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Quando eu assisti a prévia desse episódio ao fim do episódio da semana passada, achei que a volta da empregada Momoka serviria para revelar informações sobre o estado atual do reino de Misurugi, ou do que um dia foi o reino de Misurugi. Infelizmente, esse anime não se cansa de me frustrar. A empregada apareceu sim, mas ela não diz uma palavra sobre o reino. O episódio inteiro foca na mágoa compreensível que Ange guarda dela por tê-la enganado por todos esses anos, o que também é um tema interessante, mas como todos os outros temas interessantes de Cross Ange, é mal desenvolvido.

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O reencontro emotivo de Momoka com a princesa Angelise

Indo direto para o final: Ange não tem uma conversa séria com Momoka sobre os anos de mentira. E ela até tentou, mas a empregada não respondeu nada, negou que tudo tivesse sido uma mentira da mesma forma que Ange negou por tanto tempo que fosse uma norma. E faz sentido que a Ange não queira aceitar sua condição, mas é muito mais difícil entender porque Momoka age assim. De todo modo, Momoka invadiu a base e teve acesso à informações que ela jamais deveria, como o destino das normas capturadas e a existência dos dragões, então acaba sendo decidido que ela deve ser executada. Ela não sabe disso, mas de alguma forma Hilda e suas amigas do núcleo malvado da novela sabem e ficam conversando sobre isso perto de Ange para provocá-la e até mesmo tocam abertamente no assunto mais tarde. Pena que, como sempre, seus planos saem pela culatra (o mal nunca vence, afinal), e porque Ange sabia ela pôde salvar Momoka. Mas por que Ange salvou Momoka se estava tão magoada com ela? O comportamento de Emma, a responsável pela base capaz de usar magia, também é pouco compreensível. Desde que Momoka apareceu ela estava inconformada com o destino que seria dado à garota e instantes antes do que seria o fim ela não teve coragem de encarar a garota, que não sabia que estava partindo em sua última viagem nesse mundo, mas mesmo assim se mostrou indignada e quase se opôs a que Ange a comprasse, e, consequentemente, salvasse sua vida. Por que ela estava indignada? Talvez embora insatisfeita com a regra que tinha que fazer cumprir, ache que cumprir regras seja importante acima de tudo.

Ange não parece feliz com Momoka

Ange não parece feliz com Momoka

Mas e como Ange passou de um poço de rancor contra Momoka para uma pessoa capaz de gastar todas as suas economias e se arriscar sobremaneira numa missão, matando de forma inédita todos os dragões sozinha só para garantir que ganharia ainda mais dinheiro, tudo isso para salvar a vida de sua ex-empregada? Não sei, só sei que foi assim. Quero dizer, talvez a mágoa dela não fosse tão grande assim, ou embora ainda magoada ela não seja uma pessoa tão sem coração assim, e por isso decidiu salvá-la. Conhecendo Cross Ange, contudo, me parece que é um pouco da segunda opção sim (ela não tem sangue de barata, senão faria parte do núcleo malvado da novela), mas acabou perdoando a pobre empregada quando viu que ela guardava com afeto uma cicatriz de quando a princesa fez-lhe um curativo quando eram ainda crianças pequenas ou quando ela disse que a amava e sempre a amaria. É sobre esse amor de Momoka que o título se refere, e sobre o qual quero falar. Mas antes, outro assunto.

Ange não está nem um pouco feliz com Momoka. Pudera, uma vida inteira de mentiras

Ange não está nem um pouco feliz com Momoka. Pudera, uma vida inteira de mentiras

Quando elas eram crianças, Momoka quebrou uma boneca de Ange e feriu o braço. A princesa rasgou o próprio vestido para fazer um curativo no ferimento profundo no braço de sua empregada, e quando perguntada porque fazia isso, respondeu que bonecas e vestidos são substituíveis, mas pessoas não são, a Momoka não era. É uma frase poderosa e que eu adicionaria em qualquer código moral ideal se eu fosse louco de fazer coisas assim, mas vindo de Cross Ange e da forma como veio pareceu só apelação, meio vazia até. Quer dizer que a mesma princesa capaz de dizer barbaridades sobre normas e maltratá-los cultiva valores assim tão elevados? Não que seja impossível, mas é muito improvável. E em ficção isso significa que não soa verossímil. Claro que é possível educar uma criança para que tenha os mais altos valores para algumas pessoas e valores totalmente abjetos para outras, simultaneamente, mas por que fariam isso se a própria princesa era uma norma? É no mínimo arriscado. E outra, se a princesa tinha mesmo tanta humanidade em seu coração, o tratamento que ela dispensa às normas não faz sentido. Ela chegou a flertar abertamente com o genocídio das normas! O que quero dizer é: pessoas com valores morais tão elevados podem sim não tratarem a todos igualmente, mas é muito pouco provável que tratassem alguém de forma tão repulsiva assim. Pessoas com valores morais pelo menos razoáveis não são capazes de fazer metade do que a princesa fazia sequer com animais! Isso na média, claro, sempre há as excessões. E a princesa pode ser uma exceção, mas exceções, se não forem explicadas, são apenas falhas no enredo.

