Não, esse episódio não tem nenhum erro de tradução. Quero dizer, talvez tenha? Na verdade não duvido que tenha, mas não é disso que estou falando. Se você está acompanhando esse anime comigo desde o começo sabe que eu levo a questão da linha do tempo muito a sério – ainda que isso não tenha a menor importância. Pois bem. Ojun nunca foi filha do Kumehachi! E o que me fez acreditar que ela era, e portanto basear toda a minha tese cronológica nisso? Um erro de tradução no primeiro episódio. Bom, isso e minha incompetência em perceber as incongruências disso já no dito primeiro episódio, mas ei, como eu disse, como eu sei, como você sabe, isso não é importante para a experiência de assistir Onihei então eu não percebi e não me dei ao trabalho de tornar ao primeiro episódio para investigar. Fiz isso agora por motivos que estão explicados adiante.

Antes disso, calma. Escrevi sobre esse episódio adiante também, juro! Seria bem estúpido um artigo sobre o episódio no qual eu não teço uma palavra sobre ele, não é? Mas como bons apreciadores de Onihei, eu e você sabemos que esse episódio em particular permite esse tipo de digressão. Não aconteceu nada demais, foi apenas divertido.

O título planejado para esse artigo era “o código de honra dos policiais” ou algo do tipo, em referência, claro, ao código dos ladrões, já citado diversas vezes. Onihei pode ser um demônio implacável, um oficial de justiça capaz de ordenar a tortura de um preso – e de ele próprio tomar parte nela. Mas ele também entende quando está apenas diante de um “jogo”, e sabe se comportar como um bom esportista.

Tomogoro, o barqueiro

Nesse oitavo episódio Heizou tem sua casa furtada, com um item muito valioso para ele – o cachimbo que tanto adora e que é lembrança de seu pai – sendo levado embora de seu próprio quarto bem debaixo de seus olhos borrados e alucinantes. Sim, pois ele estava adoentado, com febre alta – em parte porque ficou doente mesmo, e em parte porque não se cuidou direito para que se curasse antes. Tomogoro, o ladrão, já estava aposentado há anos mas sentiu-se tentado a invadir a casa do lendário chefe de polícia de Edo que estava diminuindo as taxas de roubos e deixando todos os ladrões com medo de agir. Puro orgulho. Apenas um jogo. Ele não percebeu que sua vítima estava sofrendo com febre alta e assim pôde ficar satisfeito consigo mesmo pelo seu grande feito!

Tomogoro, o ladrão

Que ainda assim não deixa de ser grande, não é? Como o próprio Heizou disse, o roubo significa que a segurança estava baixa no lugar onde mais deveria estar alta (bom, isso no que diz respeito à sua jurisdição, né, ignore a segurança pessoal das grandes autoridades), estivesse ele doente ou não. De todo modo, por um acaso daqueles que só acontecem convenientemente em ficções, Heizou encontra o cachimbo nas mãos de um barqueiro. Ao invés de dar-lhe voz de prisão imediatamente ou algo do tipo encomendou uma investigação especial ao Kumehachi – se o velho estava usando o cachimbo não pretendia vendê-lo então o precioso item não iria fugir, não havia pressa mesmo, e era importante descobrir as circunstâncias do furto bem como as do ladrão em si. Isso e o Onihei estava claramente curioso também, como ele já demonstrou tantas vezes ser capaz de ficar. Cortando direto para o final, era como disse no começo mesmo, um ato isolado de um ladrão aposentado apenas para que ele se sentisse bem consigo mesmo. Heizou, com a ajuda de Kumehachi, levou o jogo até o final e recuperou seu cachimbo – e o barqueiro ganhou muito dinheiro e um belo susto!

Kumehachi já conhecia o velho ladrão

Em dado momento Kumehachi fala sobre como seu ex-chefe morreu há três anos – você sabe, aquela história do primeiro episódio. Então foi há apenas três anos, hein? Então a Ojun … não, espera, a Ojun não havia se encontrado com o próprio Kumehachi enquanto ele estava preso? Essa memória me atingiu como um raio. E se eu já tinha motivos de sobra para revisitar o primeiro episódio após ser desmentido seguidas vezes por Onihei, essa memória tornou isso um imperativo. Eu assisti. E é, lá estava a Ojun se encontrando com o Kumehachi. Então o que estava acontecendo?

