Parafraseando o título do próprio episódio nomeei este artigo, e isso se deve a minha crença de que boas histórias sempre têm finais que provocam reflexões que remetem ao amor – mesmo que a sua ausência –, assim sendo, com essa não poderia ser diferente e mesmo com um final que não muito me agradou em comparação ao que acho que poderia ter tido, a sua mensagem não se perde, pelo contrário, pois a obra realmente foi bem sucedida em promover essa máxima, “ame e deixe amar.”

Seria uma completa injustiça não elogiar neste artigo os excelentes, ainda que simples, diálogos da Chise com o Joseph ao longo do trecho em que a divergência entre eles se resolve, além dos diálogos na belíssima última cena do anime. O anime foi todo muito bem escrito e esse episódio só não foi da mesma qualidade dos seus melhores por causa de alguns problemas que, no geral, tornaram esse arco derradeiro mais fraco que os outros. A cena da Chise confrontando o Joseph foi muito bonita, bem escrita e satisfatória para fechar aquele momento, mas achei que a transição daquele ponto até outro na história, no qual a situação já havia sido resolvida, não foi tão bem feita. Pela primeira vez no anime senti que faltou um background melhor para que eu pudesse acreditar na solidez do que aconteceu, como se o Cartaphilus ter entrado na Chise e ter se “resolvido” com o dragão (ao menos foi isso que eu entendi que aconteceu) parecesse fácil demais quando deveria ter sido mais “difícil”.

“Você quer que as pessoas entendam? Ou você só quer acreditar que é o único sofrendo?”

É verdade que o Elias usou os poderes daquela fada e a própria Chise é um “catalisador supremo” quando se trata de magia, mas creio que poderiam ter falado um pouco mais disso, que poderiam ter dramatizado um pouco mais isso. Após cantar para o Joseph ela parece acabada, como se tivesse morrido ali mesmo, mas o Elias e o Ruth apenas se levantam e carregam a heroína e o vilão nas costas como se estivesse tudo bem quando a maldição do dragão era um problema incapaz de ser resolvido até bem pouco tempo atrás. Entendo que a magia na obra não obedece a categorizações ou a padronizações comuns em mangás e animes, o que permite uma abordagem mais maleável de acordo com a situação, e que o Cartaphilus conter a maldição é uma explicação plausível, mas ainda foi muito “seco”, muito abrupto, muito “em um estalar de dedos, em um passe de mágica tudo se resolveu”. Pelo menos algo de muito bem veio antes – e depois – desse acontecimento questionável.

Uma canção de ninar sincera pode ser uma benção.

O momento em que a Chise questiona as atitudes do Joseph referentes a dor que ele sente é, de fato, muito bonito e muito coerente porque ela também carrega a sua “cruz”, ela também passou por muitos momentos difíceis e tem “experiência” suficiente para ter dito o que disse a ele, mesmo tendo feito o que fez quanto a si mesma – arriscar a sua vida quando queria vivê-la. Ao procurar entender a dor dele e demonstrar empatia a Chise estava salvando ele do desespero, mostrando que lidar com o sofrimento provocando sofrimento no próximo não era o caminho para que ele obtivesse a paz de espirito que tanto almejava. Infelizmente, o desfecho do Joseph também teve um problema, pois, pelo que me pareceu, ele se tornou “humano” de novo, livre da “maldição” da imortalidade do Cartaphilus, assim conseguindo o que queria, mas continuando vivo e agora sob a tutela da Chise e do Elias. Algo deverás estranho e que acho que precisava de uma explicação, ainda que sucinta, de como aquilo ocorreu e de como vai se resolver no futuro. Diria que por isso a resolução dele ficou no meio termo; foi boa até o ponto em que aconteceu, questionável depois. Não diria que errei quando falava que ele queria “morrer”, só que encontraram outro caminho para se chegar a um resultado similar. Scho que isso poderia ter sido feito de forma melhor – mas não foi tão ruim também não.

O que me incomodou mesmo foi a falta de uma exposição mais clara sobre o método pelo qual se deu a resolução dessa situação. Não digo que diálogo expositivo seria necessário – ele quase nunca é, na verdade –, mas seria bom dar mais importância a isso – o que falei mais acima –, afim de manter o equilíbrio que o anime se propôs a ter desde o início. Um equilíbrio de forma e conteúdo, perturbado por uma situação que pareceu ter conteúdo, mas deixou a desejar quanto a forma que foi resolvida.

