Bom dia!

Mais uma vez perdi a data de publicação de um artigo e tive de juntar dois episódios em um só. Mas dessa vez estou bem mais tranquilo com isso já que os episódios 9 e 10 foram sequenciais, basicamente um arco. E o próximo parece que vai ser parte desse arco também, mas suponho que deva ser sua conclusão? Pelo menos temporária. O tema é bastante sério afinal e pode continuar gerando ondas de choque até o final do anime.

O que fazer quando você se vê obrigado a escolher entre a carreira e a vida pessoal?

Um pouco de contexto é importante. No Japão, a estrutura familiar patriarcal em que o homem trabalha e é o provedor e a mulher cuida da casa e dos filhos ainda é culturalmente forte. Talvez você já tenha visto em algum anime em ambiente escolar a seguinte cena: Um formulário é passado para todos os alunos para que o preencham com suas pretensões de carreira. Ou talvez veja o mesmo assunto surgir de maneira informal, entre amigos. E aí uma garota (ou mais) diz que quer ser dona de casa. Aqui no Ocidente isso soa loucura, não é?

Deu ruim

E a coisa não para por aí. Tradicionalmente, para as mulheres a faculdade não é só um lugar de formação, mas também um para onde elas vão procurar um marido. E caso a mulher trabalhe espera-se que ela largue a carreira na eventualidade de se casar. Estamos falando de um país com baixa taxa de natalidade, insuficiente para repor a população, então isso poderia parecer “justificado” para alguém que não se importe com a igualdade entre os gêneros, mas o efeito é o oposto: pragmaticamente, é caro demais para um homem jovem sustentar uma casa sozinho. Os casamentos ocorrem mais tarde, os filhos nascem mais tarde ainda e em menor número. No meio dessa cultura engessada e que trata de forma desigual homens e mulheres, elas são socialmente pressionadas a escolher: ou a carreira ou a família. E cada vez mais vêm escolhendo a carreira.

Hisone e Hoshino são forçadas a tomar essa decisão em Hisone to Masotan também. Lembra daquela história lá do começo do anime, da pilota que passou a ser rejeitada pelo Masotan porque se apaixonou? Parece que os dragões são ciumentos assim. Não vou dizer que são machistas porque eles são animais, não faz sentido falar sobre moral ao me referir a eles, mas penso que estão nessa história representando as pressões sociais reais que as mulheres japonesas reais são obrigadas a suportar todos os dias: Ou você trabalha, ou tem família. É um dilema. Imagine ser obrigado a viver uma vida pela metade, porque ou você trabalha, ou você se casa e tem filhos. Mas não dá para ter os dois? Claro que dá! É um falso dilema.

Quero dizer, na vida real dá. No anime eu não sei. Os dragões são, como eu já disse, amorais, e se o trabalho delas com dragões as força a essa decisão, o que fazer? A Hisone descobre que ama Okonogi, não sem a ajuda da Natsume, a amiga de infância dele, que vem a ser justamente o rapaz por quem ela também está apaixonada. Todas as pilotas perceberam que a Natsume gosta do Okonogi, e ela foi rápida em confirmar. Todas as pilotas também já haviam percebido que a Hisone gosta do Okonogi, mas parece que a própria protagonista não tinha entendido isso ainda. Faz sentido para alguém que viveu isolado e nunca sentiu isso antes. A Natsume, como alguém que está apaixonada pelo mesmo Okonogi há anos, enxergou rapidamente através do coração confuso da Hisone. Quando finalmente entendeu isso, Hisone perdeu o controle.

A Hoshino é uma pessoa um pouco mais normal, então ela já estava bastante consciente de seus sentimentos pelo Zaito que estavam ainda desabrochando. Ao contrário da Hisone, que estava confusa demais para entender porque doía ver a Natsume agarrada ao Okonogi, a Hoshino entendia tão bem a dor que sentia que estourou ao ver o Zaito fazendo literalmente nada de mais com uma das mikos, que estava por sua vez se esforçando (conscientemente?) para se aproximar dele. Se a Hisone não conseguia raciocinar por não entender, a Hoshino perdeu a capacidade de raciocinar por entender bem demais. Uma e outra acabaram perdidamente apaixonadas. Uma e outra acabaram rejeitadas por seus respectivos dragões.

Crise à vista, volta à mesa o plano para partir o coração das donzelas. Bom, o da Hoshino, pelo menos, porque a Hisone ainda estava na fase idealista e meio infantil do romance e acharam arriscado tentar o plano inescrupuloso com ela, sob risco de sair pela culatra e ela terminar ainda mais apaixonada. Não foi difícil convencer o Zaito a colaborar com a imoralidade: Ele não queria que ela realizasse seu grande sonho? Repare que essa é só outra forma de colocar o falso dilema: ou o trabalho (o sonho de ser uma pilota), ou a família (no caso, romance/vida pessoal). É lógico que não cabe a um homem, ao menos na ficção, perceber a falácia desse argumento. No mundo real é bom que todos entendamos, e acho que é essa a intenção do anime. A ver!

A Hisone, contudo, entendeu e internalizou o dilema de sua própria e insondável forma, provavelmente colocando também em sua equação a Natsume e a Nao: uma pode ser melhor do que ela para o Okonogi, e a outra pode ser melhor do que ela para o Masotan. O que esperar de uma garota que tem tão pouca auto-estima? Instada a escolher uma de duas opções, Hisone optou pelo pior caminho: nem uma nem outra.

Antes de partir para o encerramento, acho importante comentar sobre a Natsume e seu papel também. Acho que a essa altura está bastante claro que o papel dela é se sacrificar, não é? Senão, por que o Okonogi estaria tão triste com a escolha da amiga para ser a “binden” do ritual? Por que o tema é continuamente censurado por aqueles que sabem do que se trata, ostensivamente para poupar as jovens garotas? Será que Natsume está completamente ciente de seu papel? E seguindo o lore do próprio anime, apenas faz sentido: as pilotas não podem se apaixonar porque nesse caso seus dragões irão digeri-las, mas as mikos se apaixonam e estão bastante confortáveis ao redor de homens muito mais velhos do que elas – quase como se isso fosse um requisito. Então parece-me razoável supor que o papel da binden é ser digerida pelo dragão colossal para que ele volte a dormir por mais algumas décadas.

Okonogi chora por causa da Natsume

E também nesse caso, mais uma vez, a mulher não tem agência completa em sua própria vida: ou elas amam um amor tão forte que as torna aptas ao trabalho, apenas para que nunca o possam realizá-lo porque seu trabalho é se sacrificar, ou elas não amam e também não trabalham. Uma inversão da escolha das pilotas, não é? O que esperar de tudo isso? Dado que o anime não pinta em cores bonitas essa realidade, acredito que ela será subvertida e tradições serão quebradas nos próximos episódios – para o bem das garotas! Sem descuidar do bem do Japão. A candidata óbvia a realizar todas essas mudanças é a protagonista, que já escolheu uma terceira opção, ainda que por enquanto esteja em rota de auto-destruição. Talvez ela descubra sobre o sacrifício e até mesmo se ofereça para tomar o lugar da Natsume: lembre-se que em sua cabeça a Natsume é melhor do que ela para o Okonogi e a Nao é melhor do que ela para o Masotan, e sua escolha aponta exatamente para essa conclusão trágica. Que ela deve conseguir reverter de alguma forma. Existem mais do que duas escolhas afinal, e as tradições são francamente horríveis.

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