The Sky Crawlers tanto conta, como é, a história das peças do tabuleiro, e para quem entende de guerra, ou mesmo da natureza humana, pode usar esse filme para atualizar o significado do que significa doentio. Acho importante pontuar que o filme retrata fidedignamente uma faceta da essência da história da humanidade, no seu mais alto e no seu mais baixo significado. A história humana não passa de um palito de fósforo usado e partido ao meio junto ao chão da existência. Mas vamos ao filme.

 

 

O enredo é bem simples. Existe uma base aérea que possui cinco pilotos, quatro ativos e um veterano em posição de comando, eles são responsáveis por patrulhar e defender o perímetro aéreo da região. Todos esses pilotos são soldados de uma casta artificial especial, os Kildren, que nada mais são do que crianças feitas em fábricas e pré-programadas com as habilidades e características necessárias para se tornarem armas de guerra, nada de novo sob o sol, muito parecido com os clones de Star Wars. Ou se quiser parar para pensar, com nós mesmos, em nossa eterna infância humana ao sedimentar a cultura de uma geração a outra.

 

 

Algumas características únicas que os Kildren possuem são, por exemplo, o fato de nunca envelhecerem, não se sabe e não é exposto se são ou não “imortais”, no sentido de, caso não sejam mortos ou definhem, nunca morreriam; as memórias e sentimentos dos Kildren são nubladas, imprecisas e confusas. (qualquer semelhança com a nossa percepção de nossas memórias e sentimentos é mera coincidência) Eles tendem a parecer muito humanos, a aprender e a desenvolver certo amadurecimento, tendo funcionalidades biológicas aparentemente equivalente ao dos humanos normais.

 

 

Os Kildren são soldados descartáveis, quando um morre, outro é designado para substituir a sua posição, esse novo soldado possui as mesmas estruturas psicológicas e comportamentais que o antecessor, sendo uma marionete mais ou menos capaz de inovação. Humanos são bem parecidos com isso não acham? E assim como os clones de Star Wars, aparentemente todos têm uma base genética de matriz única, ou seja, um doador universal que oferece as características que esses soldados manifestam e carregam. Uma outra diferença aqui, é que os Kildren podem ser do sexo masculino ou do sexo feminino, e ainda mais, ao que tudo indica eles têm uma trava biológica, ou uma dissolução da sua qualidade em relação a fonte original, ou seja, o provedor de suas características é superior às criações de modo insuperável.

 

 

O provedor dos Kildren desertou do exército ao qual pertenceu, ele é chamado de professor pelos seus herdeiros inferiores, e toda vez que eles entram em confronto, os herdeiros inevitavelmente serão derrotados. Tipo quando aprendemos com os mais velhos, donos da cultura. Não podemos saber ao certo se o professor é o provedor original, ou mesmo se é ou não uma outra variação da fonte original; não sabemos exatamente quando essa guerra começou ou a quantos anos ela perdura, e não sabemos quantos anos mais ela continuará. Tudo isso pode ser respondido junto ao material que inspira o filme, o qual não obtive acesso, e por isso, não posso o levar em consideração para responder a essas questões.

 

 

Toda a história se passa junto a esse palco, esse monótono tabuleiro onde o show deve continuar. A disputa de poder é uma espécie de hobby entre as nações inimigas, e a população parece ser, ou fazer parte, em grande medida, da plateia. O que não impede que mesmo os humanos “normais” não possam morrer nesse jogo insano sem propósito algum.

 

 

Os ditos “adultos” gerenciam as instalações, ou mesmo fornecem entretenimento e vida aos Kildren, os quais vivem absortos e relegados ao destino inefável de sua insignificância, meras engrenagens militares, meros atores descartáveis.

É perceptível que os próprios adultos são reféns desse mundo insano, e ao mesmo tempo que também interpretam os seus papéis, ou mesmo questionam esse teatro vazio da existência, colaboram para que ele continue a prosperar.

 

 

Acho que nesse ponto já devem ter percebido que nem me dei ao trabalho de citar os nomes dos personagens, mas para pontuar apenas uma curiosidade em relação a esse filme, direciono a atenção de quem o assistir a dois nomes, talvez existam outros mais que não percebi no filme, mas enfim, os nomes são Jinroh e Kusanagi, nomes que pertencem, respectivamente, a um dos filmes anteriores de Mamoru Oshii, diretor desse filme também, e a personagem de Ghost In The Shell, Motoko Kusanagi, a Major. É um detalhe bobo, mas pode se revelar importante. Efetuar um paralelo e uma comparação entre as personagens que carregam o mesmo nome, ou mesmo entre os três filmes que aqui se conectam, pode render facilmente um artigo próprio ou uma tese, quem sabe. O que gostaria de destacar é que The Sky Crawlers parece, mesmo sem demonstrar isso explicitamente, fechar uma trilogia do diretor em questão.

 

 

A convergência dos temas que se desenvolvem em todas essas animações desembocam no oceano de vazio pleno que The Sky Crawlers nos apresenta. Em Jin-roh havia um mundo em convulsão, onde o estado e a sociedade estavam cindidos, em Ghost In The Shell é patente a separação filosófica e prática entre o ego e a corporeidade, e em The Sky Crawlers as duas coisas se misturam para dar voz a uma outra consequência, a determinação da ausência completa de significado junto à vida, ou mesmo junto a casca que nos reveste e chamamos de corpo. É o fundo do fundo do poço.

 

 

Jinroh, o personagem do filme, nem mais está presente, ele é um fantasma que vaga de corpo em corpo, ou seja, a cisão em sua completa expressão, onde nem mesmo “estado e sociedade” podem ser diferenciados, ou no caso, corpo e alma, e pior, essa ruptura é tão drástica que todo esse abismo é preenchido por um tabuleiro raso que enfileira peças e atores para representar a existência humana no mundo. Já Kusanagi, a única casca que pode ser entendida como tendo um filete de alma dentre os Kildren, se vê impotente e efêmera frente a sua própria impotência e efemeridade, ela se apresenta completamente paralisada e atônita com a dimensão irracional e intangível do mundo em que vive. Qualquer semelhança com a Motoko de GITS é mera possível leitura.

 

 

Essa é uma interpretação um tanto estranha sobre o filme, talvez inusitada, não posso negar, e claro que é apenas uma leitura dentre tantas outras possíveis e pertinentes, mas assim como percebi em Je T’aime, reafirmo aqui, Mamoru concretiza novamente o seu legado em se sentir dissolvido de qualquer real conexão para com o mundo, e novamente nos apresenta uma aporética realidade desprovida de qualquer redenção.

Hiperlink do vídeo onde aprofundo alguns outros pontos sobre o filme!!!

 

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