Yuu faz uma jornada até a porta do inferno mas é resgatado antes de atravessar. Ele esteve sob controle desde que entrou no colégio Hoshinoume, mas nunca deixou de ser a pessoa horrível do primeiro episódio. Talvez eu esteja sendo severo demais com ele, não sei ainda se o acho uma má pessoa ou se ele apenas é imaturo demais e tende a tomar decisões péssimas quando deixado à própria sorte (antes de ser abordado pela Tomori, ele descobriu seus poderes sozinho e assim sozinho decidiu o uso que daria a eles). Sendo Charlotte um anime adolescente, tendo a acreditar na rota da imaturidade. Já a Tomori … ah, a Tomori é bastante diferente.

Começo com minha avaliação final: esse foi um episódio muito bom, talvez o melhor de Charlotte até agora, mas ele pecou em algumas coisas (falarei delas nesse artigo) e por enquanto não parece que a série tenha mudado por causa do arco que ele encerrou. Claro, a Ayumi morreu. O Yuu sofreu com isso, e no próximo episódio está de volta ao colégio e ao conselho estudantil. Para quê? O que mudou lá? O que mudou com ele? O que vai mudar na história? Muito pode mudar a partir do próximo episódio, é evidente, mas até agora não há sequer pista disso. Agora o episódio.

O Yuu foi mesmo atingido por destroços e foi parar no hospital, onde acordou dias depois. Uma vez desperto, ele descobre a verdade desesperadora: a Ayumi morreu. Minha primeira reação, já que tinha ainda alguma esperança que ela tivesse sobrevivido (e acho que a chance ainda exista, mas não aposto nela), foi de incômodo pelo anime revelar isso de forma tão seca, tão rápida. Mas entendi depois que foi proposital, intencional, para que eu me sentisse mais ou menos como o Yuu – com a esperança arrancada toda de uma vez só. Triste e cruel assim. Funcionou e não foi só pelo fator de choque, já que sem isso ficaria menos crível a espiral decadente do protagonista em seguida. E é aí que tenho que recordar do Yuu do primeiro episódio: uma pessoa egoísta e que usa os outros para seu próprio benefício. Ele não feria pessoas pelo prazer de machucá-las, mas ele poderia ter matado o motorista daquele caminhão e a própria garota que ele queria impressionar. Desde o começo, a única pessoa com quem ele agiu genuinamente com cuidado, com preocupação, com altruísmo, foi a Ayumi. Isso era tão natural para ele que nem percebia o que fazia por ela, e essa foi uma das razões dele ter ficado tão psicologicamente destruído nesse episódio: Yuu sentia culpa. Não só culpa pelo que matou a Ayumi no fim das contas, mas culpa por achar que nunca havia feito nada por ela. Tenho certeza que a Ayumi discorda dele. Eu cheguei a apontar em um artigo como, apesar de odiar, ele se forçava a continuar comendo (ou fingindo comer, pelo menos) os pratos feitos pela irmã e que ele detestava. Se isso não era amor, se isso não mostra o quanto ele se importava e por isso queria agradá-la, eu não sei o que poderia ser.

Desesperado com a dor da perda e esmagado pelo peso de sentir-se culpado pela morte da irmã e por achar que nunca fez nada por ela, Yuu se isolou, compreensivelmente. E sozinho, se odiando, ele primeiro passou a desprezar a si próprio. O passo seguinte foi desprezar todo o resto do mundo e voltar ao estágio de selvageria que ele já havia demonstrado ser capaz no começo da série. A diferença é que naquela altura ele tinha um lugar, alguém para voltar, e essa sua âncora o mantinha em cheque na medida do possível. Agora que nem isso ele tinha mais, pôde experimentar novas formas de depravação que ele nem seria capaz de sonhar antes. Não tomou nenhuma decisão nesse sentido, apenas deixou-se levar pelos seus piores instintos e pelas circunstâncias, que os guiaram através de uma via expressa para a perdição. Antes, porém, que ele atravessasse a fronteira proibida, aquela da qual não poderia voltar mais, Tomori interviu, como um anjo da guarda mutante. Um comentário lateral: sim, no Japão usar drogas é assim horrível, pior do que se meter em brigas de rua. Não precisa aceitar isso, apenas entenda que é assim e o público-alvo do anime, os japoneses, compreendem isso de forma visceral. É uma cena que não funciona tão bem para nós (tipo, sério que cheirar o que quer que fosse aquilo é pior que perfurar pessoas com palitos de dango?), mas para os japoneses funciona maravilhosamente bem – ponto para Charlotte.

