma como ele se tornou o “porta-voz” desses excluídos e como a Organização Towa não deixaria isso barato, mandando um assassino para matá-lo, e um que foi mais que um simplório coadjuvante.

Será que ele fazia ideia de que estava ao lado de sua “cria”?

A Pigeon não me pareceu nem um pouco fofa quando mostrou animosidade para com o Mo Murder, mas a Nagi sim, seja conversando com a Kisugi ou se encontrando com o assassino do pai na rua para então formar uma dupla investigativa com ele. Bizarro, não?

Mais bizarro que a Nagi ser fofa foi, mas mais importante que isso foi o desenvolvimento dado a personagem, que não ficou só fazendo pose e falando bonito, mas tomou as rédeas da situação; ainda que pareça só obra do destino o encontro dos dois.

Apesar de que, se pensarmos que as vítimas eram meninas como ela, não é estranho que o caso tenha chamado sua atenção. E por mais que ajudar a resolvê-lo tenha sido motivado a princípio por pura e simples satisfação, isso não muda o fato de que ela estava combatendo o “mal” ali, não é?

Depois o Mo Murder é preso e não sabe o motivo…

Duas coisas bem interessantes, e que foram contempladas no episódio seguinte, vieram da interação da Nagi com os dois “vilões”. Primeiro, o questionamento a existência do medo suscitado pela Kisugi, o que também foi uma forma dela ir além de todos os limites de medo de um ser humano, correndo um baita risco para provar a si que não sentia mais medo – que havia se livrado completamente dele.

Segundo, a analogia feita com o inseto anterior usada no intuito de mostrar como a vontade humana é complexa e imprevisível. O ser humano desprende várias intenções ao longo de sua vida; de muitos pontos de vista, desejos e escolhas; que caso encontrem um foco naturalmente mantêm a coerência, mas no caso de se dispersarem demais não. Aí as emoções e ações extremas, como as da Fear Ghoul, dominam a pessoa, dando vazão a todo tipo de situação ruim e que representa perigo a humanidade.

Perigo que vemos claramente no quarto e último episódio dessa saga de apresentação do problema da evolução humana que deve perdurar por toda a série Boogiepop, afinal, Boogiepop e Imaginator são MPLS; ainda que tenham sido gerados por divergentes pontos de vista do inconsciente coletivo.

Porque existe o amor, então existe o senso de autopreservação.

Inseto Interior

Esse episódio final foi da Nagi, cujo background melhorou demais minha impressão dela que, além de ser perceptiva e corajosa, não deixa de ter seus traços de fragilidade, afinal, era apenas uma ginasial na época.

Aliás, ela é o legado vivo do pai, Kirima Seiichi, e além disso, alguém que já foi parte do público que se identificava com sua escrita. Na verdade, ainda é. Mesmo não tendo poderes advindos de uma mutação evolutiva a Nagi ainda é uma justiceira marginal – heroína dos deslocados.

O plot twist da traição da Pigeon foi ótimo, pois tanto teve o foreshadowing apropriado – a cena dela exalando ódio no café –, quanto solidificou uma ideia abordada desde o primeiro episódio.

Humanos artificiais também são capazes de se desviar de seus caminhos para “proteger” suas individualidades; aquilo que os torna únicos – não apenas soldadinhos sem desejos. A gente viu isso com a Aya no arco do Imaginator, então não foi tão estranho ou inesperado que cada um tivesse sua própria “rebelião”.

Por essa eu não esperava, mas adorei o desfecho para todos os envolvidos.

O Scarecrow se deixou cativar pela Nagi e arriscou tudo para dar a ela uma chance de ser uma garota normal de novo, o Mo Murder não traiu exatamente a Organização Towa, mas se deixou cativar justo pela filha de um homem que assassinou, alguém que o mostrou gentileza e disse a ele certa verdade, que ele era uma boa pessoa que não fazia o mal por vontade própria, mas porque não tinha – ou não sabia que poderia ter – outra escolha.

