Quanto vale a sua vida?
Essa não é exatamente uma pergunta que a gente se faça normalmente. Também não costumamos nos perguntar quanto a vida de outras pessoas vale para nós, mas via de regra: quanto mais próximos de nós, mais damos valor às pessoas. Quanto mais distantes, menos. Nós crescemos aprendendo que devemos fazer o que é certo e que o bem coletivo deve sempre vir antes da individualidade, mas o egoísmo, o apego às pessoas e coisas e a nossa dificuldade em trabalhar e aceitar mudanças normalmente nos joga em direção à escolha que não é justa ou certa. E se mesmo super heróis vivem esses dilemas, que expectativa temos nós, reles mortais de moral questionável?

O episódio começa com Jigen fugindo de um inimigo que não aparece em tela até que seja tarde demais para nosso querido franco-atirador. Numa (esperada) virada de mesa, o agente do MI6 que ajudou Lupin em seu trabalho passado (no episódio 02, que você pode ler a respeito aqui) aponta uma arma contra Jigen e o homem, em seu último suspiro antes de ser rendido inconsciente, avisa Lupin: É uma cilada Bino Lupin! Já o melhor ladrão do mundo estava casualmente roubando o fragmento do colar usado por Maria Antonieta, datado da Revolução Francesa. Enquanto isso, a Sra. Lupin, Rebecca, recebe uma mensagem de seu marido em seu escritório e parece contente em ver que Lupin ainda pensa nela.

Jigen (que só está se fodendo até agora) desperta preso a uma parede num lugar estranho e antes que pensemos que isso se trata de um ritual de crucificação bizarro, os agentes do MI6 nos tranquilizam mostrando que é só tortura mesmo. Eles questionam as intenções de Jigen na cidade e querem saber qual é o envolvimento dele no atual esquema de Lupin, mas o homem se recusa à responder. Ele jamais trairia a confiança de seu amigo! Graças à Fujiko, porém, o MI6 já sabe que Lupin pretende roubar o fragmento de colar e é apenas questão de tempo até que eles capturem o ladrão (ela parece surpresa por Lupin ter aceitado seu pedido para lhe trazer o fragmento de colar). Mesmo assim, o homem está resoluto e suporta a tortura que lhe é imposta em nome de sua amizade. Bromances assim me emocionam pra caralho.

Enquanto isso, Rebecca recebe o Príncipe da Inglaterra em seu hotel (Lembra que ela era praticamente o Batman em questão de habilidades e recursos financeiros? Então) e insiste para que ele tome uns bons drinks com ela, mesmo com sua agenda cheia de compromissos. Ele aceita, incapaz de dizer não para a jovem bilionária (mesmo a contragosto de seus seguranças e assistente pessoal). Lupin, por sua vez, já com o fragmento do colar e mãos, foge através dos esgotos da cidade, saindo por um alçapão numa pequena igreja. Mas o inimigo agora é a Agência de Inteligêcia Britânica e eles mostram à que vieram: Lupin é encurralado por Nix (o agente que ele venceu no xadrez no episódio 2) diversas vezes e diversas vezes escapa por um triz, até perceber como o homem consegue localizá-lo tão facilmente. Quando Nix acha que tem Lupin em xeque, ele percebe que foi passado pra trás pelo ladrão e ele parece satisfeito por ter recebido um desafio à altura.

Lupin encontra o lugar onde Jigen é mantido preso e nocauteia facilmente o agente encarregado de vigiá-lo, partindo para libertar seu amigo quando Nix aparece. O homem exige que Lupin lhe devolva o fragmento de colar, mas o ladrão se nega: aquele é um presente para a mulher que ele ama e ele está disposto a dar sua vida para satisfazer os desejos dela. Já que ele vai morrer pelo fragmento de colar, ele pede um cigarro como o último desejo de um homem condenado e Nix acaba permitindo. E eis que o agente recebe uma mensagem de seu chefe, dizendo-lhe que o Príncipe da Inglaterra está em perigo e que ele deve largar sua missão imediatamente para priorizar a vida de vossa Alteza. Nix parte e Lupin permanece impune.

No final, vemos que Lupin tinha armado uma pegadinha contra o Príncipe da Inglaterra, contando que sua “ameaça” contra a vida de vossa Alteza fosse o bastante para motivar uma resposta de Rebecca, de querer vencê-lo em seu próprio jogo. Isso cria a abertura que Lupin precisava para roubar o fragmento de colar em relativa segurança para Fujiko, que ainda não acredita em quão intrincado e arriscado seu plano era.

O romance de cavalaria dita que o herói deve estar disposto à dar sua vida para a donzela que ele ama, não importa a situação, e é categórico: a vida ou morte do cavaleiro reside nos caprichos de uma moça que pouco sabe o que é a vida fora dos muros de seu castelo. Lupin se coloca na mira de uma arma por um artefato histórico, mas que ele pretendia dar de presente para Fujiko. Ele tinha um plano para assegurar que o tiro de Nix contra ele jamais fosse disparado, mas era um plano cheio de variáveis e isso não muda o fato de que ele se arrisca por um objeto. Um objeto de valor inestimável, sim, mas ainda um objeto.

Já Jigen arrisca sua vida em nome da amizade que tem com Lupin. E isso é bem mais do que medo da máxima de que X9 morre cedo na quebrada. Guardar o segredo de um amigo, seja um plano para roubar joias ou confissões pessoais, é mais importante do que sua integridade física e potencial sobrevivência. Essa amizade é testada cada vez que o franco-atirador arrisca o pescoço para ajudar Lupin em seus planos mirabolantes (mas que pelo menos dão certo) (#FikDikCebolinha)., mas Jigen parece satisfeito com a forma como as coisas funcionam.

Rebecca é arrogante. Quando Lupin lhe envia uma carta ameaçando tirar a vida do Príncipe da Inglaterra em seu hotel, ela decide que vai arriscar a vida de vossa Alteza numa disputa de habilidade e poder contra o melhor ladrão do mundo. Tão inconsequente e tão cheia de si que ela nem considera que pode estar sendo usada num plano. Para Nix, a vida de qualquer pessoa vale menos do que suas ordens. Seu dever como agente e seu dever para com a Coroa Britânica são absolutos e se ele precisar matar para fazer valer a vontade do MI6, que assim seja.

Mas o Lupin e Jigen não pensam que, para sua amada e seus amigos, sua vida provavelmente é mais valiosa do que um objeto ou um segredo. E Rebecca e Nix perdem de vista que pessoas não são objetos a serem usados ou obstáculos a serem superados. A forma como eles tratam vidas, as suas e a dos outros, diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. E, longe de querer transformar isso num juízo de valor porco, acredito que todos esses personagens poderiam aprender mais sobre o caminho do meio: Nem tanto o altruísmo estúpido, nem tanto o egoísmo cego.

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