Através dos livros, os mais variados tipos de conhecimentos podem ser guardados e transmitidos por gerações. As pessoas morrem, mas o conhecimento e tudo que é escrito permanecem. Atualmente o acesso a livros não é difícil, e com a criação dos “livros digitais” (e-books), tal acesso foi ainda mais facilitado.

A história que esse anime, apesar de ser uma fantasia, nos trás remete a um passado muito distante, onde livros eram raros. portanto, um artigo de luxo que só a nobreza tinha acesso. Através do anime, o público poderá acompanhar um período que se assemelha ao medievo sob um ponto de vista um ponto de vista menos fantasioso  do que estamos habituados a ver.

O ritmo vagaroso favorece a apresentação de um mundo que foi apresentado como novo tanto para a protagonista Myne/Urano quanto para os espectadores, Ao terminar de ver o primeiro episódio, senti que explorei aquele ambiente junto com a protagonista e com o olhar da mesma. Quem prefere tramas mais dinâmicas, possivelmente, achou que pouca coisa aconteceu, mas não foi bem assim. Desde a adaptação de Urano em sua nova vida dentro de um corpo (debilitado, diga-se de passagem) de uma garotinha chamada Myne, até a confirmação de que livros realmente existem naquele mundo, coisas foram acontecendo, e mesmo que sejam fatos corriqueiros, não podem ser desprezados.

Os desafios de Urano em seu novo corpo e com uma nova configuração familiar e ambiental são tão grandes, que até abrir uma simples porta foi trabalhoso, indicando que a situação da protagonista não é nada fácil.

Como a escrita e, provavelmente, a educação não é algo difundido às classes mais baixas, o uso de uma linguagem visual é uma alternativa eficiente de comunicação. Outro ponto interessante é o uso de números, que é algo tão antigo quanto o uso da linguagem escrita.

Uma característica importante da protagonista é a fácil adaptação à nova vida e a capacidade de fazer leitura das situações. A maturidade que ela trouxe consigo da vida passada foi o fator que permitiu uma percepção rápida do que estava acontecendo.

Além da maturidade, outra arma fundamental para vencer as barreiras que aquele mundo até então desconhecido impôs à pequena garota é o conhecimento que a garota trouxe consigo da vida anterior. aliás, a paixão pelos livros, que é a força motriz dessa história, foi outra coisa que permaneceu.

A cena inicial de um sacerdote investigando as origens de Myne também é uma maneira do espectador acompanhar o que está acontecendo aos mesmo tempo que uma das personagens. A narração da protagonista sobre seu afeto pelos livros e sobre sua morte foi uma forma uma boa forma de fazer uma apresentação breve. A parte visual lúdica serviu tanto para dar um charme à apresentação de Urano, atualmente, Myne, além de suavizar o acontecimento trágico que causara o óbito da personagem.

Personagens esforçados e determinados geralmente atraem a empatia e a torcida do público, pois esses tipos de personagens fazem de suas histórias, não importa de que natureza seja, uma verdadeira jornada em busca de algo precioso. Com Myne não parece que será diferente, pois a determinação e o esforço feitos em meio às adversidades são características louváveis da personagem que está em busca de um desejo, embora simples, mas que é capaz de mudar ela mesma e as pessoas ao seu redor.

Os livros, que de forma irônica, poderiam ter dado um fim numa pessoa que os amavam, são o começo (ou talvez um recomeço) para Myne que poderá dar ainda mais valor em algo que ela não tem mais facilidade de acesso. A ideia de fazer os próprios livros é uma excelente tentativa de contornar a adversidade de não poder ter contato com os livros, além de ser um desafio, pois, talvez, em sua vida passada, nossa heroína não tenha cogitado a ideia de produzir seu próprio livro.

Para encerrar, se não fosse a escrita e a criação e popularização dos livros, eu não estaria aqui escrevendo este artigo. Infelizmente, tenho que admitir que não sou um leitor dos mais assíduos, mas me sinto satisfeito em escrever essa humilde primeira impressão sobre um anime com temática interessante e que parece ser mais do que apenas um anime feito para relaxar. Espero eu que a jornada pessoal de Myne (antes, Urano) progrida e nos divirta durante esta temporada.

Obrigado a todos que leram este artigo, e até a próxima!

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    Até ao momento, Ascendance of a Bookworm foi uma das estreias que mais gostei e este artigo complementa muito bem o que aconteceu no episódio.

    Começando pelas coisas que o meu lado positivista não quis ver ou suavizou, foi meio errado a Myne/Urano ter sido drogada para o mago lhe ver o passado e foi bem triste, se pensarmos que a verdadeira Myne antes de ter o seu corpo ocupado com a alma da Urano, ter estado perto da morte por causa da sua saúde frágil.

    Agora o episódio em si, gostei bastante da forma como mostraram de forma suave como foi a morte da Urano, e avançaram para o que interessava.

    O que gostei de verdade desta estreia é a forma como mostram a vida quotidiana e os costumes das pessoas durante a dita “Idade das Trevas”, fiquei impressionado com a demonstração das casas comunitárias, a forma como as pessoas se desfaziam das suas necessidades fisiológicas, a forma como a carne era exposta nos mercados e até a forma como as mulheres deviam usar o cabelo (as mulheres casadas podiam usar o cabelo preso e ter o mesmo comprido, as mulheres pecadoras, adulteras ou prostitutas tinham que ter o cabelo curto ou raspado. Pelo menos era assim que os costumes ditavam).

    A parte da rara existência de livros foi muito interessante, antes da invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, os livros tinham que ser copiados por um monge, esse processo poderia levar meses e até anos em alguns casos, dai só os nobres e o clero terem acesso a eles. Foi muito interessante a parte em que a Myne fica a descansar numa loja de tecidos do mercado e o dono dela tinha um livro guardado dentro de um expositor, a forma como o dono do livro não deixou a Myne mexer nele, prova a raridade dos livros e o seu valor.
    Outra coisa interessante que tu citaste, o mero plebeu raramente tinha acesso a educação, se eles não sabiam ler não havia necessidade das classes mais baixas terem acesso a livros (não eram só os plebeus que eram analfabetos, durante séculos a nobreza latifundiária também não sabia ler ou escrever, até muitos réis não sabiam assinar os próprios nomes, eles assinavam com um X).

    De resto, esperava algo mais da animação, o estúdio Ajia-Do é um dos estúdios que mais gosto, só espero que o resto do anime se mantenha minimamente bem acabado. Das vozes, a voz da protagonista podia ter sido outra, a seiyuu escolhida não é das melhores.

    Excelente artigo de primeiras impressões Flávio.

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