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Vou bater de novo na tecla da falta de verossimilhança pela escala absurda da operação alemã, como já fiz no artigo sobre o episódio anterior. Eu sei que o objetivo último de uma obra de ficção não é ser idêntica à realidade, mas se espera pelo menos um nível razoável de coesão interna. Já aceito sem problema nenhum que as duas guerras mundiais tenham sido amalgamadas em uma só, com o desenvolvimento tecnológico e tático ocorrendo de forma inconsistente, por vezes em grandes saltos, por vezes nunca ocorrendo, e na maior parte do tempo parecendo que só algumas coisas evoluem enquanto outras permanecem em um passado eterno, ainda que faça pouco sentido. Mas essa operação alemã é pura sandice – ou melhor, é sandice que o anime queira que eu acredite que ela poderia mesmo encerrar uma guerra naquela escala.

Que escala? Ora, a das guerras mundiais nas quais o anime se inspira. Se fosse algo 100% fantasioso sem nenhuma inspiração no mundo real, eu não criticaria nada simplesmente porque o anime não me dá informações suficientes para ter ideia das forças envolvidas. Mas eu sei que aquilo é a Europa, ainda que uma Europa alternativa, tenho ideia de tamanho geográfico, de desenvolvimento militar das nações envolvidas na guerra àquela altura, dos recursos envolvidos. E baseado nisso, mesmo que o anime não diga, eu sei um monte de coisas.

Eu sei que aqueles frontes possuem milhares de quilômetros de extensão, e são defendidos em qualquer momento por pelo menos centenas de milhares de homens. Em alguns momentos, o que é provável que ocorra com alguma frequência dado que aquele é o maior e mais importante fronte da guerra e a Alemanha já não precisa se preocupar com outros grandes frontes, há milhões de homens dos dois lados defendendo uma rede inacreditavelmente grande de trincheiras, túneis rasos, túneis profundos e até mesmo bases militares subterrâneas inteiras. As duas guerras mundiais provavelmente foram os maiores esforços de movimentação de terra da história da humanidade.

Quem não usa a cabeça pra pensar pode tentar parar uma bala com ela

Já disse e repito: é besteira achar que é possível cercar centenas de milhares (aposto que passou do milhão) de soldados e esperar obter com isso uma vitória total em curto período de tempo. Após a Batalha de Stalingrado, essa foi essencialmente a estratégia soviética para derrotar os alemães: cercavam uma unidade ou um pequeno conjunto delas e esperavam que se rendessem ou, como acontecia às vezes, massacravam a maioria deles, cujas ordens vindas diretamente de Berlim eram para não se renderem não importasse o quê (os soviéticos também receberam ordem semelhante de Moscou enquanto estavam na defensiva e houve soldados que de fato foram mortos apenas por recuarem). Não derrotaram o fronte alemão inteiro de uma vez. Não destruíram vastas porções deles em poucas operações. Foram quase dois anos a caminho de Berlim – e com os Aliados Ocidentais pressionando a Alemanha Nazista no Mediterrâneo, na França e bombardeando os centros industriais alemães. Stálin até mesmo chegou a pedir que um terceiro fronte fosse aberto a partir do Mar do Norte, o que EUA e Reino Unido rejeitaram, preferindo o desembarque na Normandia. O resto é história.

A estratégia imperial alemã em Youjo Senki não faz sentido. Mas já reclamei dela no episódio anterior, então vamos adiante: a explosão de outro fronte inteiro também não faz sentido. Já no meio da Primeira Guerra Mundial haviam sido desenvolvidos sensores e centrais de monitoramento para detectar a atividade de escavação inimiga. Porque já era uma tática de guerra comum a explosão de trincheiras através da detonação delas usando túneis cavados por baixo. Um comandante inglês chegou a explodir um acampamento alemão inteiro assim. Mas um acampamento é diferente de, repito, um enorme fronte de guerra. Isso para não mencionar a quantidade de explosivo necessária para o feito. Sabe onde mais explosivos eram necessários? Bom, em basicamente qualquer outra munição. Sem pólvora não não há balas nem ogivas e nem, claro, explosivos. Não consigo nem começar a imaginar quantos explosivos foram necessários para uma explosão daquele tamanho. Se o Império ainda tem tanto explosivo assim não sei porque os ministros estão preocupados com o futuro da economia do país, hehe.

