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Nesse episódio descobri as circunstâncias exatas da promessa entre Yakumo e Sukeroku, bem como detalhes mais específicos sobre os relacionamentos, separações e aproximações entre os dois e Miyokichi. Sabe, assistindo esse episódio eu quase me esqueci que em vários dos episódios anteriores discuti sobre a sexualidade do Yakumo (e até do Sukeroku).

O papel do velho Yakumo é muito maior do que eu esperava. E ele gosta de seus discípulos, inclusive do Sukeroku! Bom, exceto por alguns rearranjos e alguns corações partidos parece que tudo vai acabar bem, não é? Não é. Eu já sei que não vai.

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Se eu achei que o episódio anterior teve queda na qualidade da animação, nesse eu acho que ela foi brilhante. Houve inclusive belíssimos símbolos visuais que por si só mereciam artigos (aqueles “Uma cena” que eu escrevo, sabe? hehe). Como eu já escrevo sobre Rakugo Shinjuu de todo modo, vou aproveitar esse artigo para comentar alguns deles.

No trem, falando sobre o Yakumo

No trem, falando sobre o Yakumo

Durante a cena do trem enquanto Novo e Velho Yakumo conversam sobre o futuro do Novo Yakumo o trem corre em nível, ao ar livre. Pelas janelas se vê a paisagem, o céu, a luz do sol entra e ofusca as lâmpadas do trem. No exato instante em que o Novo Yakumo pergunta sobre o Sukeroku para seu mestre e ele vai responder o trem entra em um túnel. Aí não há nada pelas janelas, apenas trevas e escuridão. O trem permanece iluminado internamente por seu próprio e débil brilho. Então voltam a falar do Novo Yakumo e o trem sai do túnel.

No trem, falando sobre o Sukeroku

No trem, falando sobre o Sukeroku

É uma cena de vários significados – ou de significados em cadeia, se preferir. Primeiro, a claridade representa o estado de espírito do próprio mestre com relação aos seus discípulos: ele é só esperança e alegria com o Novo Yakumo, mas está cheio de preocupações quanto ao Sukeroku, que só lhe dá dor de cabeça. Depois, há o próprio destino do Sukeroku. Eu já sei que ele vai morrer, as trevas em seu caminho podem significar isso. Por fim, a única luz no caminho do Sukeroku é sua própria luz, o que representa sua má fama junto aos mestres, sua separação do Yakumo nesse episódio e, talvez, um iminente rompimento com seu mestre no futuro. Tudo bem para ele já que pretende desbravar um novo caminho, à despeito da tradição. Pena que ele nunca irá chegar lá.

A chama mais intensa queima mais rápido

A chama mais intensa queima mais rápido

Ainda sobre a morte futura do Sukeroku há a cena do incenso na casa do mestre. Depois de uma longa e cansativa reunião entre mestres o Velho Yakumo conseguiu garantir o futuro de seus dois discípulos, que tiveram sua ascensão para shin’uchi aprovada. Em comemoração a isso ele acende dois incensos, evidentemente um para cada, no templo da família, o mesmo local onde ele guarda a árvore genealógica da família Yurakutei. A câmera foca apenas nos incensos e um deles, que queimou mais rápido e foi mais longe, se apaga. Se isso não representa a morte iminente do Sukeroku, o que mais poderia ser?

No bar, a separação (bônus: Yakumo dá as costas para a nova cultura)

No bar, a separação (bônus: Yakumo dá as costas para a nova cultura)

Por fim, nem é tanto um simbolismo usado em produção audiovisual, mas algo que muita gente faz durante a vida mesmo. No bar, quando Sukeroku e Yakumo estão conversando, esse informa aquele que pretende morar sozinho. É uma separação. Amigável sim, mas uma separação. Yakumo se virou para um lado para dizer isso, e Sukeroku faz questão de virar-se para o lado oposto para fazer a pergunta retórica confirmando se esse era mesmo o desejo do amigo. É o tipo de coisa que fazemos na vida real (na maioria das vezes sem perceber), virar o rosto ou o corpo inteiro para lá ou para cá, para perto ou longe, em direção de algo ou alguém ou no sentido oposto, conforme a situação. E é um gesto carregado de simbolismo. Nesse caso o anime foi muito feliz em transmitir esse simbolismo vindo diretamente da vida real.

