Bom dia!

Todos os episódios de Yagate Kimi ni Naru são divididos em duas esquetes, antes e depois do intervalo, mas o ritmo da história é normalmente tão natural que é como se fosse exatamente a mesma coisa: a segunda esquete é continuação direta da primeira, tanto narrativamente quanto tematicamente.

Dessa vez não foi assim. A primeira esquete manteve o foco na Sayaka, que veio desde o episódio anterior, só que dessa vez serviu para esclarecer as coisas entre ela e a Yuu, além de aliviar a tensão que existia entre elas.

A segunda esquete voltou ao casal principal, e retomou o que eu disse no episódio do rio: será que para a Nanami poderia ser qualquer uma?

O episódio abre com a Sayaka aguardando a Nanami em uma estação de trem, mas antes que a presidente do Conselho Estudantil chegue Sayaka tem um reencontro totalmente inesperado: sua ex-namorada aparece e a reconhece.

O diálogo que se segue é significativo para mostrar que a Sayaka superou seu passado. Inicialmente ela estava surpresa, mas não irritada. Ela começou a se irritar quando a sua ex começou a se “desculpar” por tê-la, segundo acredita, “transformado-a” em lésbica.

Antes de tudo, isso não existe. Ela pode ter sido instrumental em ajudar a Sayaka a descobrir sua sexualidade, mas ninguém se “torna” lésbica ou gay ou o que quer que seja. Mas isso aqui sou só eu fazendo um comentário além do que está na história.

A Sayaka ficou irritada de verdade porque a garota se queria de alguma forma ainda importante na vida dela, ainda que a tenha abandonado sem mais nem menos no passado. A ex não estava arrependida de verdade. O problema é que a Sayaka é só isso pra ela: uma garota que ela namorou (e “converteu”) quando mais nova.

 

Sayaka fica furiosa com sua ex-namorada

 

Aceitar o pedido de desculpas seria admitir que ela deve algo para a sua ex. Percebe o absurdo? A garota pede desculpa e sai com reconhecimento. “Está desculpada, hoje sou lésbica graças a você!”. Ela entra devedora e sai credora. É lógico que a Sayaka ficou furiosa.

E ela ia responder, estava com as palavras na ponta da língua, mas nem precisou: Nanami chegou. Sayaka saiu de braços dados com a amiga (e amor secreto) e deixou a ex com cara de paisagem. Adeus!

Depois disso veio Sayaka e Yuu. Usando o Festival Esportivo (que a Nanami faz questão de que o Conselho Estudantil participe, mais especificamente da corrida de revezamento) como pretexto, Yuu encontra uma brecha para conversar a sós com Sayaka.

A conversa logo se tornou sobre a Nanami. Yuu perguntou na lata se a Sayaka gosta dela.

É uma amiga, diz Sayaka, escondendo habilmente a verdade.

Yuu insistiu: ela estava se referindo especificamente se a Sayaka gostava da Nanami no sentido romântico do verbo “gostar”. E embora seja uma pergunta, o tom dela era de quem já sabia a resposta.

Sayaka devolve para ela: e a Yuu, gosta da Nanami?

É uma senpai, diz Yuu, agitada após ser pega desprevenida pela pergunta.

A Sayaka conclui: uma amiga para mim, uma senpai para você. A gente sabe que ela não é só uma amiga para a Sayaka, a Yuu deu a entender que também sabe disso, mas emudeceu. Tudo já estava bem entendido sem que ninguém precisasse admitir nada, portanto sem consequências.

 

Yuu e Sayaka estão em bons termos agora

 

A consequência de verdade dessa conversa é que agora as duas se entendem um pouco melhor e passaram a se tratar de forma mais cordial, como colegas que são.

Tanta Sayaka em um episódio só foi bom para que nós, espectadores, a conheçamos um pouco melhor também. Devo dizer que ela não é nada que eu já não esperava que ela fosse, mas é bom vê-la interagindo mais mesmo assim.

Em particular a cena dela com a ex-namorada confirmou a minha interpretação, expressa apenas em comentário sobre o artigo anterior, e não no artigo em si, de que ela não é madura.

A Sayaka parece se comportar de forma “madura”, não parece? Parece. Como toda ojou-sama. É uma característica do arquétipo. Ela foi educada para se comportar e responder da forma como responde, forma essa que em muitos casos parece emular maturidade.

Acontece que maturidade é algo que se aprende sozinho, se adquire com experiência, não algo que se possa ensinar. E ela não é uma pessoa particularmente mais vivida do que as demais personagens. No episódio anterior eu acho que a imaturidade dela já tinha ficado visível na conversa dela com a barista Miyako.

Em particular quando a Miyako respondeu na lata que sim, ela e a professora Riko são um casal. Sayaka ficou surpresa, exatamente como se pode esperar de alguém inocente e inexperiente. Alguém imatura.

Nesse episódio, a maior amostra de imaturidade dela foi, lógico, na cena com a ex-namorada. Quando se enfureceu, ela fechou o punho e, se não fosse a educação que recebeu, talvez tivesse enfiado a mão na cara dela. Não fosse um tabefe, talvez tivesse xingado muito. Mas ela não ia fazer nada disso, não porque seja madura, insisto, mas porque educada a não reagir dessa forma.