Mas bom, supondo que se tivesse realizado explosão de tamanho calibre, me pergunto como as tropas alemãs conseguiram atravessar o terreno arrasado logo em seguida – aquilo deveria estar muito pior que qualquer cratera lunar. Tanques passam? Talvez. Manobrando com cuidado deve ser possível atravessar um terreno super acidentado desses com um tanque. Mas e a infantaria à pé? Desculpa, era impossível que tal terra arrasada fosse prontamente cruzada como se fosse uma auto-estrada por tropas blindadas e à pé. Sem falar que para que chegassem ali tão rápido não poderiam estar tão longe para começo de conversa, e os franceses bem que procuraram mas nada encontraram. Então fica assim: não deveria ser possível escavar aquela rede de túneis sem detecção; uma vez escavados, não consigo cogitar que o Império tivesse explosivos o suficiente para explodi-los; explodindo-os, toda a enorme extensão de terra transformada em crateras e escombros não deveria ser rapidamente atravessável por tropas; as tais tropas não poderiam estar tão perto para atravessar de todo modo, mesmo que fosse atravessável, senão seriam detectadas; e tudo isso para realizar um cerco que, dando muito certo, seria apenas o começo do fim da guerra, e não a vitória automática como o anime assume. Ufa!

Acabei escrevendo mais do que esperava sobre isso, e peço desculpas caso essas coisas não te interessem tanto assim. A mim interessam muito! Não é o que mais me interessa em Youjo Senki, admito, e o título desse artigo é uma referência a isso: eu estou interessado na transformação, na evolução da Tanya. Mas nesse episódio não teve muito disso, teve? Bom, ela demonstrou preocupação legítima com sua colega de olhos de pires e cara feia, que teve que dormir em um quarto cheio de homens, e isso meio que é diferente do que ela parecia ser. Para ser razoável, contudo, não é como se Tanya, antes ou depois de ser Tanya, parecesse ser do tipo de pessoa que descarta qualquer um. Ela só descarta os que ela tem que descartar, os inúteis. Em seus primeiros anos de exército, irritada pela guerra em si e mais ainda por ter sido jogada lá por uma divindade aparentemente sádica, ela era capaz de se livrar de qualquer um que a incomodasse ou contrariasse. Pelo menos nisso ela com certeza melhorou. E acho que a preocupação dela com a Viktoriya é mais do que apenas interesse pessoal (ela é sem dúvida um soldado útil, afinal).

A guerra está acabando sim, Tanya, só não vai ser do jeito que você gostaria

E teve também o pequeno monólogo interno dela sobre a natureza da guerra e o que ela faz com os homens. Sobre como após algum tempo lançados na guerra, as pessoas começam a perder de vista os valores que as levaram para lá em primeiro lugar. E com essa elucubração toda ela revelou estar ansiosa pelo fim da guerra – e quem não estaria, não é? A vitória parece próxima e ela finalmente poderá ter a vida pacífica que sempre sonhou. Talvez possa até ter a oportunidade de se vingar de Deus de mais formas do que apenas essa? Não importa, tudo o que vier, virá após a guerra. Ela precisa acabar com isso logo. Pena que apesar das estratégias e táticas que só fazem sentido no anime, parece que a maré da guerra vai mudar. E ah, só para não dizer que sou tão chato assim: ignorando a parte de viajar dentro de mísseis, o tipo de ataque realizado para destruir o Quartel General francês faz sentido. Não apenas é possível, como pelo menos no curto prazo ele de fato tem potencial para causar a desorganização pretendida.

