Não é um trabalho fácil explorar dois temas distintos em uma só narrativa e, ainda assim, conseguir conciliá-los de forma expressiva, acertando em ambos, meio e finalidade. Perfect Blue é esse tipo de filme, pois ao longo de pouco mais de uma hora a película tanto é apresentada ao público como um intenso e disforme thriller psicológico, quanto uma crítica à indústria de entretenimento japonesa e, principalmente, como uma obra que versa sobre as intempéries da mente. Não de uma forma linear com única resposta certa, mas como gatilho para refletirmos sobre nossas mentes e personalidades.

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O filme é de 1998 e tem direção de Satoshi Kon, o mesmo diretor do renomado Paprika. Apesar de seu traço realista e de sua ambientação noventista, a situação problema na qual a trama se apoia é algo que se mantém bastante atual na indústria de entretenimento japonesa: uma idol que troca os palcos pelos sets de filmagem e tem que encarar todos as dificuldades atreladas a isso. Mas por que ela não mantém ambas as atividades? Porque existe uma diferença significativa entre a persona de uma idol e a de uma atriz, porque a indústria procura diferentes características para cada trabalho.

Quantas Mimas e CHAMs! ainda não existem no Japão, hein?

Idols não são chamadas assim por acaso e enquanto nessa profissão, são elevadas a ícones de beleza e pureza a serem idolatradas por seu público – principalmente do sexo oposto. Contudo, na vida real os padrões de perfeição a serem atendidos por uma idol se chocam com os requisitados para outros tipos de celebridades. O público até pode ser o mesmo, mas o que um fã espera de uma idol  não é o mesmo que espera de uma atriz, e é em cima disso que é criada a chance para brincar com a mente.

Uma fala que me chamou a atenção logo no começo do filme foi a da mãe da protagonista dizendo que o sonho dela era cantar e não ser atriz – como iria se tornar. Se o sonho dela era realmente esse, então por que desistir dele? Isso é fácil de se explicar se pensarmos que não é incomum uma pessoa querer se desafiar e buscar algo de diferente como objetivo de vida – principalmente se sua vida de idol tem problemas com os quais é difícil lidar. O problema é que mesmo mudando de atividade, isso não quer dizer que os problemas não existirão mais ou que novos problemas poderão ser evitados. É aqui que é dado início a briga da Mima, que inconscientemente quer cantar e conscientemente não.

Achei isso muito bizarro e igualmente interessante.

O subconsciente é poderoso, principalmente para pessoas que não têm certeza sobre suas escolhas. A protagonista ter um sonho, mas abrir mão dele quando a oportunidade aparece é a prova de que sua mente é muito aberta a sugestividade externa, que a falta discernimento entre o que deseja e como deseja. Essa atitude dela se encaixa com o que o próprio filme acusa sobre a personagem – em uma cena inteligente que, com maestria, soube fazer um link entre a realidade e a ficção. Ela sofre de transtorno dissociativo de identidade (TDI), ou para ser mais simples, ela possui dupla personalidade.

De posse dessa informação – não que já não fosse fácil inferir isso pela forma como a loucura dela é desenvolvida ao longo da trama – fica mais fácil entender a abordagem que o filme propõe a vida da Mima e a carreira dela. A primeira alucinação dela em que seu outro eu idol dá as caras é quando o subconsciente dela emerge e uma segunda personalidade alimentada por suas frustações toma uma forma que se distingue do consciente e se choca com ele – o que a partir daí torna a trama frenética.

A crítica à pressão da indústria em cima dos indivíduos que a compõem, como também a nocividade da imagem idealizada que o público constrói de seus ícones são fatores que já tornam o filme muito interessante, fazendo com que o telespectador tenha abertura para refletir sobre o quanto esse tipo de transtorno mental é influenciado por fatores externos e o quanto ele depende apenas de uma fragilidade da mente do indivíduo. Contudo, é pela forma como a obra é dirigida que ela ganha seu diferencial, pois não se trata apenas de uma história fragmentada e com alto teor subjetivo, mas de uma história que mistura o assunto que quer abordar com a forma que o aborda, bagunçando o que é realidade e ficção na cabeça do telespectador. Uma forma ambiciosa e perigosa de dirigir um filme.

Uma cena muito boa. “Polêmica”, mas feita no tom certo.