Escrever tanto sobre simbolismo me fez pensar no porque achei (e no fundo ainda acho, pelo menos no campo das possibilidades) que o Yakumo fosse homossexual. Ele não disse, ele não fez nada sexual no anime inteiro – exceto em suas interpretações de rakugo, então por quê? Simbolismo. Eu assisti esses episódios todos e enxerguei neles diversos símbolos que me pareciam significar isso. Mas será que significam mesmo? Sexualidade e papeis de gênero são muito dependentes da cultura, e a cultura japonesa na época do anime era muito diferente da cultura ocidental (e hoje ainda é, mas eles absorveram também muitos símbolos ocidentais – aliás o Sukeroku aponta no anime como o Japão estava exatamente começando a fazer isso). É justo, é correto eu avaliar com meus olhos ocidentais?

O próprio episódio fez questão de me lembrar uma diferença básica: beleza na cultura japonesa é um atributo de gênero. Homens não são belos. É impossível. O mestre Bonsai diz claramente que o Yakumo parece uma mulher por ser muito bonito. No ocidente não somos assim. Claro, os padrões de beleza para homens e mulheres são diferentes, mas a beleza em si não é monopólio de ninguém. Você já deve ter visto isso com maior ou menor intensidade em vários animes. Não estou aqui retirando nada do que eu disse em outros artigos, apenas propondo mais uma variável para a discussão – que, no entanto, eu nem acho tão importante assim como já disse antes. Rakugo Shinjuu não é sobre a sexualidade do Yakumo, mas sobre as relações conflituosas e amorosas, os tropeços e encontros entre três pessoas: Yakumo, Sukeroku e Miyokichi.

  1. Olá, Fábio, tudo bem? 🙂

    Primeiramente, nossa, eu confesso que não tinha me ligado nessa metáfora do incenso, apesar de ter percebido os túneis. Muito bem observado. Igualmente bem observado quanto aos gestos – isso é chamado de mirroring em psicologia, aliás.
    E sim, é verdade, sexualidade e papeis de gênero não são a mesma coisa. É verdade que o Japão estava se ocidentalizando naquela época, mas suas noções de sexualidade e gênero sempre foram muito diferentes, e eu acho sim que, mesmo que o Yakumo não fosse homossexual, muita gente devia achar que ele era. Como você disse, beleza lá é considerado um atributo feminino, e por ele ter sido criado numa casa de geishas e tudo mais, ele sempre foi feminino nos seus gestos.

    Como sempre, muito obrigada pelo post muito bem escrito e elucidativo!

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá =)

      Eu acho que acham o Yakumo parecido com mulher, não gay. O gay estereotípico japonês é muito diferente do ocidental: eles são claramente homens que se comportam de forma (muito) afetada, frequentemente bombadões (aliás, ser musculoso é pedir para acharem que você é gay). Mas bom, parece que a autora já escreveu yaoi antes, ou algo assim, não é? Aí tem que ver o gay padrão dela também.

      E sobre os símbolos, nossa, tem mais ainda. Eu fico louco se for apontar todos =D Teve o Yakumo dando às costas para a cultura ocidental, conforme descrevi na legenda da imagem, e na imagem de capa do artigo tem o Yakumo com sua nova memória e ponto de mudança na vida nas mãos, o leque do Sukeroku, e a bengala (que teve papel semelhante antes) de lado. Isso é só o que lembro agora que acabo de acordar (e com a ajuda da minha própria seleção de imagens, lol)

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