[sc:review nota=5]

Me desculpe a piadinha do título, já que de cabeça-oca a Tamura nada tem, apenas não resisti. Que ela era inteligente, mais inteligente inclusive que a média dos parasitas, eu já sabia. Aliás, ela e o Migi sempre foram tão inteligentes que eu acreditava que a super-inteligência fosse uma característica inata da espécie dos parasitas. E claro, eles aprendem muito rápido, é uma adaptação necessária ao seu modo de vida, mas fora isso já vi parasitas estúpidos o suficiente nesses dezessete episódios para saber que há um limite de inteligência que a maioria deles nunca ultrapassa, e ele é bastante humano. Talvez tenha a ver com o hospedeiro, a Tamura era uma professora (de nome Tamiya) afinal de contas e o Shinichi não parecia ser um aluno ruim. Essa, contudo, é uma conclusão a que eu já havia chegado antes e apenas não havia mencionado por não ter considerado relevante. Qual o ponto desse episódio e desse artigo, afinal?

A Tamura sempre foi inteligente, desde que era Tamiya (e provavelmente desde que Tamiya era humana). Francamente, se ela se tornar a grande vilã da história acredito que a humanidade estará condenada. Nesse episódio fica claro, o que acredito que ela própria já percebeu, que ela está desenvolvendo mais do que inteligência ou habilidades de sobrevivência ou camuflagem em meio à sociedade humana. As pistas já vinham sendo lançadas (desde alguns episódios com o Migi, aliás), e esse episódio foi inteiro dedicado a isso: Tamura Reiko está desenvolvendo sentimentos. Talvez não sejam exatamente sentimentos humanos, mas são os equivalentes possíveis.

Ela foi ao encontro dos três parasitas que a atacaram, mesmo percebendo suas intenções assassinas, porque estava curiosa. Ela mesma disse isso. Claro que também era importante saber se era uma ordem superior ou se eles agiam sozinhos, mas ela diz com cada palavra que ficou curiosa. Depois durante a luta ela colocou em prática seu bem sucedido plano para derrotar os três outros parasitas e saiu correndo rindo histérica. Ela se divertia em saber que iria vencer, que eles eram inferiores a ela, que haviam cavado seu próprio túmulo, ou que o primeiro derrotado seria justamente o arrogante que dissera instantes antes que mesmo se ele estivesse sozinho ela não seria páreo para ele – e os três juntos é que não eram páreos para ela e ela sabia disso. No meio da fuga encontrou tempo até mesmo para fazer piada com humanos que tiveram a infelicidade de estarem ali naquele momento.

Mas depois ela não teve mais tempo para rir. Seu filho fora sequestrado. Ela sabe muito bem que se três parasitas ordinários não são páreo para ela, que dirá um humano sozinho, mas ela sabe também que humanos são pouco lógicos, especialistas em criar problemas e possuem força nos números de sua sociedade. Tudo isso poderia representar um risco para ela, e a lógica parasita ditaria que ela não deveria encontrá-lo. Tenho certeza que é o tipo de coisa que o Migi diria ao Shinichi no início da série: “Não vá ao encontro dele, a chance é grande de ser uma armadilha”. Mas e o bebê? “Uma vida humana é um preço baixo a se pagar”. Uma vida humana é um preço baixo, Tamura? A vida do seu bebê é um preço baixo? O detetive não pode continuar vivo, mas o mais seguro seria ela mudar de rosto, encontrá-lo em qualquer outro lugar e matá-lo silenciosamente. Mas a vida do bebê dela não é um preço baixo. Ela parece já ter entendido o conceito de diversão em um episódio anterior, mas talvez só nesse episódio ela esteja começando a entender o conceito de maternidade.

Porque ela não pode arriscar a vida de seu bebê, ela encontra o detetive Kuramori na hora e local combinados. Ela não se aproxima, não reage, apenas conversa com o sequestrador o quanto ele quer. Ele engata um monólogo sobre seu sofrimento e acaba ameaçando a parasita: iria jogar o bebê barranco abaixo, matando-o. Seria justo ele argumentava, afinal ele havia sofrido por ter perdido a família por causa dela, e agora ela perderia a dela por causa dele. Não tenho certeza se ele faria isso de todo modo, e acredito que não. Na minha cabeça foi um teste: ela o mataria de um jeito ou de outro. Se ela deixasse o bebê morrer junto, então ele morreria com a certeza de que ela e todos os parasitas são apenas monstros e o bebê acabaria morrendo cedo ou tarde de qualquer forma. Se ela salvasse o bebê ele pelo menos poderia morrer sabendo que, talvez, o mundo não está perdido. A vida dele já havia acabado quando perdeu a própria família, então entre ser um vivo apenas por formalidade ou morrer de uma vez, ele tomou a decisão de morrer tentando desvendar o último mistério de sua vida de detetive. E o que ele descobriu, o que Tamura fez, foi salvar o bebê sem pensar duas vezes.

O que ela sentiu ao ver seu filho sendo ameaçado? Não pode ter sido apenas a vontade de matar normal de sempre e salvar o bebê foi apenas uma coincidência? Migi garante que não: naquele momento ele sentiu um sinal mais forte do que jamais havia sentido um parasita emitir. Esse episódio e o anterior foram categóricos em dizer que o mais poderoso sinal de um parasita é seu desejo de matar, mas Migi se sentiu confuso, então esse não foi o caso. Ele ainda não sabia, mas naquele momento Tamura sentiu o instinto de proteção maternal. Se quiser, chame genericamente de “amor”. E ao que tudo indica isso é mais forte que o simples desejo de matar. Naquele momento um enquadramento nos olhos indicou que algo especial estava se passando na cabeça dela. Também durante a luta contra os três parasitas no começo do episódio isso aconteceu, mas não sei dizer qual a correlação exata entre as duas situações. Talvez seja apenas que em ambas ela estava experimentando sentimentos incomuns à parasitas.

O Shinichi teve participação apenas secundária nesse episódio, quase residual. Murano, seu interesse romântico, participou de forma muito mais visível: ela visitou mais uma vez a casa dele, encontrou com a Tamura, conversou com ela, viu o Shinichi dentro de um ônibus, o perseguiu, encontrou a Tamura de novo e a perseguiu também, indo parar acidentalmente no mesmo parque onde Shinichi e Tamura estavam. Ela não trombou com ninguém ali dentro ainda, mas me parece seguro dizer que se ela continuar seguindo Shinichi temerariamente ela acabará se metendo em encrenca, como a Kana também se meteu. Será que se e quando isso acontecer Shinichi chegará a tempo?

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