Se o trabalho do diretor não for bom, o filme perde qualidade na forma e dificulta o entendimento do telespectador acerca do tema que está sendo abordado, de forma implícita ou explícita em tela. Se o trabalho do diretor for bom o que vemos é algo como esse filme. Uma narrativa que começa linear e vai se fragmentando de acordo com a progressão da deterioração mental da protagonista, fazendo com que fique cada vez mais difícil definir o que é real ou não, o que é apenas fruto da mente dela e o que é a mente dela influenciando as mentes de outros. Chega ao ponto da distinção ser impossível e, na verdade, creio ser essa a intenção, fazer com que o público “quebre a cabeça” para descobrir o que é realidade e o que não é, tudo isso sem dar uma resposta definitiva e certa para essa pergunta.

Outro ponto chave do filme, que já é fácil de observar desde os primeiros minutos, é o foco no rosto do segurança stalker. A aparência dele é horrível e tem que ser assim mesmo, pois se trata de um personagem cujo interior transborda para o exterior e acredito ser exatamente por isso que ele foi associado a outra personalidade da Mima. Além de que, um filme tão bem criticado em seu meio não daria closes regulares no rosto de um personagem se ele não tivesse alguma importância na trama.

Um rosto marcante dentro e também fora do filme.

Ele stalkeia ela a história toda e em alguns momentos fica claro que é refém de seus desejos, que ele tem uma verdadeira obsessão e adoração pela Mima, chegando ao ponto de ele mesmo querer dizer quem é a verdadeira Mima – um “arroubo” que pode ser cometido quando adoração vira fanatismo.

Não ficou claro para mim se o que aconteceu foi que a personalidade da Mima se dividiu e o seu alter ego idol estava influenciando de alguma forma as mentes de algumas pessoas ao seu redor ou se tudo aquilo não passou de uma tentativa de causar essa confusão no público, mas se tratava apenas dela tendo sua dupla personalidade e do stalker e da agente tendo transtornos alheios a isso, mas que apresentavam certa semelhança ou ligação. Como disse antes, creio que a intenção foi deixar isso a mercê da nossa análise subjetiva, dando a entender que ambas as interpretações são válidas e se foi isso mesmo, o filme é digno de todos os elogios, pois executa essa intenção de forma excelente.

Jamais que uma cena excelente dessas deve ser parada!

A produção do filme é toda muito boa – estúdio Madhouse não brinca em serviço – e se fosse para comentá-la mais a fundo rasgaria elogios, mas creio ser mais importante pontuar uma opção artística que muito contribuiu para a criação do clima presente na película. Os cortes que ligavam cenas em sua maioria distintas e deram forma a instabilidade mental da personagem, dando a entender que seus lapsos de memórias eram ocasionados por sua outra personalidade assumir seu corpo, por ter alguém – sendo esse alguém ela mesma – que a conhecia mais que ela a si, que era o eu verdadeiro.

Achei algo bastante peculiar o filme se chamar “Azul Perfeito”, mesmo tendo uma predominância da cor vermelha – seja em sangue, cenários ou roupas – em comparação a cor azul. Pensando nisso, e no fato de ser uma narrativa que versa sobre a “distorção” da mente, foi que dei esse título a resenha.

Creio que o final do filme é passível de mais de uma interpretação válida e a minha foi de que a outra personalidade assumiu o corpo e se tornou a real. Um pouco simplista demais, é verdade, mas não há nada de errado em um filme complexo ter um desfecho simples. Qual foi a sua interpretação do final do filme, leitor(a)? Eu adorei o que vi e quero rever de novo um dia, mas não me espantaria se houvesse várias coisas que deixei passar e que contribuiriam para uma interpretação diferente da minha parte. Afinal, sou um indivíduo comum que dispõe de uma única e simples personalidade, ou ao menos é o que a minha segunda personalidade quer me fazer pensar antes de assumir o controle.

Um filme genial de verdade brinca com o telespectador deste jeito!

  1. Pra mim o final foi arrepiante…E descobre-se que a mocinha não era tão assim “mocinha” bem no final….Caras, é Satoshi Kon, um monstro que infelizmente morreu cedo devido a um cancêr de pancreas, fico imaginando até onde esse cara iria se tempo possuisse…Muito legal poder discutir classicos de otima animação e com historias a altura…Mas para mim o melhor de Kon foi Millenium Actress….Sem desprezar de forma alguma, as outras criações

    • Verdade, Satoshi Kon tem uma ótima fama, pena que já nos deixou, e estou até com o mangá Opus, de autoria dele, aqui pra ler, o que devo fazer em breve. O final foi excelente e manteve a abertura para uma interpretação ambígua como foi em praticamente todo o filme. Tenho que ver Millenium Actress mesmo e devo fazer isso em breve, até porque achei Perfect Blue e Paprika excelentes e não duvido nada de que vou gostar desse. Aliás, também não duvido que ele seja comentado aqui no Cineclub no futuro.

