Didn’t I Say to Make My Abilities Average in the Next Life?! é um isekai, mais um a ter anime na temporada de outono de 2019. Na história acompanhamos Mile, uma garota que virou caçadora, o mesmo que uma aventureira, mas não quer se destacar sob hipótese alguma.

É atrás de manter essa vida mediana que acompanhamos mais uma japonesa reencarnada em outro mundo. É a quinta da temporada (se lembrarmos das de Choyoyu e da de Bookworm)? Sem mais delongas, vamos ao artigo!

A adaptação animada já apresentou várias diferenças quanto ao original logo de cara. Talvez esteja seguindo o mangá, não sei porque não o li, mas li o primeiro volume da light novel e por isso me senti animado para comentar essa estreia.

Não para diminuir o anime ao compará-lo ao livro, mas a fim de enxergar melhor os pontos positivos e negativos dessa adaptação que tentou fazer mais que o básico.

Em um ponto a obra continua igual, na obsessão da protagonista, que na verdade se chama Adele, por ser uma pessoa normal. O que por esse episódio o público pode ter certeza que vai ser difícil conseguir.

Quem muito quer pouco tem, sabia?

As três companheiras da Mile foram apresentadas uma a uma e de maneira pouco natural, o que não seria necessário não fosse a drástica mudança de direcionamento feita nesse episódio.

Aliás, cortaram alguns capítulos da light novel, pulando para a frente na história. Não vou dar spoilers do que acontece antes, indico que leia meu artigo sobre o livro aqui, mas eu garanto que quase tudo o que ocorreu nesse episódio não existe na novel. Só se “salvaram” as personagens relevantes e o plot base da trama.

Um exemplo válido, apesar de bobo, foi a forma como ela pediu por carne de orc para assar e comer na pousada, quando no livro ela confere o cardápio e acaba experimento essa carne por falta de opção.

A chegada dela a pousada e a atendente mirim estão na novel, o passeio dela pela cidade em que esbarra nas três garotas com as quais faz uma party posteriormente não.

E tirando o quão forçado é fazer esse tipo de apresentação eu gostei do que vi, a Mile tem uma ótima dubladora, reagiu de forma divertida as situações novas que passou a viver na “cidade grande” e a parte técnica colorida, vibrante, combinou com o clima mais leve do episódio.

Aliás, nesse mundo em que a Mile vive, assim como a Myne de Bookworm, sua quase xará, as crianças assumem responsabilidades muito cedo. A Mile mesmo tem apenas 12 ou 13 anos, não lembro ao certo, e já é uma adulta independente.

Isso é normal para a história como ela é, a ideia de que crianças são seres incapazes é algo bem recente na civilização. Gosto de como em ambas as séries esse é um ponto que faz sentido ante a época na qual são baseadas.

O “pokémon” usado para representar as nanomáquinas não existe na novel, é apenas uma voz, e essa é mais uma das várias pequenas mudanças em comparação ao original. Que nada me incomoda, pelo contrário nesse caso, já que esse monstrinho compactuou com o clima fofo almejado nessa adaptação.

O desaparecimento das crianças foi outra diferença em relação a novel. Algo criado para essa estreia.

A forma como a protagonista contou suas circunstâncias eu já não gostei. Foi parecido com o que rolou em Ascendance of a Bookworm, a diferença é que lá fez mais sentido porque usaram um trecho anterior a história de verdade. Eu preferia que tivessem feito o mesmo aqui.

Nem mesmo explicaram porque existem nanomáquinas em um mundo de fantasia ou porque ela saiu de seu país para tentar a vida como caçadora em outro lugar. E, afinal, o que significa essa profissão?

Alguém acostumado a fantasia, principalmente a animes do gênero, sacou mesmo sem ter lido o que escrevi no início do artigo, mas essa certamente não é a melhor forma de fazer as coisas.

Um telespectador leigo poderia confundir o trabalho com o de um caçador normal e não é assim. Aliás, o mundo não foi explicado, né!

Que tipo de Pichu é esse?

Por outro lado, também curti como o suposto desaparecimento da atendente serviu para mostrar de uma forma mais prática um dos trejeitos de personalidade mais marcantes da heroína, sua disposição para ajudar o próximo mesmo que isto a coloque em maus lençóis. E eu gosto disso na Mile, confesso.

A título de curiosidade, a Misato era muito solitária, então lia, jogava e assistia muita coisa. Era uma otaku, não que uma japonesa precise ser uma para conhecer o básico dos clichês e estereótipos dos mangás. Gostei também da cena de ação que inventaram aproveitando a “moçoa”.

