ACCA – ep 10 – Apostar no outro

Se teve uma coisa que sempre disse de ACCA, foram minhas reclamações constantes sobre o pacing chato e o quanto eles sabem esgotar um certo tema até finalmente revelá-lo. Isso não necessariamente é uma coisa ruim, mas definitivamente é uma coisa com potencial para ser muito boa. No episódio de hoje, o monotematismo quase episódico de ACCA serviu para mostrar como em relações humanas apostas são bem mais difíceis do que parecem.
Jogos de azar e certas apostas são usualmente proibidos aqui pelo Brasil, a menos com permissão especial de um órgão federal do governo ou quando são feitos entre parentes. Isso ocorre muito mais porque o governo tem interesse em monopolizar tais sistemas, porém, a proposta já é bem antiga e se estende desde os anos 40, quando qualquer jogo de azar era proibido.
Mas enfim, fora das apostas convencionais e do mundo dos jogos de azar, esse episódio de ACCA fala de uma coisa bem mais metafórica e interessante. Basicamente, esse episódio é um ensaio sobre o que é confiança no potencial de outrem. De um lado o jovem e inexperiente Jean está sendo apostado e representado pelo movimento do golpe e dos líderes do distrito, do outro, pessoas como o Grossular, que juntou sua vontade de unificar a ACCA com sua grande capacidade cognitiva e contatos com a superintendente Mauve, que sempre sonhou em um sistema uno como Grossular idealizava (até para cumprir os objetivos dele, que tinha seu mais profundo respeito).
- Os cigarros do Jean…
- …são símbolos de uma aposta…
- …num golpe que Grossular também quer apostar
Não obstante, não precisou de muito para Grossular convencê-la a se juntar ao golpe. A aposta e os ganhos são claramente bem válidos e consistentes (ou a ACCA e o país são destruídos em meio ao governo autoritário de um príncipe idiota, ou a ACCA sobrevive e rege o país a partir de um golpe legitimado por Jean Otus), a escolha é clara e a única variável razoável é o comportamento de Jean Otus quanto a formação do golpe.
Afinal de contas, como diria Maquiavel, um governante precisa passar confiança e legitimidade em seu governo. Um homem do povo como Jean Otus, que ainda possui sangue real, poderia tranquilamente apelar às massas. Devido a sua própria passividade, chegar ao ponto em que os planos da família Furuwa se tornariam realidade ao usá-lo como um fantoche não deveria ser impossível.
Ainda assim, Jean Otus não é um sujeito realmente idiota. Até agora ele pôde agir como um tolo sem maiores relevâncias, mas, se ele chegou onde ele chegou, em um sistema de indicação e contatos, é porque ele tem carisma e inteligência para acabar com os planos da família Furuwa (ou ao menos é capaz de não ser um fantoche). Só o tempo dirá se Jean fará uma tática à la episódio 2 ou só deixará as coisas rolarem até não dar mais.
- Era só questão de tempo até Mauve ceder…
- …mas o misterioso Jean…
- … o que diabos se passa na mente dele ?
Foi por isso que sempre disse que o carisma do Jean era sua completa e total falta de carisma. Ele é um personagem que faz tudo o que quer e pode fazer sem quase mudar sua expressão, uma pessoa que simplesmente é de poucas palavras mas que tem um charme que atrai as pessoas. Não dá pra se dizer que ele é muito proativo, mas que ele é um homem de ação acho inegável, inclusive não duvido nada que ele fará seu melhor para ajudar Prapita e Suitsu, além de outros distritos que necessitam de ajuda.
Basicamente, Jean é um exemplo perfeito de uma pessoa que faz com que os outros apostem nele. Ele é um imã de apostas que move ricos e pobres a confiarem suas vidas a ele, ao ponto que distritos pobres ainda foram capazes de lhe oferecer seus cigarros. Em suma, quando for apostar, aposte no pássaro de cabelos loiros.

Mesmo esse cigarro representava tudo