O velho quase morre do coração

Chugo disse ao Kumehachi que ela era filha de outro ladrão. Talvez eu tivesse entendido errado desde o começo, não é? Bom, eu entendi errado desde o começo, mas talvez tivesse aparecido mais de um ladrão ali naquele lugar naquele episódio. Corta a cena. A legenda diz: “Alguns meses atrás“. E tem um ladrão barbudo na prisão. Penso comigo mesmo que esse sim deve ser o pai da Ojun, e ele não é o Kumehachi embora eu tenha certeza que o Tanbei o chamou de Kumehachi e aliás o próprio Kumehachi disse no episódio 8 que o Tanbei era seu chefe então quer saber? Decidi apenas assistir e ver o que acontecia. E eis que, depois de mais algumas falas, o próprio Heizou chama aquele ladrão barbudo de Kumehachi. Então ele definitivamente, absolutamente, para além de qualquer dúvida, é o Kumehachi.

Sabe porque me confundi? Por causa daquela legenda que dizia “alguns meses atrás“. Kumehachi havia acabado de conhecer a Ojun e eu havia acabado de descobrir que ela era filha de um ladrão e em seguida entrou um flashback. Com um ladrão. Só pode ser o pai da Ojun! Mas a essa altura você já deve ter entendido onde eu quero chegar, não é? Eu peguei os caracteres originais japoneses e joguei no tradutor do Google (bom, tive que ficar olhando na quadro pausado do vídeo e pacientemente desenhar aqueles caracteres, dá um trabalhão mas adoro esse recurso da ferramenta). Estava escrito Sūkagetsugo (数ヵ月後), que significa, já adivinhou? Alguns meses depois! Aquele era o Kumehachi, o mesmo Kumehachi que não é o pai da Ojun, envelhecido e embarbecido (essa palavra existe mesmo, pode pesquisar), meses depois de ter sido capturado.

De volta à estaca zero! No fim das contas ainda falei mais sobre o primeiro episódio do que sobre o oitavo, não é? Então deixa eu encher linguiça aqui um pouco. Sabe porque guerreiros japoneses usavam aqueles coques ridículos? Não é porque achassem bonito. Era por uma razão prática: segurar o capacete. Colocando em outros termos, pode-se dizer que guerreiros japoneses faziam cosplay de Lego, o coque sendo o encaixe para os capacetes. Depois, como guerreiros eram uma casta superior à maioria da população, o coque em si se tornou sinal de status e, de certa forma, pode-se dizer que passaram a “achar bonito”. Não é a mesma coisa mas é o mesmo espírito que fez a moda das perucas pegar na Europa medieval: o rei francês era careca (ou tinha piolhos e por isso estava careca, não lembro direito) e por isso usava perucas. Como ele era o fucking rei logo toda a Corte começou a imitar. E depois se espalhou para outros países. Muitas modas surgem por motivos estúpidos assim.

Esses coques

E vou encerrar o artigo falando das carpas ornamentais, os kois. Bom, elas são carpas absolutamente normais, sem nada de especial. Quero dizer, há algo de especial sobre elas: são cruzadas seletivamente pelos criadores para que tenham aqueles padrões coloridos muito loucos. Na natureza aquelas cores são todas características recessivas, e é fácil entender porque: peixes mais coloridos são mais visíveis e chamam mais a atenção de predadores. Carpas ornamentais deixadas à própria sorte em poucas gerações viram carpas cinzentas sem graça. Na verdade, a maioria das crias de carpas ornamentais é cinzenta ou tem padronagens de cor sem nenhum valor, e criadores precisam removê-las para manter a pureza ornamental de seu criadouro. É raro, mas algumas carpas podem ficar gigantescas como a do episódio sim. E vivem bastante também: a carpa mais longeva registrada viveu 225 anos. Enfim, por hoje é só, até o próximo artigo!

