Um movie com história simples, até clichê, mas que consegue agradar e conquistar pela parte técnica. Um orçamento pomposo que foi muito bem utilizado e conseguiu elevar o nível do animê.

Quando me refiro à técnica, falo das partes mais racionais e objetivas, como direção, animação, fotografia, OST, arte. São quesitos de julgamento mais fácil porque pendem menos para a subjetividade.

 

 

A história é bem comum: criança órfã fugindo de sabe-se lá o que, encontra aleatoriamente um ronin e, por conta das circunstâncias, seguem o mesmo caminho. Com o tempo, vão construindo um forte laço de amizade. Ah, a grande diferença aqui é: tem um cachorro no meio (a boa e velha estratégia japonesa de meter um pet em todo lugar. E, quando falo todo, é todo mesmo, até cabine policial tem mascote).

 

 

Tenho conversado bastante no discord do blog (aproveita e vem falar besteira conosco: https://discord.gg/MmtV8b) a respeito de spoiler e da relevância dele. Afinal, ultimamente, as pessoas preferem levar um soco do Toguro do que tomar um spoiler. Como se isso fosse o fator determinante para definir a experiência com uma obra.

O spoiler não estraga uma obra boa. O que ele faz é tornar pior algo que já é ruim. Porque uma obra é muito mais do que as surpresas do enredo e o primeiro contato em que tudo é novidade. Existe a parte técnica, os personagens, o universo criado, o pano de fundo, a interpretação que você dá àquilo que vê (e que pode mudar conforme vai reassistindo a obra).

 

 

Stranger Mukou Hadan é um animê que vem comprovar essa minha posição sobre o spoiler. Para começar: todo mundo meio que já sabe como vai terminar. A levada da história dá todos os indícios que vai seguir a linearidade. Mas, vamos imaginar que você levou um spoiler: “Madoka do Céu, acabou minha diversão!”. Não! Não acabou! Esse animê tem outras características que irão te proporcionar uma excelente experiência, como a técnica.

 

 

A animação é excelente, principalmente nos combates, que são muito claros, deixando nítidos todos os movimentos, mas, ao mesmo tempo, são muito rápidos, o que solicita atenção total do espectador. Os detalhes são bem trabalhados, como a chuva caindo nos chapéus, o vento como efeito de velocidade e a neve que toma conta do último combate. A direção é boa e bem detalhista, trabalhando com analogias e utilizando ângulos pouco usuais.

A OST transporta com maestria para o Japão feudal. Ela não foge do padrão, mas é muito bem executada.

 

 

Sword of the Stranger (estou usando o nome em inglês para o Google achar o texto) é o tipo de animação que tinha tudo para fazer sucesso no ocidente: o tema de samurai com ambientação no Japão feudal é o que o ocidental quer/gosta de ver em obras japonesas; a ação é muito boa; a história não foge da linearidade. Mas, mesmo com tudo isso, passou batido.

 

 

Fato é que o ocidental ainda acha que desenho é coisa de criança. Por mais que o cenário tenha mudado um pouco, o estereótipo ainda está firme e forte. Desenho não chama atenção de adulto, ainda mais um japonês. Para interessar o ocidente, além de estar dentro do refinado gosto desse público, precisa vir com o selo de algum diretor famoso. Como não atendeu a todos os rigorosos requisitos, ninguém ligou. Ainda bem que o Japão está cagando para isso.

 

Sayonara. Bye, bye o/

 

(〜 ̄▽ ̄)〜 Moleque chato da preula. Torci até o último momento para ele morrer.

 

  1. Avatar

    Se tivesse que descrever este filme, diria que o que falta na qualidade da história, compensa em muito na parte técnica (o uso da ost é excelente, os sons do ambiente também, já por não falar da precisão e rigor do período histórico retratado).
    Stranger Mukou Hadan é um filme que saiu em 2007 e até hoje, pleno 2019, nenhum filme anime ou anime para tv, teve uma coreografia de luta tão bem feita e detalhada como Mukou Hadan teve, a luta entre o Nanashi e o Luo Lang deixou a sua marca nos anais da história da animação japonesa.

    Passando à história, essa foi bem linear, a certo do filme, já conseguia prever mais ao menos como iria terminar, sendo que pessoalmente preferia que o Nanashi tivesse tido mais destaque que o Kotarou. O Kotarou esse, todo o santo filme tive a sensação que ele não passava de uma ferramenta de roteiro e só mudei um pouco de opinião no desfecho do filme. Por o outro lado, os enviados do país de Ming (China), esses de certa forma ocuparam o lugar dos ocidentais que na época já faziam comércio com o Japão (como os portugueses e holandeses, comummente chamados de namban ou gaijin). Uma coisa interessante no grupo Ming, é que o líder deles tinha acesso a espingardas de mecha, tecnologia de ponta, que na altura só os portugueses possuíam naquela parte do mundo, dando a entender que os Ming também negociavam com os portugueses (isso era possível graças ao entreposto comercial que os portugueses tinham em Macau).

    Quanto aos personagens, o Nanashi foi o mais complexo, começando logo pelo nome dele, que significa sem nome. A certo ponto do filme, mostra que o Nanashi não possuía os cabelos negros de um japonês nativo, ele tinha cabelo ruivo, como os povos dos territórios bárbaros (provavelmente ele era de descendência holandesa, já que não era comum na época de marinheiros portugueses terem cabelos ruivos). O passado que atormentava o Nanashi, esse sim foi o ponto que mais gostei no filme, naquela época de guerras entre senhores, era bem comum que o lorde que fosse derrotado, fosse morto e os seus descendentes também O pequeno flashback do Nanashi a decapitar duas crianças foi tensa, ainda mais tensa ficou quando o garoto a proteger a sua irmã chamou o Nanashi de covarde (o Nanashi não teve escolha, ele não mandava nada).