Este, aliás, foi mais um detalhe adicionado pelo anime, na novel a Mile não se refere assim a (futura) amiga. Até pouco depois desse momento a adaptação estava me ganhando com essa atenção aos pequenos detalhes, errando em uma ou outra abordagem, mas no geral construindo uma historinha original bem divertida.

Mavis, a cavaleira tomboy.

O que se deveu muito as piadinhas pontuais da Mile, e verdade, na novel ela não é tão cômica assim. Daí a situação progride e a Reina Escarlate aparece salvando a Mavis e a Mile.

A melhor forma de formar a party se a gente parar para lembrar que ela estava perto da favela ao aparecer pela primeira vez e dadas as suas roupas e sua capacidade de usar magia (algo não tão comum nesse mundo se lembrarmos das reações da atendente e do vendedor) fica fácil ligar os pontos: ela estava investigando.

A cavaleira não percebeu, mas a Reina logo se deu conta de que a Mile usa magia sem dizer o encantamento.

Nesse mundo isso é incomum dada a ideia de proferir a magia para usá-la, quando a Mile apenas constrói a imagem mental e a usa com a ajuda da informação privilegiada que tem de que a magia nesse mundo é na verdade a ação de nanomáquinas respondendo as necessidades humanas.

Rena Escarlate, a maga de fogo tsundere.

Essa atenção da Reina é o mínimo que eu poderia esperar de alguém que estava investigando a situação e também usa magia.

Enfim, tirando a última, achei as formas como as garotas reapareceram no caminho da Mile todas bem aceitáveis e com isso o foreshadowing acabou sendo mais fácil de processar, sem ele a formação da party improvisada seria abrupta. Há males que vêm para o bem, né.

E, por fim, a última das três, chamada Pauline, estava cuidando das crianças raptadas, tendo sido raptada com elas, tudo para corroborar com a imagem de uma curandeira como alguém que cuida dos outros.

É clichê? É, mas até aí okay, me incomoda é a Mile se importar tanto com o tamanho dos seios.

Pauline, a curandeira que diz “ara ara”.

Até esse momento o episódio estava bem legal, mas o pensamento da Mile sobre a Lenny foi bastante desagradável, ainda que eu entenda ela pensar nisso, é só lembrarmos do país em que ela nasceu quando vivia em outro mundo, eu não concordo é com a forma como ela expôs a situação.

É fruto de uma visão claramente machista, de que ser abusada seria de alguma forma um sinal de amadurecimento para uma criança.

Eu sei que ela morreu jovem, sequer adulta era, e ainda é bem nova nesse novo mundo, certamente menos evoluído que a Terra no Século XXI, então consigo entender a falta de raciocínio dela sobre a gravidade da situação, mas não de quem escreveu essa parte.

Isso, claro, também não existe na novel, foi decisão criatividade do roteirista em comum acordo com o diretor e deixa claro o machismo pela forma de falar.

É banalizar o estupro considerá-lo uma experiência de maturação. Roubar a inocência de uma criança não a faz amadurecer, não com essa conotação que a cena dá, ruim, certamente, mas cômica também. Não tem graça esse tipo de situação!

Mile fez a minha cara ao ver essa cena terrível.

Eu sei que a Mile reage com consternação a ideia, mas o pavor dela é retratado de maneira mais cômica que repulsiva e a essa altura o estrago já estava feito. A cena foi péssima e daí só seguiu ladeira abaixo.

A derrota da linha de frente, da maga com magia ofensiva e da cavaleira, abriu espaço para revelar que existem rankings entre os caçadores, o problema é que os caçadores não são explicados. A Informação foi dada de graça, sem muito propósito, bastava dizer que elas eram amadoras, algo assim.

O episódio, que estava bom até poucos minutos antes, se perde de vez quando a vilã revela suas intenções e a Mile só passa a agir depois que ela pisa na ferida, em seu complexo de seios pequenos. Algo que há na novel, mas em um nível mais normal, que não parece afetá-la tanto assim.

Pelo modo como a coisa se desenrola fica parecendo que a Mile só agiu porque se sentiu humilhada e não para ser justa, o que tudo bem, é diferente de ajudar alguém em um caso de vida ou morte, as crianças já estavam seguras atrás dela e de suas conhecidas, mas, ainda assim, me pareceu deslocado para a personagem.

É como se a piada tivesse a possuído, tudo o que ela fez dali em diante foi em prol disso, e nem foi da piada original, dela querer ser mediana em tudo, mas dela se ressentir por ser uma tábua.

