No meu artigo sobre o episódio anterior falei que o Shinichi estava parecendo menos humano, que estava perdendo a empatia por outras pessoas. Já lá no meu artigo sobre o terceiro episódio falei que Migi, o parasita, não tinha existência própria. Ele apenas representaria a mudança (ou o medo dela) para Shinichi. Se eu errei (e errei bastante) minhas previsões para o enredo de Kiseijuu, pelo menos no plano simbólico tudo o que eu disse continua não só fazendo sentido como está evoluindo e reafirmando minhas interpretações anteriores (que não são só minhas, de todo modo). E onde esse episódio, mera conclusão do episódio anterior, entra nisso?

Mamoru Uda é como Shinichi, seu parasita não se alojou no cérebro, então eles vivem em simbiose

Mamoru Uda é como Shinichi, seu parasita não se alojou no cérebro, então eles vivem em simbiose

Nesse episódio Shinichi conhece Mamoru Uda, que como ele, tem um parasita coabitando seu corpo mas não em seu cérebro. Eu não sei porque Shinichi antes tinha tanta certeza que era o único de seu tipo no mundo, mas finalmente ele descobriu que estava errado. Estatisticamente devem existir muitos assim. Se vão aparecer na história eu não sei, mas o Shinichi pensar nisso antes desse episódio era uma dica (que eu não captei) de que pelo menos um apareceria, e Uda apareceu. Eles conversam sobre suas circunstâncias, e no caso de Uda, ele estava à beira de um penhasco onde instantes antes desistira de se suicidar quando foi atacado por uma larva recém saída de um esporo (pelo lugar remoto onde o esporo estava, imagino que eles permaneçam sem romper até que um alvo em potencial surja, preservando a larva o maior tempo possível). Com o susto, ele caiu no mar antes que a larva pudesse chegar ao seu cérebro. Ao perceber que o humano que havia infectado estava morrendo afogado e julgando que não haveria tempo de chegar até o cérebro, o parasita infectou onde estava mesmo, que era algum lugar entre a parte inferior do rosto e o pescoço. Assim ele salvou Uda, a si mesmo, e como Migi, garantiu que jamais chegaria ao cérebro.

Maki encontra Shinichi na ponte

Maki encontra Shinichi na ponte

Um paralelo importante traçado propositalmente por Kiseijuu entre Uda e Shinichi é que um é adulto, fracassado, simplório, fraco, enquanto o outro é jovem, inteligente e forte (não dá para falar ainda em “sucesso” ou “fracasso” do protagonista em uma história dessa natureza). Uda é uma boa pessoa, Shinichi reconhece isso e fica honestamente feliz de conhecê-lo, mas em certa medida ele é tudo o que Shinichi não quer ser. Até seus parasitas refletem esse contraste: Parasita (esse é o nome do parasita de Uda; até no nome eles são uma dupla simplória) parece muito menos inteligente que Migi, e da aparência ao modo de falar ambos são muito diferentes e suas diferenças refletem esse contraste. Ainda assim, Shinichi está feliz por ter conhecido alguém semelhante a ele, e Uda se comove com a história de Shinichi e se compromete a ajudá-lo (e sem ter de escutar protestos de seu parasita por causa disso).

Maki está preocupada com Shinichi

Maki está preocupada com Shinichi

Assim é feito, e eles de fato derrotam o parasita que infectara a mãe de Shinichi, cujo corpo finalmente caiu sem vida no mar. Apesar da vitória, ninguém comemorou. Depois de uma despedida em grande medida fria de Maki, a garota que se apaixonou por Shinichi no episódio anterior, Shinichi tem uma breve conversa com seu pai sobre os momentos finais de sua mãe e desmaia. Esse desmaio é o ponto de inflexão na mudança de Shinichi. Na última cena do episódio ele já está de volta a sua cidade e, para espanto de Murano, completamente mudado. Desde o episódio anterior eu dizia que após a operação para salvar sua vida Migi estava mais humano, e Shinichi mais parasita. Além de força e habilidades sobre-humanas, era notável como Shinichi, o mesmo que havia literalmente dado a cara à tapas por um colega de classe, parecia sentir muito menos empatia por outras pessoas (a Maki, enquanto personagem, serviu para vermos esse aspecto da transformação de Shinichi). E agora ele parece ainda mais mudado, com ainda menos empatia.