Da próxima vez, mata direito, Tanya. Se bem que não é improvável que ele só tenha sobrevivido por “milagre divino”, se entende o que eu quero dizer…

  1. Este episódio de Youjo foi mediano do inicio ao fim. Eu concordo contigo, a estratégia do Império não é verossímil, é impossível atrair centenas de milhar de homens, para uma armadilha, já para não falar nas vastas redes de trincheiras que esses mesmos homens defendiam. A táctica do Império, a mim parece-me uma versão falhada, de um movimento de pinça. Este movimento consiste em atrair o inimigo, para o centro de uma batalha, para depois o exército defensor o cercar pelos flancos. Isto nos séculos XVIII e XIX funcionava, mas já em pleno século XX, tal movimento não resultaria, grande parte por causa de quantidade abismal de homens que foram destacados e que combateram na primeira Guerra Mundial. Mas deixando esta questão do plano do Império, a explosão deixou-me sem palavras. Eu sabia que na Primeira Guerra Mundial, um dos lados do conflito tentou tal façanha, como tu bem referiste, foram os ingleses que tentaram essa façanha. Eu vi um documentário sobre essa explosão, e nem te passa pela cabeça o que foi necessário para a pôr em prática. Para tal explosão, foram necessários dezenas de engenheiros, centenas de mineiros, para cavarem os túneis, mais umas dezenas de peritos em explosivos, toda esta operação, foi feita com todos os cuidados, para esta não ser descoberta pelos alemães. Mas já, nessa altura, tanto os alemães como os ingleses, já tinham instrumentos para detectar, possíveis manobras de inimigos dentro de túneis, perto dos seus acampamentos e trincheiras. Quando esse mesmo comandante inglês deu a ordem de detonação dos explosivos, o acampamento alemão estava praticamente vazio, pois um dos esquadrões responsáveis de observar os movimentos do inimigo, tinha ouvido e avistado, mineiros ingleses a escavar perto do acampamento. A explosão desse acampamento, foi bem grande, deixando uma cratera bem grande no chão, mas nada comparada à explosão do anime. A versão da explosão do anime estava sob o efeito de esteróides. Os alemães também tentaram fazer a mesma coisa, contra os ingleses, mas houve um factor que não possibilitou tal coisa, os alemães não tinham cargas explosivas suficientes para provocar uma grande explosão. Mas tirando estas implicações com a veracidade do anime, a explosão foi muito boa, mais um pouco parecia que tinham lançado ali, uma bomba atómica. Sinceramente, não esperava nada, de ver o Império com tanques (que me pareceram ser, uma das variantes do Panzer III), nesta fase da guerra, já que na história real, quem introduziu os tanques no cenário de guerra moderno, foram os ingleses, com o seu Mark B. Mas ainda assim, foi uma bela cena, ver os tanques alemães, a cercar as tropas da República. Se bem que da maneira, como aquele terreno ficou depois da explosão, era impossível da infantaria o atravessar a pé, imagine-se uma grande porção de terra, cheia de lama, e restos dos corpos de soldados franceses, as tropas alemãs além de afundarem na lama, ainda apanham um choque psicológico ao ver aquelas partes de cadáveres. Mas os tanques passavam bem, sob o terreno da explosão, eles foram mesmo feitos e projectados, para se moverem em terrenos acidentados. O melhor exemplo disso, foi o tanque Mark B dos ingleses, na Primeira Guerra Mundial, eles eram capazes de passar por cima das trincheiras, atravessar a terra de ninguém (aquele caminho que separava as trincheiras) que costumava estar cheia de arame farpado, lama e crateras dos tiros de artilharia, além do factor surpresa, os soldados alemães na Primeira Guerra Mundial tinham um medo de morte quando viam os gigantes de aço (neste caso os tanques). Fiquei com um sorriso, de orelha a orelha, quando vi os lança-chamas, eles foram inventados pelos alemães e posto em uso por eles, na Primeira Guerra Mundial e mais tarde também foram usados, praticamente por todos os países envolvidos na Segunda Guerra Mundial. Agora só falta o uso de gás mostarda e máscaras de gás, para completar o cenário de guerra do anime. Por este andamento do anime, já faltou mais, para a aparição de uma bomba atómica no cenário do anime. Este episódio, a meu ver, foi aquele que mostrou o equipamento mais fiel dos soldados franceses no contexto da Primeira Guerra Mundial. Aqueles canhões de artilharia dos franceses que apareceu neste episódio, condiz muito com as peças de artilharia que os franceses usaram na Primeira Guerra Mundial, os uniformes também e a cadeia de comando de campo, foi um retrato super fiel da incompetência dos generais franceses na Primeira Guerra Mundial. Já para não falar, da fidelidade deste episódio, em mostrar a excelente qualidade dos equipamentos e peças de artilharia dos franceses, aquele soldado que colocou a cabeça de fora, deve ter aprovado a qualidade do seu capacete (o maior defeito dos capacetes de aço Adrian, é que tinham uma falha enorme no meio. que o produtor dizia que era para entrar ar, essa mesma falha não aguentava um tiro de um rifle, só mais tarde é que resolveram essa falha). Já para não falar da vergonha que eram as peças de artilharia francesas na Primeira Guerra Mundial, ela se comparadas aos canhões alemães, não eram nada. Os armamentos dos franceses eram tão, mas tão maus na Primeira Guerra Mundial, que muitos soldados franceses, quando a sua arma encravava, tinham que usar crossbows, uma arma da Era Medieval.
    Agora que o Sioux está overpower, o esquadrão da Tanya está com o destino traçado, o Grantz que o diga. Uma pequena curiosidade, a arma que o Sioux usa, uma espingarda, ela só foi introduzida na Europa na Primeira Guerra Mundial, quando os E-U.A já tinham entrado na guerra e enviado tropas para o continente Europeu. Logo não é errado assumir, que o equivalente aos E-U.A no anime, já tenha entrado no conflito, contra o Império. O Sioux está tão overpower,que consegue encantar os cartuchos da espingarda (esta provavelmente é uma Remington operada a gás). Quando o Sioux disparou contra o Grantz, fiquei na dúvida se ele usou cartuchos com com aquelas esferas pequenas, ou cartuchos de bala sólida. Só sei que o Grantz deve ter ido, desta para melhor, mas fiquei com pena dele, já que ele era o mais sincero e honesto nas suas opiniões sobre a guerra. Agora a Tanya, está em apuros, mesmo que ela ganhe do Sioux overpower, ela vai sair toda arrebentada, já que o Sioux usa munições que são capazes de trespassar os escudos mágicos. Acho que é a partir daqui, que os planos do Império caem por terra.
    Como sempre, mais um excelente artigo, de Youjo Senki Fábio. Já para não falar das tuas excelentes legendas nas imagens do artigo, eu estou de acordo com todas, principalmente da última do coronel Sioux.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Sobre a estratégia como um todo, o atrair, cercar e destruir, já estamos batendo nisso desde o episódio anterior, né? Não tem muito o que dizer. Mesmo que se obtenha sucesso em atrair o inimigo, destruir uma força militar dessa magnitude de uma vez só é impossível. Mas deixa pra lá.