Só para fechar o raciocínio aqui. Um harém de crianças fofas? Todo o apreço que eu estava tendo pelo roteiro e pela direção, que já havia diminuído drasticamente devido a cena “inventiva” da Mile, caiu por terra. Por que isso? Por que estragar um episódio que estava tão legal com tantas escolhas idiotas?

Tirando o plot base e as características do mundo; além da maior parte da personalidade da protagonista, e as personalidades de suas colegas; praticamente todo o resto é original. Em alguns momentos foi criativo, apesar de forçado, em outros foi patético, principalmente a partir da cena da Mile temendo o abuso da garotinha.

O pior é que haviam ideias boas no trabalho, só que estas foram desperdiçadas em situações bem pontuais, mas que não podem de forma alguma ser menosprezadas.

A hora em que o bichinho das nanomáquinas para a cena de “tensão” para jogar diálogo expositivo e explicar algo que poderia ser explicado de modo menos abrupto foi a cereja do bolo. Queria saber como a pessoa que escreveu a história se sente sobre essa adaptação.

Por um lado, tudo está bonitinho e a direção e o roteiro tiveram alguns méritos, por outro, falharam feio e comprometeram a qualidade da estreia; tanto em comparação ao material original (apesar de que em um menor nível), quanto para quem viu apenas esse episódio do anime.

A adaptação não é ruim porque cortou, acrescentou, modificou coisas em comparação a novel, ela é ruim porque em momentos pontuais a qualidade da escrita caiu demais, com cenas que sequer fazem sentido. Narrativamente ou tematicamente falando.

Ao menos curti a forma de explorar a piada de estar na média. Faltou bom-senso ao ser divino que a concedeu poderes, mas a culpa também foi dela que não esclareceu a que tipo de média ela se referia.

Mile é metade de um dragão. Mile venceu na vida.

No fim, ela derrota a todos os vilões com um golpe (pena que não fez referência ao Saitama) e vai embora achando que vão querer se afastar dela por ser forte demais. Típico de uma personagem que deseja ter a vida tranquila que ela quer. Parece até o Kira da quarta parte de Jojo. Devo me preocupar?

A Mile acabou se envolvendo em algo no impulso e se arriscou a expor toda a sua força, a qual a torna tudo menos alguém comum para os padrões do mundo em que ela vive.

Isso prova que ela precisa amadurecer mais como pessoa, para saber agir mais de acordo com o que ela deseja, ou ao menos externa, e pode ser um indício perigoso de que a história não terá consequências. O caso dos raptos não era nada para se levar a sério, né. Apesar de que é um isekai, nem sei porque espero algo a mais…

Por fim, o esperado aconteceu e ela reencontra suas conhecidas na escola de caçadores. Mas por que ela foi estudar nessa escola em primeiro lugar? Por que veio de outro país para esse? Quais são as circunstâncias da Mile? Valia a pena expor isso nessa estreia? Se houvesse uma forma natural de fazer isso talvez.

Como duvido muito vou ser bonzinho e não vou considerar esse um demérito, mas é claro que o público precisa de mais respostas sobre o passado da garota, para assim poder entender melhor a personagem e vislumbrar o futuro que ela terá. Ou pelo menos estar pronto para o que está por vir.

Adorava o episódio, apesar das ressalvas, até certo ponto, depois foi uma experiência chata para mim. Sendo justo, ou ao menos tentado, acho que a proatividade da equipe de produção do anime em arregaçar as mangas e não só adaptar fielmente, o que geralmente é bem chato, foi algo bom.

Por outro lado, pecaram justamente em algumas dessas alterações, o que tornou uma estreia que estava indo bem em algo no máximo médio. Pondo na balança, a estreia chegou mais próximo do objetivo da Mile do que ela jamais vai chegar. Isso é bom? Não, mas se era intencional, o que eu duvido, funcionou.

Até a próxima!

Ninguém estava esperando por isso, estava?

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    Essa foi uma análise bem detalhada para uma primeira impressão, e traz uma das coisas que eu mais odeio em uma adaptação de novel para anime (principalmente isekai), que é quando mudam um aspecto da obra original da obra, e ainda criam um defeito no processo. É horrível. Aconteceu em Tate no Yuusha (Matriarcado no primeiro episódio? Teletransporte na reunião de heróis?), em Slime (o corte do exame de aventureiros, que criou um buraco (um abismo aliás) no último episódio, só pra citar um), mas principalmente em Arifureta, que pra não mencionar todas as mudanças, destaco a principal: o horrível primeiro episódio, que além de todas as coisas abissais, ainda mudou o motivo da mudança do protagonista pra um desejo de vingança genérico, sendo que todos os outros episódios seguem a novel nesse sentido, fazendo parecer que ele se esqueceu de querer se vingar.

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