Uma carpa gigantesca, velha, e com cores normais

  1. Este episódio, vai ser o único que não vou ter nada para comentar. Este episódio para mim, não teve nada de especial, foram apenas 24 minutos de brincadeira entre o Heizou e o velho ladrão Tomogoro. Não digo que o episódio tenha sido mau, mas depois de um episódio 3 épico e um episódio 7 perto do épico também, este episódio 3, foi apenas mediano/fraco. Das poucas coisas que se aproveitaram neste episódio, foi o aparecimento de um dos personagens que eu mais gosto e admiro deste anime, o Samanosuke, mas desta fez com uma faceta mais brincalhona. Quem diria que ele, também levava o seu amigo (quase irmão) Heizou por maus caminhos. Já para não falar de um maior destaque do Kumehachi no seu trabalho de espionagem e outros esquemas ilícitos. A Omasa pelos vistos também, já se adaptou bem às funções que o Heizou lhe deu, aquele disfarce de vendedora de ervas medicinais, foi uma referência excelente aos shinobis que recolhiam informações nas grandes cidades.
    E agora tocando no tema, da tua introdução, eu já desisti de compreender a linha cronológica de Onihei. Eu já cheguei a comentar contigo várias hipóteses, uma delas eu estava errado, aquela onde eu cheguei a dizer que a Ojun era filha do Kumehachi. Mas tal coisa é impossível, já que logo de caras no episódio 1, quando o Kumehachi foi capturado e mantido em cativeiro, a Ojun já lá estava. E de certa forma eu também fui enganado por esse erro de tradução, o que vale é que cá estavas tu, para explicar esta situação.
    A parte final deste artigo, mostra um dos motivos principais de eu seguir o Anime21 quase religiosamente. A parte final deste artigo é puramente serviço público. Eu não sabia que aqueles coques dos samurais e ronins, era por causa dos kabutos (elmos) e aqueles capacetes da polícia que o Heizou já apareceu no anime a usar. E meu caro, aquilo que mais faltava nas cortes Europeias na Idade Medieval eram piolhos, piolhos e percevejos corriam soltos nas cortes e casas das pessoas comuns. Os casos mais graves eram na França, país que não tinha par, no que se tratava na falta de higiene. Como tu bem referiste foram os nobres e réis franceses que inventaram o uso de perucas e tal coisa pegou como moda, a ser seguida, por todas as cortes europeias. Das primeiras coisas, que a Corte Portuguesa, levou para o Brasil, quando teve que fugir dos exércitos de Napoleão foram os piolhos. Quando a Corte desembarcou no Brasil, passados uns dias, a colónia teve um surto de piolhos e percevejos (e mais tardes doenças como a sífilis e sabe-se lá mais o quê) e todos, desde nobres a escravos e comerciantes comuns tiveram que rapar o cabelo.
    E já agora obrigado, pela sessão informativa, sobre as carpas (ou Koi como os japoneses chamam a este tipo de peixe), eu sei que elas são bonitas e tal, mas não imaginava que tivessem tanta manipulação humana, para terem aquelas cores vivas. E aquela carpa que foi ter com o velho Tomogoro, era de se respeitar, já para não falar que tinha uma idade já avançada.
    Como sempre mais um excelente artigo, de Onihei Fábio.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Como conhecedor de história e em especial de história militar, achei que você já soubesse sobre os coques japoneses! Bom, agora sabe =D

      Sobre as carpas, a história é mais divertida ainda. As marcas coloridas e cores vivas são mutações que ocorrem naturalmente, ainda que sejam bastante incomuns. As carpas foram introduzidas no Japão para consumo, não me lembro agora em qual província, acho que Niigata, e como os invernos eram rigorosos e não queriam ficar sem peixe para comer os criadores começaram a construir os tanques dentro de casa. Vivendo assim tão perto das carpas começaram a reparar que algumas tinham cores vivas, divertidas. E foi aí que começaram a se interessar e a criar carpas ornamentais, ao invés de para alimentação.

      Sobre o episódio, é isso mesmo né? Não tem o que falar, até que me esforcei bastante no artigo, hahaha!

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

      • Eu sabia que esses coques japoneses, eram uma marca de status na casta dos samurais, principalmente no Período Edo. Regra geral, só os samurais e ronin. Os guerreiros monges eram sempre carecas, isso já vem desde os tempos do Japão antigo. Mas admito que não sabia, que tais coques fossem para usar capacetes, será que era para preencher aquele vazio que fica entre o topo da cabeça e o capacete. Os samurais do tempo do senhor Unificador Oda Nobunaga, geralmente tinham o cabelo comprido, mas também acredito que os elmos que faziam parelha com os conjuntos da armadura, não requeriam nada de especial para ficarem fixos até hoje. A tua referência aos capacetes japoneses despertou-me uma curiosidade que eu já tenho a algum tempo. Aqueles capacetes em formato de tartaruga, usados pelos samurais do Período Edo tardio, eram feitos de quê. De aço e ferro não podiam ser, os japoneses naquela altura não desperdiçavam o metal com esse tipo de coisa. Será que era feito como os elmos das armaduras, estes eram feitos de couro curtido e no interior podia ter chapas de aço intercaladas sob camadas de couro. Se tais capacetes do Período Edo fossem apenas de couro, qual o sentido dos samurais os usarem, este tipo de capacete não aguenta um impacto de uma Katana, já para não falar de um tiro de arma de fogo.

