Você, adulto, nunca abrigue uma estranha em casa, ainda mais se for uma colegial. Vale para qualquer menor em geral porque sim, é uma atitude questionável independentemente de suas intenções. Hige wo Soru. Soshite Joshikousei wo Hirou. (I Shaved. Then I Brought a High School Girl Home ou Higehiro para facilitar) é um anime do estúdio Project No.9 programado para 13 episódios a serem exibidos na temporada de primavera de 2021. Como o título já é a sinopse, não vamos perder tempo, então, vamos ao texto?

Antes de mais nada, de duas uma, ou a colega de trabalho do protagonista, a Gotou-san, é meio tapada ou saiu com ele por alguma razão, talvez para sair um pouco da rotina em que um relacionamento de 5 anos inevitavelmente cai? Em todo caso, se ele achou que ela deveria ter contado é porque partiu do pressuposto de que ela deveria ter percebido que estava sendo cortejada, mas, vai saber, ela pode não ter se tocado, além disso, por que ele não perguntou mesmo? Inclusive, ela não ter traído me inclina a pensar que o “mal-éntendido” foi mais vacilo dele que qualquer outra coisa.

Enfim, isso não é exatamente relevante para o contexto do que é apresentado do anime, mas já dá uma palinha de como o protagonista é meio “tosco”, apesar de ter 26 anos (olha só, temos a mesma idade). Antes de cortejar alguém ele deveria ao menos ter se certificado disso, né? Então, depois de afogar as mágoas por ter se feito de trouxa ele vai para casa e eis que encontra uma colegial debaixo de um poste no meio da rua altas horas da noite. O que fazer nessa situação? Chamar a polícia? Não, que é isso, por que não levá-la para casa?

E menos mal que ele não tenta se aproveitar dela mesmo com ela dando toda a abertura para isso? Menos mal é o caramba, afinal, é como ele mesmo diz mais a frente no episódio, a tal “gentileza” que ela destaca não é nada mais que o mínimo a se esperar de um adulto responsável, apesar de, repito, toda a ideia de levar uma pessoa desconhecida para dormir na sua casa seja uma baita falta de noção. Mas sim, também temos que convir que da forma que a situação se apresenta a ele, e com a embriaguez que o dominava, dá para aliviar a barra do protagonista um pouquinho vai.

Só que não entenda errado, toda a resistência dele aos avanços dela é nada menos do que o mínimo, não é nada a se elogiar ou levantar a um pedestal de bondade. Por outro lado, também não o condeno por ficar envergonhado em alguns momentos, principalmente quando ela dá em cima dele. Se ele realmente fosse esse adulto tão maduro assim teria lidado com a situação de outra maneira no dia seguinte, mas não, ele segue abrigando a garota sem tentar entender completamente o que a levou a dormir com homens por abrigo ou tentar ajudá-la a voltar para a casa.

Contudo, também há o que considerar aí, afinal, ela dá pistas de que os pais não ligavam para ela e não ter um registro de B.O. do sumiço da filha reforça essa ideia. Além disso, o que ele toma por maturidade dela, com sua capacidade de fazer todos os afazeres de casa, pode não ser exatamente isso. Aliás, não deve, é quase certo que ela vivia em uma família disfuncional e que aprendeu a fazer tudo sozinha por não ter o cuidado dos pais, não por ser independente ou madura. Imagino que ele vai se tocar disso alguma hora, espero que sim.

O fato é que é até bem legal ele abrigá-la e impôr limites ao relacionamento dos dois, principalmente envolvendo ela não tentar seduzi-lo, mas ao mesmo tempo falar para ela trabalhar, mas trabalhar como empregada dele, acabou me decepcionando um pouco. É uma forma válida de fazê-la compensar a moradia, alimentação e todos os “mimos” que ele pode prover a ela, mas será que não seria melhor tentar arranjar um emprego para ela para que tentasse se manter a longo prazo? Ou será que seria perigoso demais pôr dinheiro na mão dessa garota?

