Shakugan no Shana é uma light novel de autoria de Yashichiro Takahashi e ilustrações de Noizi Itou. A obra se encontra finalizada com 22 volumes, teve bom número de spin-offs e foi adaptada tanto para anime, quanto para mangá. Inclusive, o mangá também está sendo lançado no Brasil pela New Pop. E o que retrata a história de Shana e Yuji? Um mundo cuja realidade é pintada pelo vermelho escarlate.

Na história somos apresentados a Yuji Sakai, um colegial normal que, em um belo fim de tarde, acaba se envolvendo em um evento sobrenatural e descobre que existe um outro mundo ao lado do seu; se trata da Realidade Escarlate, um lugar do qual invasores atacam as pessoas da Terra para roubar-lhes o Poder da Existência e assim serem capazes de controlá-la por completo.

É revelado a Yuji que ele se tornou um mystes, alguém que carrega uma relíquia dentro de si, e já pereceu, tornando-se somente um resquício do que já foi um dia, uma Tocha, até o momento em que será apagado da existência e é Shana quem conta isso a ele.

Ela é uma Flame Haze, um ser humano que fez pacto com um Soberano – um dos mais poderosos habitantes desse outro mundo – para impedir aqueles que roubam a Força da Existência das pessoas de perturbarem o equilíbrio. Sim, é nessa trama um tanto quanto intricada que Yuji e Shana se conhecem, vão se aproximando e formando um laço que os mudará para sempre.

Dada a sinopse, vamos ao que interessa! Um dos maiores acertos dessa série está na interação entre os protagonistas. Yuji é uma pessoa normal que descobre uma verdade aterradora e a ela reage com tranquilidade e lucidez, contrariando o que seria comum na situação, mas isso se deve muito a quem o acompanha nessa aventura, Shana, alguém que fala a verdade sem cortesia, e nem se envolve com outros.

Só que ela também vai mudando no processo, passando a se importar com Yuji, e até mesmo a ter uma maior consciência do seu eu, afinal, antes ela sequer tinha nome, passando a adotar o que o garoto arranja para ela. A relação deles é uma troca e por meio dela a história é forjada.

Como só é após a morte de Yuji que conhecemos o personagem, não há parâmetro para definir se o modo como ele lida com a situação condiz com seu eu de antes.

Ele já é caracterizado em meio a situação e passa a ser influenciado pela Shana, o que é uma excelente sacada para justificar sua objetividade e a força mental que ele desprende para enfrentar uma realidade cruel. Ele se adapta muito bem ao problema – não dizem que é isso que os seres humanos fazem de melhor?

Com a Shana é como se ela fosse um iceberg que demora a derreter. É difícil para o Yuji sensibilizá-la e fazê-la se importar com outra coisa que não seja a sua obrigação, mas ele não a força nada, toda a mudança dela é fruto do convívio.

Nas conversas e situações imprevistas ela passa a vê-lo como mais que um objeto, se permitindo também ser ao menos um pouco normal. Não nasce um amor romântico, mas a base para ele vai sendo criada com a amizade e o companheirismo que são os alicerces para qualquer relação saudável que possui o teor romântico que a escrita dá a entender que se concretizará.

Não à toa surge uma rival no amor. É por um motivo que força um pouco a barra, mas a intenção de atenuar esse aspecto da relação deles é cumprida, então sou capaz de relevar tal desenvolvimento.

Aliás, é a vida escolar, o cotidiano deles, aquilo que o Yuji valoriza e quer manter e a Shana passa a fazer parte dele enquanto o protege. É por isso que os personagens secundários, os colegas de classe e a mãe do jovem, precisam aparecer, para dar ao leitor, e a própria Shana, a dimensão da vida que ele leva, de como seria triste ele ser apagado sem que as pessoas se lembrem que o rapaz existiu.

A Shana lembraria dada a sua situação e isso até conforta o garoto, mas com a aproximação dos dois vai parecendo cada vez menos suficiente. Menos mal que a deixa para uma reviravolta nesse sentido é dada bem cedo no livro, então, o que ocorre no clímax acaba sendo bem aceitável.

