Desde a criação, em 2002, da categoria de Melhor Filme de Animação no Oscar, seis produções japonesas obtiveram vaga entre os finalistas, uma delas foi As Memórias de Marnie (Omoide no Marnie, 2014), de Hiromasa Yonebayashi, no ano de 2016, que na disputa pela estatueta acabou superada por Divertida Mente, da parceria Pixar-Disney. Um “rival” de peso para o longa-metragem produzido pelo Studio Ghibli. Não obstante o destaque, o que As Memórias de Marnie tem para oferecer está para além do reconhecimento em forma de prêmios.

Certa vez, li um artigo que debatia o machismo na indústria de animação japonesa e como as produções do Studio Ghibli são exceções em um universo que ainda insiste em representar as mulheres a partir de uma visão sexista (principalmente no que tange ao fanservice e às personagens femininas unidimensionais). As Memórias de Marnie, que chegou a ser saudado e lamentado como a última obra do estúdio, pertence a essa cepa de filmes em que a exposição de seu mundo consegue amplificar os campos de ação, desejos e pensamentos de suas protagonistas.

Adaptação do clássico romance juvenil britânico When Marnie Was There, de Joan G. Robinson, a animação de Yonebayashi acompanha a jovem Anna, de 12 anos, que, após sofrer mais um ataque de asma, é enviada pela sua mãe adotiva de Saporro, capital da província de Hokkaido, ao norte de Hokkaido, para reestabelecer sua saúde na casa de seus tios, devido ao excelente clima do campo. Anna é uma adolescente ansiosa, solitária e que carrega um ódio a si mesma, pela sensação de abandono e rejeição, o que a torna antissocial. Sentimentos agravados pela descoberta que seus pais recebem dinheiro (um benefício financeiro) do governo para cuidar dela.

A solidão de Anna. Na arte, a garota encontra uma forma de não se sentir constantemente inadequada e não amada.

E na pequena cidade, de paisagens maravilhosas, Anna encontra uma garota rica chamada Marnie, que mora em uma mansão no meio de um pântano (acessada via canoa), com quem faz uma amizade instantânea, cujos laços se fortalecem a cada vez que estão diante uma da outra. O sofrimento de Anna, suas dúvidas a respeito de sua família adotiva e a autoaversão tornam-se menos sombrio na presença de Marnie. A menina altiva e espirituosa encanta Anna, porém ela mesma dá indícios de portar seus problemas, com pais negligentes e cercada por empregados da mansão que abusam dela. A relação entre elas se firma na compreensão mútua e no consolo às dores. Porém, aos poucos, a existência de Marnie começa a ganhar tons de mistério e o sobrenatural se estabelece, levando Anna a descobrir a verdadeira natureza da amiga.

A mansão da família de Marnie: um fascinante mistério para uma jovem em busca de sua identidade.

As Memórias de Marnie é um drama sobre identidade, busca pelas raízes e amadurecimento e, também, um conto fantástico. Essa mistura de gêneros contribui para que a linha entre o real e o imaginário, o passado e o presente, aproxime-se de sua abolição, como na mansão que, pela manhã, é um lugar decadente e à noite se transforma com suas luzes e seu aspecto suntuoso e em sequências oníricas que culminam em súbitos apagões de Anna, e com ela despertando ou na casa dos tios ou próxima ao pântano, e em sumiços de Marnie, para surpresa e desespero de Anna. Porém, a menina não contesta a estranheza desses fatos, o que diz muito sobre a percepção dos momentos que está experienciando, ao preferir cobrar de Marnie o abandono no silo, em noite chuvosa (sentimento de rejeição, mais uma pessoa a deixa para trás), que explicações ao que aparenta desordenado na história da garota e do que anda ocorrendo à própria Anna  –  os constantes sonhos com a vida de Marnie, incluindo o primo da garota, como flashes revelatórios, e as maneiras antiquadas da adolescente. Convivendo com as sensações de inadequação e autodesprezo e de não se sentir amada por alguém, um forte vínculo como o de Anna e Marnie pode ser encorajador, mas também um castelo de areia, caso expectativas não sejam alcançadas ou retribuídas. O medo de Anna é de que tudo desmorone de uma vez. Outra vez a morte dos pais e da avó e o sentimento de traição no que diz respeito aos pais adotivos receberem dinheiro para cuidar dela a perseguem em forma de culpa e raiva.

A cativante (também melancólica) Marnie em uma animação de visual arrebatador.

A obra é dividida em duas partes, sendo a primeira o desenvolvimento da relação entre Anna e Marnie, e, em seguida, as surpresas que inserem a produção no realismo fantástico, incidem na descoberta de Anna a respeito de sua origem e de quem é Marnie. O contato de Anna com o mistério antes de assustá-la reforça o desejo de autodescoberta. E, ao evitar uma história de fantasma, As Memórias de Marnie revela seu valor, o de uma obra melancólica sobre o que nos falta, a necessidade do perdão e de prosseguir em frente.

A pintora Hisako com Anna: um drama familiar delineando a possibilidade de autoafirmação.

A intensidade da amizade entre as garotas é algo a se destacar. Necessidade de aceitação, cumplicidade e atração as une. A exigência da presença física, o enlevo visível de Anna diante Marnie e alguns elementos que indicam o estado emocional da primeira, como ciúme e senso de proteção, aproximam a obra da possibilidade de um laço romântico entre elas, porém, estão, em jogo, a afirmação do vínculo afetivo como dedicação recíproca e da autoafirmação pela ligação emocional que favorece o surgimento da coragem de se confrontar e apaziguar-se. É um retrato da infância agridoce, uma obra reflexiva que investe na complexidade de suas personagens principais. Além de Anna e Marnie, há coadjuvantes bem delineados, fundamentais à narrativa, como os tios de Anna, um casal descontraído que opta pela compreensão e nunca a sermões no que concerne a alguns episódios que cercam a menina em sua estadia (como a ofensa, pesada, diga-se de passagem, a uma menina que Anna chama de “porca gorda”, diante da insistência de aproximação da menina e que a personalidade autodepreciativa e a inabilidade na comunicação de Anna não permitem), a pintora Hisako, que conhece o passado de Marnie, e a pequena Sayaka, nova moradora da mansão, que é peça-chave na resolução do mistério que envolve a existência de Marnie.

Uma história sobre amor e amizade, compreensão e cura.

A animação é belamente fotografada, o que confere a ela um visual arrebatador, com atenção aos detalhes, principalmente ao vento e a maré, que representam estados de espírito das garotas e a transformação pela qual Anna passa. O design sonoro dialoga com as cenas, enfatizando a importância dos sons da natureza.


As Memórias de Marnie é uma obra poética que enfrenta a tristeza, que faz parte do universo das crianças, silenciosa em muitas passagens e madura (ainda que o mistério possa ser intuído antes de sua revelação). Esse conto de autodescoberta e fortalecimento dos laços afetivos (seja da amizade, seja familiar) traz uma mensagem simples e delicada, mas profundamente significativa, de que todos temos um lugar no mundo.

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