O rapaz encurrala a própria mãe no chão, depois de atingí-la várias vezes e cortar fora alguns de seus tentáculos

O rapaz encurrala a própria mãe no chão, depois de atingí-la várias vezes e cortar fora alguns de seus tentáculos

A garota de quem Shinichi gosta, e que gosta de Shinichi, corre para cumprimentá-lo depois de um longo período sem que se vejam, durante o qual ela certamente ficou morrendo de preocupação e ele sabe disso, e a primeira reação dele é comprimentá-la com um “e aí” sorridente sim, mas um sorriso estranho em um rosto com uma expressão despreocupada e distante. Kana, que estava por perto, deve ter percebido essa mudança à dezenas de metros. O fato é que Shinichi, como todo adolescente, tinha medo de se tornar um adulto. Ou melhor falando, tinha medo de se tornar o que ele achava que era um adulto. Mas as circunstâncias falaram mais alto, e após um trauma violento, ele se sentiu obrigado a amadurecer de uma vez só. O problema é que amadurecimento foi esse.

Shinichi e o pai conversam ao pôr do sol depois dele receber alta do hospital

Shinichi e o pai conversam ao pôr do sol depois dele receber alta do hospital

Se já estabeleci que o medo de Shinichi era o que ele imaginava ser um adulto, se ele não teve tempo para refletir e formar a sua própria imagem do que ele pretendia ser quando adulto e se sentiu bruscamente forçado a se tornar um, então acho seguro afirmar que ele se transformou exatamente nessa imagem distorcida que ele tinha. Se ele pensava que adultos são egoístas cínicos sem coração, creio ter sido exatamente nisso que ele se tornou. Por que seria diferente? A diminuição da empatia notada no episódio anterior foi o primeiro sinal disso. Agora ele é alguém que se preocupa com a aparência e que se mantém distante das outras pessoas. Não evita o contato nem tem raiva de ninguém, apenas pensa em si antes de qualquer outra pessoa e enxerga as outras pessoas em termos de como elas podem ser úteis para ele. Estou exagerando a partir de uma única cena? Talvez. Mas faço isso apenas extrapolando o estereótipo que ele construiu nesses dois últimos episódios, considerando a forma de pensar de Migi, já que o parasita representaria simbolicamente a visão de Shinichi de um adulto e o arquétipo em que se encaixa a expressão do Shinichi na última cena. Posso estar errado em alguns pontos, mas aposto que estou certo em linhas gerais. Se não estiver, ou sou muito burro ou Kiseijuu fez um trabalho ruim de desenvolvimento de personagem, hehe.

Shinichi desmaia após ouvir sobre os últimos momentos de sua mãe

Shinichi desmaia após ouvir sobre os últimos momentos de sua mãe

Imagino que de agora em diante a história vá gastar um tempo detalhando esse novo Shinichi antes que eu possa fazer novas previsões sobre o enredo. Mas se eu sempre faço mesmo correndo o risco de errar, e mesmo errando continuo fazendo, por que deixaria de fazer algumas agora? Creio que veremos mais sobre o novo Shinichi, que irá conflitar necessariamente com Murano (e a Kana deve auxiliar essa linha do enredo; para a Murano seria muito fácil desistir, mas e se houver alguém como Kana a incentivando nem que seja através da concorrência?), novos personagens devem surgir, principalmente novos parasitas com mentalidades e comportamentos diferentes dos que vimos até agora (os adultos não são todos iguais), a professora Ryouko só deve reaparecer quando seu bebê tiver nascido (ou seja, meses adiante, deve demorar ainda), por um tempo acredito que Shinichi será um tipo de caçador de parasitas (e achará que matar parasitas o torna a melhor pessoa do mundo, afinal, está garantindo a vida de todos! Quem ousaria criticá-lo por coisas menores quando o mais importante Shinichi já estaria arriscando a própria vida para garantir, sem cobrar nada em troca?), mas o enredo principal continua sendo, afinal de contas, o amadurecimento de Shinichi. Em algum momento ele terá que perceber que deixou de ser humano, que aquilo que ele se tornou não é um adulto, que na verdade não existe um “protótipo de adulto”, que é a ele quem cabe construir a pessoa que ele quer ser, e, talvez mais importante, que ele não precisa abandonar nada do que ele é, do que ele tem ou em que ele acredita para isso.

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