Outro problema desse episódio foi a reconciliação entre o Elias e a Chise, algo que deveria ter sido mostrado em uma conversa mais longa e mais séria, mas acabou dando lugar a um momento cômico que foi incoerente diante da atitude que o Elias teve. É verdade que a Chise também agiu sem consultá-lo, mas se tratava da vida dela, era ela que estava se pondo em risco ali com o que ela fazia, não a vida de outra pessoa que nada tinha culpa pelo que aconteceu e quase foi morta assim mesmo. Se o Elias deseja conviver com uma humana respeitando sua moral, sua ética e seus costumes – assim como seus sentimentos – é importante que ele aja de acordo e quando cometer um erro grave trate de tentar se retratar, de pedir perdão, para quem ele afetou. Acho que esse seria o caso e isso passou batido, foi completamente deixado de lado. Dessa vez ficou até difícil dizer que foi um desequilíbrio entre forma e conteúdo já que nada deu a entender que havia “conteúdo” – havia profundidade – naquela resolução e a forma como tudo aconteceu deixou muito a desejar de acordo com a construção do Elias, pois, ele dizer que não vai fazer nada que ela não goste foi bonito e necessário naquela hora, mas, se é para ser assim, então por que não mostrar arrependimento por parte dele, por que não mostrar ele tentando desde antes melhorar como “ser humano”? O que ele fez foi monstruoso – e seres humanos muitas vezes são assim –, mas ele em si ser um monstro não implica esteja acima do bem e do mal e que não precise se retratar pelos erros que vier a cometer. Tudo bem que é provável que a Stella nem deve lembrar do que aconteceu por estar sob controle do Joseph, mas isso não muda o que ele fez e que ele deveria ter se retratado e seria bom vermos isso.

Esse foi um erro infeliz, talvez ocasionado pela falta de tempo para esse tipo de coisa já que o anime enquanto série a ser finalizada ainda precisava de um final com toda a pompa e circunstância. O que não chegou a estragar sua conclusão, mas tirou parte do brilho que eu ainda estava enxergando nela.

Ao menos teve esse momento doce e leve, e os preparativos para o “grande evento”.

Felizmente, nem tudo são espinhos entre as rosas – apesar desses espinhos terem sido os mais afiados até agora – e, mesmo com uma noiva sem buquê, o palco perfeito foi armado para que o anime se encerrasse com uma cena muito bonita que, apesar do susto inicial que me causou, conseguiu me cativar por seu caráter simbólico, sua bela produção – que poderia ter sido melhor, mas já foi sim bastante satisfatória – e por ter sido gratificante a seu modo – estranho, mas bom.

O anime começou com a Chise sendo comprada pelo Elias, então o laço deles se formou e eles passaram por diversas situações em um ano. A relação dos dois abrangeu diversos classificações, enquanto ele também a tomava como sua noiva, como alguém com quem ele compartilharia a vida dali em diante. Apesar do viés romântico da proposta não ter sido aprofundado – o que acho melhor não ter acontecido mesmo, pois não seria lá muito adequado –, o título de noiva é válido, sendo assim, concluir o anime com um casamento simbólico entre os dois pode parecer estranho por se tratar de um monstro e uma humana, mas a relação deles não deve mudar do que vinha sendo antes. Eles só decidiram se aproximar mais, contar mais um com o outro e confiar mais um no outro, tentando compartilhar mais do mundo um do outro através de palavras e gestos que não servem necessariamente para que se entendam, mas para que se falem e a partir daí possam vir a se entenderem, possam desenvolver esse relacionamento afim de viver juntos de forma cada vez melhor. No fim das contas, esse é um final que fecha um ciclo, que realmente torna a Chise a esposa do velho mago, que coroa a jornada de um ano em que a vida dos dois mudou completamente.

A Chise ficou linda com esse vestido. Sem dúvidas, uma noiva de personalidade estilo.

Digo e repito, encontrei mais defeitos que o normal para o anime nesse episódio, mas não consigo encarar esse casamento simbólico como um deles justamente por ele ser apenas simbólico, apenas um marco, “apenas” – e aqui já bastante coisa – o fortalecimento de um laço que ainda deve ter muito a nos dar, pois o anime acabou aqui, mas o mangá continua – e quem sabe a obra tenha uma segunda temporada um dia. Aliás, o mangá está saindo no Brasil pela editora Devir em uma edição lindíssima a um preço salgadíssimo. Estou comprando e, com certeza, indico ele para todos vocês!

Mahou Tsukai no Yome foi um belíssimo anime com momentos maravilhosos, uma consistência incrível e personagens fortes e marcantes com histórias de vida muito bonitas e envolventes; mas que pecou justamente em sua reta final – o que não apagou o brilho da obra e, como apontei no começo do artigo, não atrapalhou a transmissão da sua mensagem. Ame e deixe amar, viva e deixe viver, seja e deixe ser, tenha coragem para seguir em seu caminho (como a nossa adorável protagonista Chise teve) até encontrar a felicidade! Me despeço muitíssimo feliz e realizado por ter tido a chance de comentar o segundo cour do anime de uma obra tão bela, única e gratificante.

Até um próximo artigo de Mahou Tsukai no Yome, pois, mesmo que este seja um fim é também um começo, e mesmo que este seja um começo, também é um fim cheio de uma magia inconfundível!

E assim nos despedimos da noiva do velho mago. Foi uma jornada mágica de verdade !

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