      • Kakeru, você tem que ver Millenium Actress e fazer um artigo de qualidade, igual a este de Perfect Blue.
        Começaste pelo filme mais polémico e complicado do mestre Satoshi Kon, Millenium Actress é um pouco mais simples.
        Antes de terminar, o teu artigo está muito bom e o uso de imagens está excelente.

      • Verei com certeza! Agradeço os elogios e fico na expectativa de me deleitar com mais um grande filme.

    • James, tiraste as palavras em relação ao final do filme e em relação, ao grandes génio e mestre Satoshi Kon.
      Perfect Blue, foi apenas um vislumbre da genialidade do mestre Satoshi Kon, mas como bem bem referiste, Millenium Actress está em outro nível. Eu vi todos os filmes do Satoshi Kon, vi um pouco de Paranóia Agent, mas o filme de Millenium Actress, foi o que mais me marcou. Millenium Actress é uma experiência única, a forma como a história de vida da protagonista, através de várias eras da história do Japão (a protagonista era uma actriz renome, contar a história dela, através de encenações de momentos históricos, foi um toque de génio). Não me posso esquecer, mas o jornalista que admirava a protagonista, foi um excelente personagem também, a forma como ele sempre entrava nas histórias de vida da protagonista foi muito boa.
      Bom, já me empolguei demais a falar, de um filme que nem era o foco do artigo, mas o seu comentários James, está muito bom.

      • Agora você me deixou ainda mais animado para ver o filme, hein, Kondou-san! Devo fazer isso muito em breve e que bom que mesmo após a sua morte um diretor tão talentoso pode ter seus filmes cultuados por quem aprecia uma boa história executada com personalidade, o que é uma marca do trabalho de Satoshi Kon.

      • Eu não sei se você se apega muito a protagonistas carismáticas e fortes, se sim, com certeza gostarás da protagonista de Millenium Actress.
        Só um pequeno aviso, se não gostares de história, o filme pode ser um pouco monótono, mas fora isso, a animação é bastante competente (o Satoshi Kon nunca decepcionou nesse quesito) e a história é bonita e emocionante.

      • Eu gosto de bons personagens, e até de ruins se há algo de divertido neles. Às vezes até os que aparecem pouco me cativam, mas aqueles que se destacam por ter um brilho próprio com certeza chamam mais minha atenção.
        Gosto bastante de história e inclusive sinto que deveria ler ou ver mais obras com essa temática, e espero me impulsionar a fazer isso a partir desse filme.

      • Se gostas de história, então Millenium Actress é um prato cheio. Se tens alguma época preferida da história do Japão, o filme mostrará a mesma retratada em poucos minutos.
        Eu também gosto de bastante de história, mas admito que muitos livros que falam da história Universal ou sobre determinado período da história do homem, são chatos e com uma escrita muito pouco acessível, para quem não conheça as terminologias, usadas nos documentos históricos.
        Por isso, recomendo, se depois de veres Millenium Actress e te sintas com inspiração para descobrir mais sobre a história, recomendo que comeces por livros históricos, com mais imagens, do que texto.

  2. Ora K-San quem sou eu para tirar as palavras de alguém…Mas só para deixar registrado, e mais uma vez reverenciando este MONSTRO do Anime. Os enquadramentos, os cortes a edição ou seja o “cut” do cara, sempre tem algo de nouvelle vague, umas pitadas de Bergman, algo de De Palma (Perfect Blue, se fosse um “live action” não admitiria nenhum outro diretor que não fosse Brian De Palma!), Kurosawa, Ozu (alô Makoto Shinkai ! “Tokyo Story” daria um belissimo anime….)…O “cara” tinha um conhecimento cinematografico e o praticava como poucos…
    Era um realizador (ele era mais que um mero “diretor”), e falando de novo em “live action”, suas obras seriam facilmente adaptaveis ao “live”. “Tokyo Godfathers” se adaptado, o fosse, e acho que o cara perfeito para isso seria Jonathan Demme, Christopher Nolan ou até o Terrence Mallick, com certeza seria um Oscar!

    …Que Katsuhiro Otomo não fique enciumado com este comentário…E aguardando o proximo Cineclub Anime 21 com muita ansiedade!!!

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