    O Kotarou esse foi um desgraçado desde de cedo, órfão de pai e mãe desde criança e depois perseguido por um bando de assassinos vindos a mando da Dinastia Ming. A primeira iteração entre o Kotarou e o Nanashi foi bem interessante, de um lado o Kotarou que estava a ser perseguido por assassinos e que só tinha uma pequena peça de Jade como moeda de troca, do outro um ronin que prometeu nunca mais usar a espada, o que poderia sair dessa situação. A pequena peça de Jade do Kotarou não valia muito, ela nunca que valeria um ryo (um ryo naquela época, era muito dinheiro, o equivalente a moeda de ouro japonesa).

    Os assassinos Ming, esses foram os bons vilões do filme, o motivo da perseguição deles ao Kotarou é bem palpável, desde do Imperador Qing ao Imperador Ming que sempre houve aquela vontade de descobrir o segredo da imortalidade. Se o sangue de uma criança desse para fazer isso, o imperador Ming faria de tudo, nem que fosse preciso virar o mundo do avesso. A composição desse grupo de assassinos é muito boa, dois espadachins, um gingante que servia como infantaria pesada, uma usuária de machados de guerra e uma arqueira e claro o velho senil que gostava de espingardas. A medicina que eles usavam me fez lembrar das anfetaminas que o exército alemão usava na Segunda Guerra Mundial, altamente eficaz (a droga que eles usavam era um autêntico cocktail de drogas proibidas).

    Por fim, o Shougen Itadori, o samurai defensor da terra onde a história se passa, esse personagem é muito interessante, não só por ter começado de baixo, ele lutou lado a lado com o Nanashi. Esse personagem sempre teve ambição, o senhor que ele servia era um fraco e mau governante, quando chegou a altura de enfrentar os assassinos Ming, claro que as tropas ficariam do lado do Shougen (foi satisfatório quando o senhor do Shougen levou um headshot). Se o Shougen foi interessante, o seu braço direito nem por isso, o Juurouta só tinha de qualidade a sua habilidade com o arco, de resto foi bem estúpido (ele sempre sonhou desposar a princesa do feudo, que pena que ela era mais do que ele conseguiria carregar).

    Por fim, as cenas de batalha e combates, foram muito bem feitas, a investida dos ashigaru (infantaria ligeira e com lanças) e os ashigaru arqueiros, comandados pelo Shougen ao ponto de defesa dos assassinos Ming foi muito bem feita (aquele headshot na cabeça do senhor feudal foi nota 10). Mas o melhor mesmo, foi a luta final entre o Nanashi e o Luo Lang, que pode ser apreciada no final deste artigo.

    O final do filme, esse até hoje, 12 anos passados da estreia do filme, gera muitos debates, uns mais positivos que outros, sendo que acredito que não teve um final feliz ( o Nanashi estava todo ferido e ainda fez o erro de se deixar levar num cavalo, a meio do caminho dava para ver os rastos de sangue, dando a entender que o Nanashi ia morrer de hemorragia severa).

    Como sempre, mais um excelente artigo Muragami.

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      Seu comentário foi melhor que o meu texto! Excelentes colocações sobre o enredo do animê e muito interessante as comparações com a história.

      Muito boa essa observação de que o Nanashi deve ser holandês, nem tinha me ligado nisso.

      Sobre o final, como o animê foi todo linear, eu tendo a achar que eles conseguiram chegar em alguma vila e salvar o Nanashi. Mas, realmente, como ele estava sangrando bastante, tem grandes chances dele ter morrido pelo caminho caso não tenham chegado rápido em alguma vila.
      Mas eu acho que, para o Nanashi, se ele morresse ali, não teria problema. Porque o objetivo dele foi cumprido, ele conseguiu reparar o pecado dele de ter assassinado as crianças filhas do Lorde, quando ele salvou o Kotarou. Naquele ponto, ele estava em paz, então, mesmo que ele tenha morrido, o final foi feliz.

      Obrigado pelo elogio o/
      E desculpe pela demora em responder, minha vida está uma correria só 🙁

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    Obrigado por ter respondido. Salvo erro é o primeiro artigo seu que eu comento, mas se continuar a trazer mais artigos de filmes e ovas antigos, pode esperar a minha presença neles (isso, se eu já vi as obras citadas, tem muitas pérolas escondidas por ai).

    O teu ponto de vista sobre o final do Nanashi é o que chega mais perto da verdade e talvez tenha sido, essa a ideia que quem escreveu a história.
    O Nanashi com um pouco de cuidado não teria sangrado tanto, o frio que se fazia sentir no final do filme, diminuiria a circulação sanguínea do Nanashi, o erro mesmo foi ele não ter feito um torniquete e ainda pedir para ser transportado a cavalo até à próxima vila que tivesse um médico. A conversa entre o Nanashi e o Kotaro no final, soou muito como despedida, o Kotaro mesmo sendo criança ele sabia que o Nanashi não estava bem e o próprio Nanashi já com o sentimento de dever cumprido e redimido dos pecados do passado, ele poderia morrer em paz (neste caso a morte dele, seria a paz interior que ele tanto queria).

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      Eu que agradeço pelo comentário!

      E o Nanashi carregava essa dor do passado com ele. Talvez ele tivesse um sentimento de que ele não deveria mais viver por causa dos assassinatos que cometeu. Que ele devia pagar com a vida dele pelas vidas que tirou. Então, consciente ou inconsciente, ele vivia apenas para se redimir, para realizar uma boa ação que purgasse os pecados. Assim que ele conseguiu, ele se entregou, em paz.

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