O trauma do nascimento, em psicologia, se refere ao trauma pelo qual o bebê passa ao nascer. De uma vida intra-uterina plena e feliz (bom, nem sempre, acredita-se que fetos já possam sentir-se rejeitados por suas mães em alguns casos) o bebê é expulso pela mãe em uma operação demorada e de várias formas diferentes dolorosa. É a primeira vez que uma pessoa experimenta a ansiedade, sendo portando o protótipo do que será o sentimento de ansiedade daquela pessoa pelo resto da vista, e é a primeira vez que uma pessoa experimenta o medo da morte. Não vou entrar em detalhes porque sequer sei mais do que isso, mas se o tópico interessar sugiro que pesquise, psicologia é um tema fascinante. Procure por autores como o famoso Sigmund Freud, ou por Otto Rank, que foi discípulo do primeiro e discordou dele justamente por considerar que o trauma do nascimento era profundamente gravado na psiquê do bebê e que poderia reaparecer em problemas psicológicos durante o resto da vida. Especialmente, o estado catatônico da esquizofrenia foi considerado como um retorno simbólico à vida intra-uterina (isso provavelmente é uma bobagem pelo que se entende de neuroquímica hoje em dia, mas é um paralelo interessante e poderoso). E tudo isso para quê? Para destacar o quão importante é a mãe para uma pessoa (e sem apelar para as metáforas sexuais freudianas), e o quanto ser separado dela à força pode ser traumático e doloroso. Se não assistiu esse episódio ainda, essa é sua última chance de evitar spoilers. Continue por sua própria conta e risco.

Shinichi discute com Migi sobre o que a professora Ryouko disse

Shinichi discute com Migi sobre o que a professora Ryouko disse

Nesse episódio, Shinichi está preocupado com a afirmação da professora Ryouko segundo a qual ele não seria mais puro. Migi explica a ele que, uma vez que estão ligados através de nervos e fluidos, é sim possível que o cérebro de Shinichi sofra alterações. Em particular, é muito provável que ele sofra alterações psicológicas, o que faz muito sentido. Como bom adolescente imaturo e assustado com a mudança que é, Shinichi apenas nega. E o melhor argumento que encontra é que não sente vontade de matar e comer pessoas, o que é bastante irônico, dado que alguns episódios atrás, no caso do gato enterrado na areia, ele ameaçou um bando de pivetes justamente perguntando se eles queriam ser devorados. Mais irônico, contudo, é constatar que por ser ainda um adolescente, mudanças psicológicas são simplesmente inevitáveis, com Migi ou sem Migi ele passaria por uma dúzia delas antes de se tornar um adulto. Isso é apenas fato. E uma vez que ele iria passar por mudanças de um jeito ou de outro, é impossível atribuir as mudanças que ele passará (e que já está passando) ao Migi, porque não é demonstrável que ele não passaria exatamente pelas mesmas mudanças caso o Migi não existisse. Podemos acreditar, e eu certamente acredito, que seriam outras as mudanças, mas uma vez que a mudança é inevitável o problema óbvio não é a mudança em si, mas a mudança para melhor ou para pior, e como não sabemos que mudança Shinichi sofreria sem o Migi (porque isso nunca aconteceu) não é possível compará-la com a mudança que ele está sofrendo com o Migi para dizer se esta ou aquela são melhores.

Shinichi avista um bando de valentões espancando um colega de classe seu e tenta pará-los

Shinichi avista um bando de valentões espancando um colega de classe seu e tenta pará-los

Ainda assim, ele tenta provar a si mesmo que não mudou. Ele simplifica as ideias em sua cabeça e entende tudo errado, e supõe que uma mudança por causa de um parasita certamente o tornaria uma criatura mais próxima de um parasita, com todos os atributos negativos que ele próprio definiu serem característicos dos parasitas. Daí que ele se agarre a uma noção de “ser humano” como algo que o Migi, um parasita, não compreende: uma criatura capaz de altruísmo, ou seja, fazer por outros sem nada em troca e às vezes até mesmo perdendo algo no processo. Para provar para si mesmo que é “altruísta”, que segundo o Migi é uma característica “humana”, ele tenta salvar o colega de classe que noutro episódio havia socado ele só porque a Murano gosta do Shinichi, e que estava sendo espancado por um grupo de garotos de outra escola. É hipócrita esse “altruísmo” onde ele não estava ali pelo colega, mas para provar algo para si mesmo. Mas tudo bem, eu pessoalmente não me importo com isso, sou um homem de resultados e acho que o resultado aqui foi positivo para outra pessoa, então Shinichi merece sim os elogios que recebe no final. Ele nem tentou lutar, tomou uns socos também, mas ele e seu colega foram poupados por uma nova personagem que surgiu (Kana), aluna do outro colégio e que apelou para que os valentões parassem.