O que não significa que ter agarrado a Nanami pelo braço pra fazer desaforo para a ex tenha sido algo particularmente maduro de se fazer, não é? Foi tão impulsivo, inclusive, tão no calor do momento, que ela saiu assim com a Nanami de lá e esqueceu.

Não tem problema nenhum ela não ser madura. Muito pelo contrário: adolescentes precocemente maduros é que são personagens muito menos interessantes. Pergunte para a Koyomi, incomodada em escrever a peça da escola porque a Nanami é, até onde se lhe parece, perfeita demais.

A segunda metade do episódio foi dedicada à Yuu e seus problemas meteorológicos. Há uma tempestade na saída da escola a impedindo de ir para casa, e há uma tempestade em seu coração a impedindo de reconhecer o que ela mesma sente.

 

Chove por fora e por dentro

 

Essa segunda tempestade atende pelo nome de “Nanami”. A Yuu não consegue parar de pensar nela, a Yuu a deseja, a Yuu sente sua falta e fica feliz em sua companhia, mas não pode admitir nada disso.

Quando ela quase chega perto de talvez quem sabe sugerir que possa gostar um pouquinho da Nanami, a presidente recuou imediatamente. Se fechou em si mesma. Ela teria ido embora se a Yuu tivesse insistido, assim como ela teria atravessado o rio e ido embora se a Yuu não tivesse recuado naquele episódio também.

 

Yuu congelada de medo esperando a reação da Nanami depois dela quase revelar mais do que pode sobre seus sentimentos

 

Como resultado, a Yuu precisa se confortar com duas mentiras. A primeira, a de sempre, que a Nanami não é nada especial. Ela pensa o tempo todo na Nanami porque ela é, por si só, uma pessoa extraordinária, não que ela seja algo especial para a Yuu – ou é nisso que ela quer acreditar. A segunda mentira, nova, é a de que ela está satisfeita com esse relacionamento manco, que pelo menos está feliz com isso.

Uma pergunta inocente sobre a cor preferida de hortênsias foi repetida três vezes no episódio: primeiro a Nanami perguntou para a Sayaka, depois a Sayaka perguntou para a Yuu, e no final a Yuu perguntou para a Nanami. O triângulo, amoroso também, está completo.

Eu não sei se a Nanami está apaixonada pela Yuu. Mas eu sei que a Nanami não está pronta para ser amada por ninguém. Isso não é culpa dela, as coisas simplesmente são assim.

Mas ela sente a necessidade de amar e de saciar alguns de seus desejos, como todo adolescente com hormônios em ebulição. Poderia ser qualquer uma? À rigor, sim. Calhou de ser a Yuu. E talvez a Nanami já tenha se apaixonado por ela ou ainda acabe se apaixonando, e aí vai passar a ter que ser a Yuu, mas não foi por isso que ela procurou a outra em primeiro lugar.

E isso caracteriza um relacionamento tóxico. Mas não vou desenvolver esse tema porque o próximo episódio me dará evidências muito melhores disso. Até lá!

  1. Avatar

    Interessante o comentário sobre a tempestade das emoções da Yuu. O anime me passa a sensação de que os sentimentos românticos são como plantas (uma ideia um tanto clichê ao meu ver, mas real). Primeiro se joga as sementes, depois elas são regadas e brotam (percepção do sentimento), crescem (intensificação do gostar) e culminam no desabrochar de flores (aceitar e se declarar para alguém e ser correspondido) . Nesse caso, eu entendi que os sentimentos já estavam plantados na Yuu e a chuva ( a tempestade de sentimentos dito acima) seria uma forma de mostras que o amor estava prestes a brotar. Pode até ser viajem minha, mas acho que o título contribui para isso, posto que, umas das traduções de Yagate Kimi ni Naru “florescendo em você”.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Ana, tá boazinha?

      O título original, em japonês, é estranho: Eventualmente, me tornarei você. A interpretação óbvia é que o título se refere à Nanami: ela está tentando se tornar a sua irmã, afinal. Mas deve ter algum sentido metafórico aí que se aplique à Yuu também, mas que eu sou incapaz de suspeitar por causa da barreira do idioma.

      Já o título internacional é Bloom Into You, Desabrochar em Você. E com liberdade poética, ele pode significar tanto se tornar outra pessoa (a mesma situação da Nanami), quanto mudar, se transformar, por causa de outra pessoa, o que dá conta da Yuu. É de “bloom”, “desabrochar”, que vem as flores. Verbo que também pode ser usado no sentido de amadurecer, revelar seu verdadeiro potencial, sua verdadeira forma, ou simplesmente se abrir. Não é difícil conectar cada um desses significados a YagaKimi, e de forma relevante. A escolha do título internacional foi muito feliz, e imagino que o original possua essa riqueza de significados em japonês também.

      Quanto à sua interpretação, eu concordo. E o anime parece concordar também, as flores estão onipresentes na abertura, e aparecem em vários episódios também. Apenas acrescento que nem toda planta é uma flor ornamental, tem muita erva daninha por aí. Aliás, são elas que crescem mais e mais rápido.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! ☺

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