Tomori revelou ter estado ao lado do Yuu esse tempo todo, e isso foi tão dramaticamente bonito e cheio de significado que eu até faço vista grossa para os vários furos de enredo que possa ter causado (lembre-se que ela só fica invisível para uma pessoa por vez, todos os demais necessariamente a estão vendo). Me fez mudar de opinião sobre seu personagem. Agora eu realmente acho que ela é sempre bem intencionada, sendo apenas mal compreendida na maior parte do tempo. Como aliás o próprio Yuu fez nesse mesmo episódio. Ele estava tão fundo, tão distante da luz, que rechaçou a Tomori. Sem nenhum ressentimento ela estendeu a mão pare ele e conseguiu alcançá-lo. Conseguiu salvá-lo. Agora, não é só porque ela seguiu ele feito uma stalker que eu acredito nela. É porque isso combina com a personalidade dela. Quando os demais membros do conselho foram visitar o Yuu em seu apartamento mas ela não, na hora eu pensei “faz sentido, eu não esperava mesmo vê-la aqui”. Então tudo se encaixou no fim das contas de forma magnífica.

Mas não foi perfeito. Primeiro, um episódio só para essa queda e redenção não pareceu pouco? Claro que o anime é curto, mas até mesmo por causa disso. Como eu já perguntei parágrafos acima, o Yuu voltou, e daí? Para onde a história pode ir? Para onde parece que ela vai? Mas o maior incômodo mesmo foi terem estragado a melhor cena de todo o episódio. A Tomori prepara comida para o Yuu, é um segredo e ela quer, sabe-se muito bem, trazê-lo de volta. Era óbvio o que ela iria preparar. Mesmo se não fosse óbvio, mesmo para quem não percebeu no ato o que ela ia fazer, teria sido compreensível e impactante o bastante se não tivessem menosprezado o expectador. Se não tivessem enxertado ali um flashback, se não tivessem feito o Yuu escutar a voz da irmã. O silêncio misterioso teria feito maravilhas por aquela cena que esses mnemônicos pedantes destruíram.

Quanto à Ayumi, infelizmente morreu, e eu acho que permanecerá assim. Será que ela pode possuir a Yusa? Seria um bom prêmio de consolação, hehe, mas tenho a impressão que ela só consegue receber a alma da irmã (sem nem escolher quando). Se você acha isso muito triste, depressivo, se continua chorando as Cataratas do Iguaçu cada vez que se lembra, não vou ser cruel com você: há uma esperança. Eu tenho a hipótese (meio óbvia até, dizer “eu tenho” faz eu me sentir um pouco arrogante) de que ela possa estar viva capturada por alguém, em algum lugar. Provavelmente nem a Tomori sabe mesmo – ou sabe, mas foi obrigada a ficar de boca fechada para salvar o Yuu ou algum outro motivo forte. Eu, pessoalmente, não acredito nisso, mas acho que é possível. Se a perda da Ayumi for demais para você, agarre-se a essa esperança. Não esqueça que é só um anime, não coma apenas miojo, não se entregue ao vício do jogo ou das drogas, e principalmente, se sentir que o desespero é grande e que pode não conseguir evitar se descontrolar, evite comer dango, churrasco de rua ou qualquer comida em palitos pontudos.

  1. Também achei esse o melhor episódio até agora. Já a parte das drogas eu acho que não é terrível só para o povo japonês, mas no geral mesmo. Drogas são o fundo do poço, já perdi amigos por causa de drogas.
    Já a tomori estar do lado dele o tempo todo não foi nenhuma surpresa. Daria pra saber que ela seria a primeira pessoa a ir atrás dele, então quando aparece a garota do primeiro EP que nem gosta dele de verdade da pra suspeitar um pouco que a tomori já tinha feito algo por ele ou estaria ali.
    Não sei que rumo o anime vai tomar, mas espero que conte um pouco do porque a tomori apanhou pras garotas atrás da escola…
    Charlotte é meu anime favorito da temporada e espero que seja um anime tão foda quanto Angel Beats 😀

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Não tenho experiência com animes anteriores do Jun Maeda, mas conheço a fama. Eu imaginei que a Tomori fosse tirar ele do abismo, só não pensei que fosse tão rápido nem daquele jeito. Também estou curioso para saber porque ela apanhou – deve ser algo simples-mas-complicado, já que o velocista do conselho estudantil sabe mas preferiu não contar.

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