De toda forma, se teve uma coisa que não gostei na tradução foi essa ideia de “mimo”, provavelmente uma tradução errônea. Senão for isso, foi um baita vacilo da obra mesmo, afinal, essa garota que oferece o corpo em troca de sexo não é mimada porcaria nenhuma, mas sim alguém que carece de ajuda psicológica, apoio emocional, novas perspectivas, etc. Se ela fosse só uma pervertida menor de idade não teria dito que não queria fazer sexo com ele, mas que faria para pagar pelo abrigo. Aliás, mesmo se fosse, suas circunstâncias ainda denotariam que precisa de ajuda.

Ela não fugiu de casa por acaso e duvido que trate o sexo de maneira tão banal por acaso também, então é de se imaginar que por cima da camada de ousadia e falta de noção que ela demonstra, hajam traumas muito pesados, os quais justificariam pais que não ligam para uma filha adolescente e uma fuga de casa que desemboca em uma situação de vulnerabilidade perigosa. Saya é uma garota que precisa de ajuda, de cuidados, de apoio, de mudança de paradigmas. Yoshida começa a fazer isso por ela, mas o faz da melhor maneira? Acho que não…

Entretanto, também não dá para crucificá-lo porque, repito, ele faz o mínimo, não tenta se aproveitar dela de nenhuma forma e respeita seu espaço. Infelizmente, ainda tem pagamento de calcinha desnecessário e lasquinha de sutiã aparecendo, mas o que esperar de um anime com uma sinopse dessas, né? Acaba que ele apela aos pervertidos, em demasia entre os otakus, apesar de apresentar um protagonista que não é bem como eles. Além disso, acho que o Yoshida mesmo dá sua vacilada ao elogiar a garota e pior, pensar que ela não faz o tipo dele. Não achei a Sayu tão diferente, fisicamente pelo menos, assim da Gotou não, então talvez ele só esteja querendo mentir para si mesmo? Aliás, precisava disso?

E não digo nem que ele não poderia ou deveria elogiá-la, mas se a intenção era não se envolver demais isso acaba tendo o efeito contrário. Além disso, ele como adulto deveria ter mais cuidado com suas palavras vendo a vulnerabilidade da menina. Sim, Yoshida não é má pessoa, isso já ficou claro, não é como se ele fosse se aproveitar dela nem nada assim, mas isso não muda o fato de que o mínimo dele não é necessariamente algo “perfeito” porque, repito, o ideal nessa situação não é o que ele está fazendo. Ele é imaturo para ajudar alguém problemática como a Sayu.

E assim como ele, a Sayu é imatura (ou pior que isso, está quebrada demais por dentro) para lidar com a situação da melhorar maneira. Isso quer dizer que os dois vão acabar se machucando? Não necessariamente, mas, por exemplo, eu não duvido nada que ele acabe se apaixonando por ela, o que poderia jogar por terra todos os seus esforços para tratá-la como a criança que ele diz que ela é, enquanto ela se envolver com ele também pode ser prejudicial a ela mesmo se ele não tentar se aproveitar de seu corpo e seus valores distorcidos. Que baita linha tênue sobre a qual andar, hein?

Parece que quanto mais bizarra a situação for, maiores as chances de ganhar anime. Não que seja exatamente incomum alguém mais velho se aproveitar de alguém mais novo sexualmente falando, mas é incomum a garota se jogar em cima do tiozão e ele recusar a tentação. Ou melhor, não deveria ser comum, mas, infelizmente, a ideia que as coisas que a Sayu fala passam é de que é sim. Portanto, repito, o Yoshida não faz nada além de sua obrigação e diria até que poderia e deveria agir de forma diferente, mas ter 26 anos não é atestado de maturidade para ninguém, olha eu aqui, né…

Por fim, gostei da simbologia da barba por fazer, dá uma ideia de que ele querer ser responsável pela Saya em sua situação de vulnerabilidade se deve a isso, a esse desejo dele de querer se afirmar como alguém maduro sem necessariamente o ser, afinal, ao longo do episódio ele comete seus vacilos nesse sentido. Ainda assim, não dá para desprezar a boa intenção contida em seus atos, só resta ver aonde ela levará os dois em uma história que poderia ser bem mais recriminável do que é, mas não é isenta as críticas por fazer o mínimo, e olhe lá se tanto…

Até a próxima!

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