O Mo Murder foi de um assassino frio para alguém capaz de se importar com outra pessoa e fazer algo que nada tinha a ver com suas ordens. Ele foi humano, como a Pigeon que sentiu ódio por ter tido seu amor “roubado” dela. Assim como a Aya, eles não deveriam estar sentindo amor ou ódio por ninguém, mas sentiram e isso foi a ruína deles. Eles morreram como humanos, não importa se nasceram em laboratório; eles sentiam e sofriam, viveram como humanos.

Boogiepop com sua delicadeza característica.

A motivação da Fear Ghoul – consumir o medo alheio para se livrar do próprio – era algo, mas não foi mais forte que o plano simples porém corajoso e bem executado pela Bruxa do Fogo. Ela parecia ter sido encurralada, mas era tudo uma finta para um ataque; o que foi muito bem feito, pois ela levou o ambiente em consideração, assim como o que esperava das ações da vilã. Mesmo assim foi um plano super arriscado, só que ela deu sorte de ter no mesmo lado o “vigilante do presente”, Boogiepop.

De novo, ou pela primeira vez, o shinigami só deu o golpe de misericórdia, deixando os esforços cruciais por conta dos seres humanos. Foi um final digno? Acho que sim, mas meio desengonçado, ainda com coisas a melhorar, como se realmente fosse um ato de apresentação, de busca pelo aperfeiçoamento não da escrita do autor ou do resultado obtido, mas da “experiência” da envolvida.

No caso, é da Nagi de quem eu estou falando. Não tanto do Boogiepop, afinal, fez o serviço de sempre, deu apenas uma ajudinha, trabalhando muito mais como um conceito interessante a ser aproveitado no tema central.

Aquele sorrisinho maroto de quem sabe que tudo acabou bem, mesmo que de modo torto.

Considerações finais

Para finalizar, gostei muito do arco como um todo – até da animação nas cenas de ação –, e destaco o background dado a Nagi, a melhor personagem de Boogiepop ao Alvorecer. Elogio também o fato de se tratar de um arco de origem, mas não o ser completamente.

A origem mesmo continua sendo uma incógnita, o mais importante era conhecer a origem do nome, do título de shinigami e também das aditividades de Boogiepop que, assim como o Imaginator, deve ser um MPLS “especial” e, apesar do Imaginator se apresentar como uma possibilidade futura no tempo presente, um que “invalida” a busca da Towa pela manipulação do futuro através da evolução humana.

Se as possibilidades que se apresentam são na realidade mutações do ambiente – considerando o ambiente do planeta como um todo – que ocorreram por acidente, nunca será possível controlar todos os aspectos da evolução dos seres humanos.

No final das contas, isso é algo que só o prosseguimento da série poderia confirmar, mas eu duvido que o próximo arco do anime vá a fundo nesses questionamentos, então basta a nós torcer para que mais volumes da light novels saiam lá fora; ao menos para quem deseja comprá-los. Mas vai que um dia o anime continua e adapta mais volumes da light novel? Eu acharia sensacional!

O alvorecer da evolução humana se recicla, pode ser a qualquer hora, qualquer dia, mas definir como e quando o processo vai rolar é o que pega. O porque não, afinal, os humanos fazem de tudo a fim de sobreviver, ainda mais tendo a ajudinha de Boogiepop – dupla personalidade misteriosa cujo nome e ofício vieram de um humano tão humano quanto qualquer outro.

Até o próximo estágio da evolução!

E a evolução humana, como fica? Continua como está.

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    Amei demais teu artigo!!! Fascinante!! Mal posso esperar para ler sobre o próximo arco!! ❤️❤️❤️✨✨😍 O destaque que deu explicando a origem ( não literalmente origem) da Nagi e do Boogiepop, foi simplesmente fascinante de se ler! Me senti mais envolta na estória do q nunca! Amei! Obrigada mesmo por me esclarecer alguns pontos também que finquei confusa tal como o da Dra.Kisugi como mulher nessa sociedade, gostei como analisou ela! Obrigada mesmo por esse artigo maravilhoso! Amei demais ler cada estrofe!! ❤️❤️❤️😍✨ Continue assim por favor!

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