Semana passada terminamos a saga de sete Filmes de Kara no Kyoukai, pensei, ingenuamente, que os demais não seriam filmes importantes, mas, no caso, para além dos sete principais, existem mais 4 Ovas. Não sei qual a relevância dos demais que verei, mas o que apresentarei no decorrer desse artigo, é o OVA, ou filme, realmente não sei como categorizar, mais central e indispensável dentre todos os que compõem a adaptação da obra.

Sim, esse OVA é indispensável de ser visto, e ao mesmo tempo, é o mais denso e complexo de todos. O seu nome é Kara no Kyoukai 8: Shuushou. E como podem ver, segundo o Myanimelist, ele é considerado o oitavo filme do cânone, mesmo que a história tenha se finalizado em seu sétimo segmento.

 

 

Ele se passa pouco tempo após os eventos do sétimo, exatamente no mesmo período do ano e local em que Mikiya e Shiki se encontraram pela primeira vez. O seu conteúdo preenche pouco mais de 30 minutos corridos de animação, apresentando uma conversa extremamente profunda e reveladora entre Mikiya e Shiki.

A intimidade última do casal de Kara no Kyoukai, conduzida em um fluxo sonoro imersivo e intenso, perante uma paleta de cores inquietantes ante a uma noite de neve. O vento e as vozes dos personagens carregam o desfecho de todos os mistérios em relação a Shiki, a Mikiya, e até mesmo em relação a própria origem e fim do mundo.

 

 

Shiki, a personagem central desse oitavo OVA, não é nem a Shiki um e nem a Shiki dois, ela é, como assim a chamo, a Shiki zero. Sua natureza não é a mente, mas sim o corpo de Shiki, sua personalidade não é existente, mas sim um reflexo das formas emprestadas das experiências de suas sombras, as Shikis, sombras as quais ela mesmo criou, ofereceu nascimento, para lidar com o tédio da existência.

Shiki zero é um corpo criado, ao que podemos entender, artificialmente, ou mesmo como um milagre mágico que transpôs a própria forma da existência em uma forma específica, ela e não apenas semelhante, mas igual e a mesma, que a própria origem e fim de tudo. Ou seja, podemos entender Shiki zero como Deus.

 

 

Entretanto, Shiki zero é um conceito divino que não pode ser, que não pode ter, possuir ou existir sem se dissolver entre a sua própria natureza, sua natureza é tudo, sua natureza é nada, sua natureza é o vazio. Ela explica que pode, se assim o que quiser, criar qualquer coisa, assim como pode dissolver qualquer coisa. Mas que sua natureza é fluir, não ser ou imperar sobre o mundo. Ela não o enxerga, ela não interage com os sonhos ou efeitos, apenas interage consigo mesma, com seu princípio absoluto.

O maior dilema de Shiki zero, é que por capricho ela acabou sustentando uma existência através do corpo ao qual foi concebida, os detalhes de sua concepção não são revelados, é um mistério que apenas os Ryougi conhecem. Mas mesmo sem desejar existir, ela existiu, e se entediou, adentrou novamente dentro de si, e como corpo, como nada, vazio e origem, acabou não desaparecendo, e mesmo sem querer, criando uma sombra.

 

 

Essa sombra ganhou direção, essa sombra se segmentou em duas, uma é a Shiki um e a outra a Shiki dois. As duas Shikis subsequentes têm propriedades existências muito particulares, eles herdaram o equilíbrio de sua provedora. Shiki um a tudo aceita para não sofrer, Shiki dois a tudo nega para sofrer. As duas se complementam e coexistem em equilíbrio, mesmo que a natureza de ambas esteja em conflito constante com todas as formas, que para ambas, deveriam dissolver. Shiki um vira as costas para as formas, Shiki dois as encara de frente.

Shiki um e dois acabaram sendo afetadas por uma força distinta, pela força de Mikiya, o herdeiro do que podemos entender como amor pleno, aquele que nada deseja para si, mas que direciona tudo de si para o outro. Ele direciona tudo de si sem nada querer em troca, e isso afeta aquela que tudo aceita, e aquela que tudo rejeita, como resultado, Shiki dois rejeita a si mesma para que Shiki um possa ser abraçada por essa força extrema que Mikiya propaga.

 

 

A sutileza do poder de Mikiya é tamanha, que até mesmo a Shiki zero se surpreende, a solidão plena do nada se conecta com a solidão plena da generosidade absoluta. Ela não pode ser ou coexistir diretamente com Mikiya, não pode aceitar essa energia que significa a vida, mas ao mesmo tempo se deixa abraçar, deixa que essa energia abrace Shiki um, sua companheira de corpo, sua companheira de vazio, para que sua forma, enquanto definha, definha pelo doce calor do amor.

A sacada do OVA, para além de delimitar a natureza de Shiki zero e de Mikiya, é nos apresentar um sistema filosófico em sua integralidade. Podemos entender as forças da existência, a espiral da origem, como sendo aquilo que em tudo se transforma e nada é. Podemos entender o motivo de o nada só poder ser o nada, sonhar com o nada e desejar o nada, ao mesmo tempo em que cria tudo, olhando apenas para si. E o intenso processo resultante do nada, que olha apenas para o resultado do vazio, ou seja, o mundo. O conflito alegórico ao qual as Shikis, um e dois, representam, é o fato dual da aceitação e negação, sempre constante, à qual toda a criação está indissociavelmente implicada.

 

 

Ambas as Shikis não sabem de sua origem, não conhecem o seu corpo a partir de seu corpo, não acessam nem um milímetro do poder que possuem em relação a sua conexão e essência como origem da existência. Entretanto, quando ficam em estado de coma, acabam presenciando, encarando e despertando uma parcela ínfima desse poder, o poder dos olhos místicos que percebem as costuras da realidade.

A mente humana é uma sombra de seu corpo, assim como as Shikis são uma sombra da espiral da origem, o corpo é anacronicamente compreendido por uma perspectiva intelectual, e não sensível, e deixa de sentir a sua alma, ou a sua origem inicial, essa é a explicação para o fator personalidade que Shiki zero nos revela. O ponto singular, a anomalia no sistema, é o Mikiya, aquele que propositalmente e completamente, se rende ao outro, abandonando não apenas o seu intelecto, mas mesmo o seu corpo, em direção a completa anulação de seu ego. Se Shiki zero pode ser compreendida como o avatar do vazio e do nada, Mikiya pode ser compreendido como o avatar da luz e da vida. Uma nova dinâmica que reformula uma dualidade que nem sequer é possível, uma ilusão que realiza a magia que nem mesmo a espiral da origem pôde prever.

 

 

Quando a onisciência, onipotência e onipresença se rendem ao humano. Como é solitário.

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