[sc:review nota=4]

Não gostei do julgamento final. Não obstante, foi um bom episódio. Primeiro ficou claro que os juízes podem sim interferir no jogo, mas eles fazem isso de formas muito mais diretas, embora ainda despercebidos pelos jogadores. Não usam poderes sobrenaturais sutis para isso, o que desmente minha tese até então. Segundo que eu continuo sustentando que quem está realmente sendo “julgado” são os espectadores, não por Decim, mas cada um por si próprio, assim o resultado do julgamento no anime em si é pouco relevante para esse aspecto. Teceiro e mais importante, fiquei com a impressão que o próprio Decim não gostou muito do resultado do julgamento, ainda que ele seja o juíz. Retoma o tema da falibilidade dos juízes e da falta de humanidade do próprio Decim, e deixa claro que ele está ciente e provavelmente se preocupa com isso tanto quanto eu.

Os mortos dessa vez nunca haviam se conhecido em vida, como aqueles do OVA Death Billiards. Mas tinham coisas em comum, o que justificou que jogassem um contra o outro. Mais uma vez foi um “casal”, um homem e uma mulher. Ele, Yousuke, 24 anos, otaku com um emprego qualquer e ainda morando com os pais. Ela, Misaki, 38 anos, atriz. Ambos são espécimes perfeitos dos clichês que representam: ele é quieto, reservado, envergonhado de si mesmo, e ela é orgulhosa, vaidosa e expansiva. Mas eles não são assim apenas para dar conforto ao espectador (é mais fácil entendermos e nos identificarmos com algo que é exatamente o que esperamos que seja), eles têm histórias que justificam porque se tornaram assim. Para ambos a família foi fator determinante.

Misaki se casou cedo e teve cinco filhos, mas foi maltratada e abandonada por seu marido e por qualquer outro homem por quem se apaixonou. Uma mulher cansada das dificuldades da vida, mas que não podia simplesmente desistir porque tinha cinco filhos que ela amava para criar. Em dado momento do anime pode parecer que ela não dava a devida atenção aos filhos, mas não acho que seja verdade. Antes de tudo porque amar os filhos não significa necessariamente ser uma boa mãe. E no final de sua vida ela deixou claro o quanto trair a expectativa dos filhos a irritava. De alguma forma ela se tornou uma atriz e conseguiu criar seus filhos. Dois já eram jovens adultos quando ela morreu, os outros tinham idades variadas. Temo que ela tenha feito de tudo – tudo mesmo – para conseguir dar a eles uma vida confortável. Ficou subententido que ela pode ter até usado o próprio corpo para isso. Para quem já se apaixonou e se sofreu nas mãos dos homens que amou, o que custa ser um pouco mais pragmática sobre quem levar para a cama, não é? Não sei o que seus filhos pensavam dela, especialmente os mais velhos, mas acho que ficou claro o quanto ela fez por eles.

Yousuke viu seus pais se divorciarem cedo e nunca superou isso. Morando com seu pai, teve que vê-lo se casar novamente com uma mulher que até o fim não aceitou como sua mãe. Não fosse sua própria recusa ele provavelmente poderia dizer que tinha uma família perfeita. Mas de novo, ele nunca superou a separação dos pais e isso moldou o homem que ele se tornou. Recluso, desmotivado. Sua madrasta se esforçava para ser sua mãe de verdade, sem no entanto jamais cobrar isso. Ela esperou pacientemente que ele a reconhecesse como tal. Teria sido o maior presente da vida dela, que não teve com o pai de Yousuke um filho de seu próprio ventre: Yousuke era, no que diz respeito ao afeto, seu único e verdadeiro filho. Enquanto isso a mãe biológica de Yousuke simplesmente desapareceu. Não dá para julgá-la por isso porque nada sei sobre ela, mas o fato é que para o Yousuke ela apenas o abandonou. Sem saber como lidar com isso um dia ele pulou da janela do quarto. Yousuke se suicidou sem nunca chamar de mãe a mulher que primeiro correu até seu corpo estirado no chão e que primeiro chorou por ele.