A ex-princesa finalmente trata sobre o assunto: desde quando Momoka sabia? Mas Momoka sequer esboça resposta

A ex-princesa finalmente trata sobre o assunto: desde quando Momoka sabia? Mas Momoka sequer esboça resposta

Agora sim, a Momoka. Ela ama Ange, não tenho dúvida disso. Ela arrisca a própria vida para se reencontrar com a princesa, e quer reencontrá-la para serví-la. Seu amor é pleno quando ela serve a princesa. Ela passou três dias sem comer, sabe-se lá como estavam as condições do país quando ela saiu dele, como ela descobriu onde a princesa estava, como ela conseguiu chegar em Arzenal, e mais importante, o quanto ela se arriscou fazendo tudo isso. Mas ela fez, e não queria nada de sua princesa em troca. Ao invés, ela queria se dar ainda mais para Ange, e se enchia de tristeza quando a ex-princesa a negava, e estava ainda mais triste quando estava indo embora da base (ela não sabia que ia morrer, estava triste apenas por se separar de Ange). É possível que um empregado, um funcionário, se entregue de corpo e alma assim ao seu patrão? Porque essa era a relação entre elas, patroa e empregada. E sim, isso é possível. Infelizmente é possível. Hoje em dia disfarçam isso com termos como “vestir a camisa”, antigamente os egípcios matavam os empregados para enterrá-los junto de seus senhores, mas o conceito é o mesmo. Veja bem, eu sei que nem sempre “vestir a camisa” é usado nesse sentido, ok? Apenas o vi sendo usado vezes o suficiente e em situações ruins o suficiente para que eu ficasse atento a ele. Mas não se atente a esse termo em particular também, é só uma das formas que empresas mal intencionadas têm para fazer seus funcionários se esfolarem para o bem delas.

As três patetas preparando uma nova patetice

As três patetas preparando uma nova patetice

O caso de Momoka é ainda pior, pois ela não trabalha para a princesa. Quero dizer, é lógico que trabalha, mas para ela isso não é um trabalho. Ela foi criada desde pequena para que isso fosse apenas sua vida normal. Adicionalmente, vivendo tão próxima à Ange, acabou apaixonando-se por ela. Ou talvez isso também tenha sido induzido de fora? Tanto faz, o resultado é o mesmo. E hoje, nesse momento, muitas mulheres em todo o mundo estão trabalhando em suas casas sem considerar isso um trabalho. Boa parte delas internalizou essa servidão como algo natural, desejável até. E claro que não vai ser Cross Ange a criticar isso. Mas poderíamos esperar que pelo menos animes para o público feminino fizessem essa crítica, não é? Infelizmente, prestem atenção, isso também não é verdade. Mesmo nos romances shoujo mais inofensivos, na maioria esmagadora dos casos, a garota tem a obrigação de fazer coisas pelo namorado: o chocolate de dia dos namorados está sempre presente, e com frequência vemos também trabalhos manuais em tricô. Já o garoto nunca tem que fazer nada. As vezes tem que comprar presentes, mas convenhamos, isso pode até exigir dinheiro, mas o esforço é zero. E nos piores casos vemos a garota se matar de se esforçar, se humilhar, sofrer mesmo, por um garoto que francamente não merece. E isso tudo é considerado normal. Não é à toa que esses bonitões sejam quase sempre chamados em algum ponto da história de “príncipes”. Percebeu como a situação entre a Momoka e a Ange não é assim tão diferente desse tipo de romance shoujo?

Hilda e suas hildetes conversam em voz alta para que Ange ouça que Momoka será executada

Hilda e suas hildetes conversam em voz alta para que Ange ouça que Momoka será executada

E por que estou falando tudo isso, que não diz respeito necessariamente à Cross Ange? Porque Cross Ange é ruim, não tenho muito a dizer sobre ele além disso, mas vi uma oportunidade para tratar de um tema interessante e importante a partir de uma mensagem dele, e estou fazendo isso. Encerro com uma comparação: Cross Ange vs. Ookami Shoujo to Kuro Ouji, o romace shoujo escolar tradicional da temporada. Kyouya (o bonitão) maltrata Erika (a garota), e Ange também maltrata Momoka. Tenho certeza que Kyouya tem seus problemas e seus motivos para agir assim, mas sabemos muito bem que Ange também tem. Erika faz todo tipo de trabalho para Kyouya, se humilha por ele, e Momoka também faz o mesmo por Ange. Erika diz amar Kyouya e isso o impressionou, mas ele não pôde responder da mesma forma, e Momoka fez o mesmo, para a mesma reação de Ange. Kyouya é chamado de príncipe em sua escola, e Ange literalmente era uma princesa. Kyouya salva Erika quando ela precisa, e Ange também salva Momoka quando ela precisa. Claro que são situações e sentimentos diferentes, mas a mensagem que passam é semelhante. Em Cross Ange, um anime para garotos, a protagonista é Ange, o lado forte, que maltrata, que é servido. Em Ookami Shoujo, um anime para garotas, a protagonista é Erika, o lado fraco, maltratado, servil. De verdade, isso é lixo e está ensinando lixo para quem assiste.

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