      Eu já sabia porque tinha visto por aí alguns artigos falando sobre como os ingleses explodiram um acampamento alemão inteiro escavando por baixo dele, mas foi quando pesquisei para escrever esse artigo que descobri que a guerra de túneis era uma tática corriqueira nas guerras de trincheiras. Claro que raramente haviam operações tão grandes e espetaculares, mas destruir depósitos e alojamentos subterrâneos ou demolir trechos dos túneis era relativamente comum, e portanto as técnicas para evitar isso se tornaram comuns também. Baseado nisso que eu escrevi que por diversas razões uma explosão na escala como retratada nesse episódio seria impossível. Mas de coisas impossíveis Youjo Senki está cheio, não é? Vamos apenas apreciar as coisas boas desse anime, que ele as tem.

      Sobre os tanques, atravessar trincheiras é diferente de atravessar um solo lunar, hehe. As explosões ergueram montanhas onde antes haviam trincheiras a se acreditar nas cenas do anime, tanque nenhum atravessaria isso. Para valas excessivamente grandes os ingleses chegaram a desenvolver um tanque com uma ponte móvel em cima. Na verdade eles tinham uma unidade apenas de tanques modificados para executar tarefas super-específicas, como tanques com correntes presas a eixos giratórios para explodir minas antes da passagem de tropas de infantaria. Aposto que você já sabe sobre essa unidade, hehe.

      E meh, o Grantz sobreviveu.

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