Colocado dessa forma, se fosse para julgar baseado unicamente nos fatos em vida, é fácil dizer que Yousuke deveria ir para o inferno e Misaki para o céu. Mas se fosse mesmo fácil o Queen Decim não precisaria existir. Já foi dito no segundo episódio que apenas as memórias não são o suficiente, afinal. O jogo escolhido foi fliperama. Yousuke e Misaki jogaram contra em um jogo de luta onde cada um usou um personagem baseado em si mesmo, com seus golpes de acordo com seu estilo de vida e com especiais ocultos que diziam muito sobre o que era mais importante para cada um deles. O especial de Misaki era seus filhos atacarem em conjunto o adversário, o que no entanto tira pouca vida, pois, suponho, eles não a tivessem em tão alta estima. Mas o mais novo continuava grudado no adversário após o golpe atrapalhando seus movimentos, tornando-o uma presa fácil. Já o especial de Yousuke era sua madrasta arremessando o almoço implacavelmente contra o adversário, com grande dano. Adequadamente, o jogo terminou empatado.

O que diferenciou os dois aos olhos de Decim foi que quando expostos ao medo eles reagiram de formas bem diferentes. Yousuke foi apático quase o tempo todo. Foi apático inclusive quando Misaki enlouqueceu achando que iria morrer e arrebentou a cabeça do moleque contra a tela do fliperama até que ele caiu inconsciente. Ela tinha filhos para criar, não podia morrer, não podia pensar! Mas depois do ato consumado ela se arrependeu do que fez e chorou sobre o corpo de Yousuke. Recebendo reiteradas negativas aos seus pedidos sinceros para que Decim chamasse ajuda médica para Yousuke, ela se resignou e voltou para o jogo. Yousuke acordou a tempo de atingi-la com seu especial materno e ambos se derrotarem ao mesmo tempo, um double KO.

Yousuke e Misaki perceberam que já estavam mortos após o fim do jogo. Ela tentou agredir Decim, e depois de imobilizada por seus fios, conforme a realidade a destruía emocionalmente, ela implorou para que ele a deixasse voltar à vida para poder cuidar de seus filhos. Enquanto ela chorava por seus filhos, Yousuke chorou por nunca ter chamado sua madrasta de mãe, por ter desperdiçado a própria vida de forma tão estúpida. A resposta de Decim foi seu momento mais humano até agora: abraçou ambos e disse-lhes que haviam feito um bom trabalho. Mais sobre Decim pode ser dito nesse episódio: em mais de um momento ele demonstrou insegurança ou aparentou estar balançado pela tristeza dos jogadores. E no final ele ficou olhando com hesitação para o dispositivo que utilizou para fraudar a máquina de fliperama e extrair reações de Yousuke e Misaki. Como ela disse, afinal, o que ele havia feito além de enganá-la? Mas suponho que se Decim fosse humano a piedade que alguns momentos despertam também poderia prejudicar seu julgamento.

No final, Yousuke reencarnou e Misaki foi para o vazio. Na interpretação céu e inferno, e pela descrição do próprio Decim para o que seria o vazio, a Misaki foi a “perdedora”. Mas eu não posso concordar com isso. Sim, ela cometeu erros, agiu de forma estúpida e violenta, mas ela estava o tempo todo pensando nos filhos. Ela já havia sofrido tanto por eles, já havia se sujeitado a tanto por eles que não consigo conceber Misaki como uma má pessoa. Mas há interpretações alternativas. Pelo budismo, que é supostamente o conjunto de valores por trás de Death Parade, o objetivo final da existência é deixar de existir como indivíduo, é algo comumente descrito como o vazio – para onde Misaki foi, portanto. E reencarnar significa taxativamente que ainda se é imperfeito, falho, errado. E isso se encaixa como uma luva no tema familiar do episódio: Misaki poderia ter e tinha seus defeitos, mas ela foi a melhor mãe que conseguiu ser. Já Yousuke recusou a mãe que teve e foi um péssimo filho. Assim, Misaki não precisa mais voltar ao mundo para provar nada, ela já venceu sua provação. Yousuke, por outro lado, fez bem em reconhecer seu erro após morto, mas ainda precisa voltar e provar com gestos que ele realmente mudou.

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