Aliás, a escrita também é boa quanto à forma que trata o fluxo de informação e o distribui para o leitor. É fácil para quem lê se colocar no papel do protagonista, e com isso assimilar os detalhes de funcionamento do mundo alternativo, da Realidade Escarlate, mais fácil.

Além disso, o diálogo expositivo sempre parte de algum questionamento dele, e mesmo se é gratuito há uma justificativa para isso.

Um detalhe é que nesse primeiro volume o autor trabalha com poucos personagens e só aprofunda mesmo os protagonistas. Uma escolha correta visto que a introdução se vende melhor assim, atiçando a curiosidade do público por mais enquanto solidifica o mais relevante.

Além disso, dada a personalidade de Friagne, o vilão do livro, não seria interessante se aprofundar no personagem, e não era necessário. Bastava entender seus motivos e conhecê-lo o suficiente para que suas atitudes coincidissem com sua caracterização.

Ele, inclusive, foge um pouco do clichê, pois é sim um personagem forte e inteligente, mas nem por isso não é suscetível a falhas e se arrisca pelo que o interessa. E não só isso, ele fala e se porta de maneira que dá a entender que é desequilibrado, mas a razão, menos que fosse absurdo o que ele almejava, é o que o guia.

É um vilão até bem humano. Não é alguém que denota uma transformação ou um poder especial que aparece convenientemente para ser vencido e isso é ótimo, pois é só um volume de vinte um à vista – há um universo a ser expandido e isso faz com que esse livro inicial precise ser básico mesmo, mas nem por isso pouco interessante e menos emocionante.

A escrita de Yashichiro se vira bem nas cenas de ação e consegue provocar uma tensão que condiz com o clímax, mas antes mesmo dele há bons momentos de enfrentamento, não é o melhor possível, o mais detalhado possível, por causa da abordagem dinâmica normal a light novels – mesmo que estas sejam de ação –, mas é o suficiente para aproveitar bem os personagens e tudo o mais que vem junto com eles.

Admito que iniciei a leitura com certa desconfiança, mas, com o passar das páginas ela foi me cativando, e lá pela metade eu já estava achando tudo muito legal, no clímax é que já estava devorando o livro em versão pocket avidamente, pois estava muito interessado no final e ele em nada me decepcionou.

O epílogo serviu como um belo complemente ao capítulo final. Eu só tenho mais três adendos a fazer, e nenhum deles é exatamente problema da obra.

 

Primeiro, ficou na cara que o autor tem algum problema com professores, que ele é meio amargurado com educadores ou usou alguma experiência traumática para caracterizar esses personagens na trama.

Segundo, tem algo muito bacana conceitualmente nessa obra e é a fixação com a cor vermelha, a cor das chamas. É a cor do fogo e o fogo remete ao que arde, a sentimentos pungentes, e é exatamente isso que ocorre com o Yuji e a Shana, uma relação que se comparada a uma chama está crescendo gradualmente.

E a terceira observação já é um problema da publicação, a revisão desleixada e que não compromete – e se comprometesse seria caso de medidas maiores por parte de qualquer leitor – a leitura, mas é ruim para o processo.

Há muitos erros de concordância e até gramática que seriam evitados com revisão e se houve alguma, com uma segunda revisão. Fazia tempo que não lia um volume da New Pop assim e espero que isso nunca mais ocorra.

Acho difícil, pois é o problema recorrente que mancha o trabalho da editora com mais frequência. Mas não vou deixar de colecionar uma série por isso, sei que preciso comprar e comprar – e ler, é claro – se eu quiser ver o mercado de light novels crescendo saudável.

E acho que é só, no geral só posso indicar Shakugan no Shana, pois o primeiro livro é muito bom e acho que foi o melhor início possível para a série! Ele empolga o leitor para conferir o desenvolvimento da relação dos protagonistas, assim como a expansão de um mundo escarlate e instigante.

Até mais ver!

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