      • Fábio "Mexicano" Godoy

        Agora você está perguntando coisas bem além do meu conhecimento =D Descubra-as e compartilhe conosco quando tiver a oportunidade ^^

      • O mais impressionante é que eu sei quase tudo, sobre a evolução das armaduras dos samurais. Em especial as armaduras dos samurais do Período Edo tardio. Eu sei que o Shinsegumi usava uma chapa de aço na testa, para proteger parte da cabeça e no torso uma armadura ligeira de couro e cota de malha. E a polícia de Quioto nessa mesma altura ainda usava esse capacete que o Heizou usou neste episódio. Pelo formato analisando bem, não segue o estilo dos elmos, já que não tem camadas de couro e chapas de aço. Tais capacetes deviam ser feito a partir de uma placa de metal e moldado até ter aquele formato côncavo. Tal formato tipo tartaruga, é muito parecido com os capacetes de aço, que os ingleses usaram na primeira Guerra Mundial, além que faz lembrar muito os elmos dos soldados de infantaria da Idade média.
        Só uma pequena curiosidade, a maioria do animes, que toca no Período do Sengoku Jidai, mostra os samurais com armaduras muito foram de época. O único anime que vi até hoje, que foi certeiro em relação à história e armaduras do Sengoku Jidai, foi um anime chamado Nobunaga Concerto, que recomendo muito, mesmo com a sua animação ser toda feita em computação gráfica.

      • Já descobri do que eram feitos esses capacetes dos oficiais do governo e como se chamam. O capacete que o Heizou usa nas sua missões, chama-se Jingasa Kamon, geralmente este quando usados pelos agentes do governo tinham que ter o brasão do Shogunato Tokugawa. Eles eram feitos de ferro, resinas e tintas especiais para desenhar o brasão dos Tokugawa. Estes capacetes são do Período Edo tardio (século XVIII). Quando se deu a guerra civil entre as forças do Shogunato e as forças pró-imperador, estes capacetes Jingasa Kamon foram muito usados pelos soldados do shogunato, enquanto as forças pró-imperador usavam capacetes em formato de cone, chamados de Tetsu Jingasa, os soldados pró-imperador que usavam estes capacetes usavam armas de fogo e também podiam pertencer à artilharia.

      • Foi difícil de achar o nome e de que materiais, que tais capacetes eram feitos, mas consegui encontrar as informações, numa revista que tenho sob estilos de armaduras de vários países.

      • Houve uma altura, em que fiquei viciado em história e comprava tudo que tivesse informações sobre história, desde de revistas a colecções de livros completas de determinada época da história. Sem exagero nenhum, metade do meu quarto está cheio de revistas, livros e enciclopédias sobre história. A história e os videojogos são os meus únicos vícios.

      • Fábio "Mexicano" Godoy

        Aqui é animes e mangás. Bom, mangás está em stand-by faz um bom tempo, mas pretendo retomar.

      • Eu comecei a adquirir o gosto pelos mangás à pouco tempo. Tenho alguns que trouxe do Brasil, mas não os li todos porque não gostei da tradução. Aqui só agora é começaram a vender mangás traduzidos para Português de Portugal, mas além se serem caros, o Português usado, na sua maioria só é compreendido pelas elites (não que eu me importe). Eu também gosto bastante de animes, senão não estaria aqui a comentar. Mas este ano tenho a sensação que terei de dar uma pausa nos animes, desde que passei dos 500 animes vistos, que tudo o que vejo agora, só encontro erros, tanto na animação como nas histórias cliché.

      • Fábio "Mexicano" Godoy

        Oh, se você parar com animes, o que será de nós sem seus comentários? Boa parte da diversão não está em escrever, mas em interagir com quem está assistindo os mesmos animes, hehe. Mesmo que seja para falar mal, como às vezes é o caso, você bem sabe!

        E que editoras de mangás tem aí, além da Devir?

      • Eu digo que vou dar uma pausa nos animes, mas a cada temporada nova que entra eu leio as vossas primeiras impressões e acabo por ver um punhado grande animes. Eu gosto bastante de comentar e debater os animes, aqui no Anime21, casa que visito todos os dias à quase um ano. E quando se trata de falar mal dos animes, estou cá eu para o fazer.
        Em termos de mangás, a Devir aqui é a única que distribui mangás. Ela faz uma tradução muito boa, mas a qualidade preço é muito fraca, cada volume custa 10 euros, com esse dinheiro, ai no Brasil eu comprava edições de luxo. Já para não falar que o papel que a Devir usa nos seus mangás, não vale os 10 euros que ela cobra por volume.

      • Fábio "Mexicano" Godoy

        Ok, segunda curiosidade sobre mangás portugueses: sabe se a Devir é editora portuguesa com filial no Brasil ou brasileira com filial em Portugal? Porque ela opera aqui também, publica HQs (mas não mangás), material de RPG e card-games.

        E não estou muito animado com a próxima temporada, mas vamos ver, né? Com os animes estreando quem sabe algo me surpreenda =)

      • A Devir é Brasileira, ela tem uma filial em Portugal e outros países da Europa e América Latina. A minha motivação com a próxima temporada está na hora da morte.

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