Shinichi apanha tentando salvar o colega

Shinichi apanha tentando salvar o colega

Mais tarde os valentões pegariam Murano e Shinichi na volta da escola, e Shinichi novamente tentaria salvar alguém. Dessa vez, contudo, ele realmente queria salvá-la. Era apenas impossível que ele, sozinho e fraco, lutasse contra outros quatro experientes brigões de rua de outro colégio. Migi está desperto dessa vez e diz ao Shinichi como não faz o menor sentido ele continuar lutando porque ele não tem a menor chance, e Shinichi responde dizendo que, às vezes, um ser humano simplesmente precisa lutar. Migi não discute mais e até colabora com Shinichi, dando a ele a sensibilidade extra que ele pediu sobre a mão direita. E assim que Shinichi fica nervoso para valer, seus dedos se transformam em lâminas (por sorte, ninguém notou). Shinichi acredita que foi coisa do Migi, mas eu acredito, sinceramente, que foi o próprio Shinichi quem fez aquilo. Sim, ele está mudando. Nesse momento Kana chegou junto com os valentões do colégio do Shinichi, e ele não precisou mais se preocupar com nada. Murano ficou positivamente impressionada com Shinichi, rolou uma cena mais romântica entre os dois (e uma tensão sexual forte quando ele não pôde evitar olhar para as pernas da garota e sugerir que ela ficasse mais tempo na casa dele), mas nada demais. A Kana apareceu uma vez mais e está convicta de que há algo diferente em Shinichi, e Migi o alerta que ela tem uma percepção sobre-humana e portanto deveria ser evitada. Com efeito, na primeira vez que ela o encarou, ainda quando ele tentava proteger seu colega de classe, ela tomou um enorme susto depois de olhá-lo muito tempo nos olhos. Desde então está interessada nele por algum motivo, e nesse último encontro ela pegou sua mão direita e a ficou sentindo por muito tempo. Mas nada que tenha consequência por enquanto.

O último suspiro da mãe de Shinichi

O último suspiro da mãe de Shinichi

O desenvolvimento mais importante do episódio, e que motivou o título e o primeiro parágrafo, trata, como não poderia deixar de ser, da mãe do Shinichi. Um parasita qualquer se acidentou em uma estrada e seu hospedeiro, uma mulher, foi mortalmente ferido. Ele rapidamente realocou-se para o homem que a acompanhava, mas não conseguiu se adaptar ao corpo e então, para sobreviver, procurou uma mulher. Para o azar de Shinichi, de sua família, de todos nós espectadores que gostávamos dela, calhou de a primeira mulher a ser encontrada nesse lugar improvável ser, bem, a mãe de Shinichi. Seu pai foi muito ferido também, mas ele conseguiu fugir e telefonar para o Shinichi antes de desmaiar em uma cabine telefônica, e no momento não é possível saber se sobreviveu ou não. E apenas por não ser possível saber ainda, aposto que ele está vivo e que seu papel daqui por diante terá grande importância na história. Veremos. Shinichi não conseguiu dormir direito após a ligação do pai e passa a noite esperando que ele ligue novamente, na mesa de jantar. Ele acorda compreensivelmente preocupado com a mãe e compreensivelmente procurando colocar a culpa pelo que quer que possa ter acontecido no Migi.

A cara de Shinichi quando vê sua mãe. Surpresa

A cara de Shinichi quando vê sua mãe. Surpresa

Mas não importa o quanto estejamos fisicamente preparados para o nascimento, nunca estamos psicologicamente preparados para ele. Nunca estamos preparados para sermos expulsos pelas nossas próprias mães, nunca estamos preparados para buscar abrigo e segurança por nós mesmos ao invés de dependermos de nossas mães. Nesse ponto é interessante apontar que Migi e os parasitas não têm uma mãe, uma figura materna ou qualquer coisa que sequer remotamente se assemelhe a isso. Eles apenas surgem para o mundo e devem desde o primeiro instante lutarem sozinhos por sua própria sobrevivência. Nisso, a comparação que o Shinichi já fez entre eles e insetos faz bastante sentido. Enfim, Shinichi, eu e você, não estávamos preparados psicologicamente para nascermos. E Shinichi jamais poderia estar psicologicamente preparado para o que ele veria e sofreria a seguir, por mais óbvio que possa ter sido aos olhos do Migi ou mesmo de nós, espectadores. Migi detectou um parasita se aproximando. Quando ele entra em casa, Shinichi vê sua mãe.

A cara de Shinichi quando vê sua mãe. Negação

A cara de Shinichi quando vê sua mãe. Negação

Nós já sabíamos porque vimos (quantos espectadores não ficariam torcendo até o último segundo para que ela estivesse bem, contra todas as evidências, se não tivessem visto a cena em que ela morreu? Acho que eu seria um deles), e o Migi já sabia porque ele sempre trata das coisas como elas são, e seus sentidos lhe diziam isso então não poderia ser outra coisa. Shinichi deveria saber também, mas ele não aceitou. Quando o parasita não se assustou com Migi na mão de Shinichi, ele não aceitou. Quando o parasita se referiu ao pai de Shinichi dizendo que precisava se certificar de ter matado “o homem”, ele não aceitou. Quando o parasita se dirigiu ao Migi, falando sobre sua má sorte de ter ficado na mão ao invés da cabeça e portanto ainda estar sujeito a um ser humano, ele não aceitou. Quando está para nascer, o bebê não sabe que vai nascer. Ele vira de ponta cabeça, ele sente as contrações, mas ele não sabe o que está acontecendo. Com Shinichi foi a mesma coisa. Seu mundo virou de ponta-cabeça, ele viu tudo acontecer, mas não sabia o que estava acontecendo. E ele nasceu de novo quando foi perfurado pelo parasita que um dia foi sua mãe. E ele chorou. O que será que Shinichi vai ser quando ele crescer?

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