Demorei para escrever sobre BokuMachi. Desde antes de começar a temporada, só pela sinopse e trailers eu já estava praticamente convencido não apenas a assistir, como a escrever sobre esse anime. Não é apenas coincidência que ele esteja no meu primeiro artigo de primeiras impressões da temporada. Quero dizer, ok, ele foi um dos primeiros a ir ao ar, então isso já seria natural de todo modo, mas é um anime sobre o qual eu estava tão ansioso que teria alegremente deixado para trás eventuais estreias anteriores para escrever sobre ele.

Só outros dois animes gozavam da mesma condição: Rakugo Shinjuu, que foi ao ar praticamente ao mesmo tempo e também está lá no meu primeiro artigo da temporada, e Ajin, que foi uma das últimas estreias, tendo ido ao ar há poucos dias. Vou escrever sobre Rakugo Shinjuu semanalmente também, mas pode ter certeza que não é à toa que tenha escolhido escrever primeiro sobre BokuMachi. E sobre Ajin ainda estou pensando. Às vezes eu embarco no trem do hype também, e fico feliz quando o anime corresponde à expectativa. Boku Dake ga Inai Machi está correspondendo às suas expectativas também?

Esse episódio foi para o tempo passado mais ou menos o que o primeiro episódio foi para o tempo presente. O cenário e seus personagens foram apresentados, foi dada a partida na história, e é isso aí. Como quase tudo havia sido contado já no episódio anterior esse quase não tem revelações novas importantes sobre o enredo. Conheci um pouco mais da vida do pequeno Satoru, descobri que ele vivia apenas com sua mãe mas não parecia se importar com isso (será que não?), e conheci seus amigos de escola, um bando de crianças que se comportam como crianças. O Kenya se destaca por ser bastante astuto para a idade e um pouco mais maduro, mas no fundo ainda é só uma criança. A revelação imediatamente importante é que Kayo, a garotinha cuja morte seguiria atormentando Satoru décadas no futuro, é vítima de violência doméstica.

Não há muito o que especular sobre isso. Ela parece uma criança traumatizada normal, até onde se pode usar a palavra “normal” para crianças nessa situação. Não socializa com outras crianças, tem dificuldades para confiar em outras pessoas, acredita ser um estorvo e tenta desesperadamente procurar ajuda de forma indireta. Em situações reais costuma ser assim principalmente por medo de represálias, mas no caso da Kayo pareceu um pouco com pura desesperança…? Bom, isso é só especulação minha e é preciso conhecer mais sobre a garota para tirar qualquer conclusão. Satoru teve sucesso em se aproximar dela e Kayo demonstrou genuinamente querer (e necessitar) contato humano, ao contrário do que seu comportamento anti-social poderia dar a entender (e dá a entender a todas as outras crianças, talvez com exceção do Kenya).

Satoru, que agora é um homem de 29 anos preso no corpo de uma criança de 10 que conhece o futuro, demonstrou um desenvolvimento muito interessante no episódio. Ele se sentiu feliz não apenas por rever sua mãe viva, mas por simplesmente poder viver com ela de novo, sob seus cuidados e carinhos. A cena em que ele chora de gratidão e se pergunta se valorizou isso como deveria quando tinha aquela idade é uma das mais tocantes do episódio, e se ele tem uma mensagem é essa: você valoriza o que os outros fazem e fizeram por você? Às vezes nos acostumamos tanto que façam as coisas por nós que as damos por garantidas e esquecemos completamente de quem se esforça para tornar tudo isso possível.

Mas voltando ao homem-em-corpo-de-criança, é muito interessante observar como Satoru está aprendendo a lidar com tudo. Certamente ele não pode dizer para sua mãe (ou para qualquer pessoa) que ele na verdade veio do futuro para evitar uma tragédia. Ele é Satoru e isso é BokuMachi, isso só funcionaria se ele fosse Trunks e o anime se chamasse Dragon Ball – e mesmo nesse caso é fácil argumentar que só funcionou porque o filho do Vegeta voltou fisicamente no tempo (no melhor estilo Exterminador do Futuro), não apenas sua mente. Para todos os efeitos ele é uma criança de 10 anos de idade e é com essa severa limitação que ele terá que realizar sua investigação e resolver o mistério, desbaratando o plano do assassino. Provavelmente a essa altura ele acredite que possa resolver tudo apenas se tornando amigo da Kayo e assim impedindo-a de voltar sozinha àquele parque e ser assassinada, mas eu e você sabemos que não pode ser tão simples assim, não é? A propósito: Se for para apostar, acredito que a mãe violenta da Kayo a proíba e impeça de ir ao aniversário do seu novo amigo. Talvez ela até morra e ele acabe voltando no tempo de novo mais algumas vezes. De longe, o mais interessante é como quando o Satoru fala sem pensar muito e a voz da criança sai junto com a voz do adulto. Uma forma incrível de mostrar que, quando criança, ele não é ele, ele está atuando (como a Kayo também percebeu!), mas às vezes deixa a máscara cair.

Tudo isso que escrevi (e poderia escrever mais) foram coisas que consegui pensar de forma mais ou menos lógica durante e principalmente após assistir o episódio. O que me prendeu nele, contudo, foi o clima criado: sei muito bem que um assassinato está para acontecer, o Satoru sabe disso e tenta se aproximar da vítima, apenas para descobrir que não vai ser tão fácil quanto ele acreditava que teria sido quando tinha 29 anos (“se eu tivesse chamado-a para irmos para casa juntos naquela noite”). As cenas, o formato cinema com as barras pretas em cima e embaixo da tela, a constante narração do Satoru de 29 anos me lembrando o tempo todo que ele está em parte pelo menos assistindo a tudo aquilo, tanto quanto eu, ao invés de estar apenas vivendo, e provavelmente outras coisas que um leigo em cinema como eu não saberia apontar, fizeram o episódio inteiro ter uma carga de suspense enorme. Eu estava procurando o assassino por toda parte, em cada canto de tela, em cada fala de personagem. Quando a câmera acompanhou o professor e deu um close-up em seu rosto, para logo em seguida se afastar conforme ele mandava o Satoru se sentar, logo pensei “é ele o assassino!”. Assim, sem fundamento nenhum. Bom, está cedo demais para tentar adivinhar o assassino, mas não descarto o professor não; escolas devem detectar os sinais de que uma criança está sofrendo maus-tratos, e ele é o professor da sala dela. Não leu o texto dramático que ela escreveu? E isso explicaria porque a mãe do Satoru teve a sensação de se lembrar do rosto do assassino. Mas a essa altura isso é só conjectura, ele pode muito bem ser apenas um professor negligente mesmo.

Fala sério, esse professor é assustador pra caramba

Fala sério, esse professor é assustador pra caramba

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