Semana passada escrevi um artigo com nome parecido, então agora estou dando uma de espertão para falar desse episódio e do outro lado do que falei semana passada. Para começar provocando, no artigo anterior eu basicamente argumentei que impedir os humanos de guerrearem era um atentado a seu livre-arbítrio, mas se vivemos em sociedade e tudo o que fazemos interfere na capacidade de escolha de outras pessoas, não estamos todos sempre atentando contra o livre-arbítrio de alguém? Onde se traça a linha a partir de onde dissemos que é “interferência demais” e consideramos imoral?

Parece que usar magia para impedir guerras é imoral. Para ser justo, os céus não querem que Maria pare de impedir guerras, apenas que não use sua magia de forma visível na frente de várias outras pessoas. Mas de resto, há várias bruxas interferindo de formas sutis no resultado das batalhas, e quando Maria estava apenas usando Artemis para desarmar a vontade de lutar dos comandantes com sexo o céu parecia não se importar. Mas não é como se eu tivesse inventado essa questão também: tanto o arcanjo Miguel quanto o Cernuno, usando palavras diferentes, a perguntam se ela não estaria sendo prepotente demais querendo impedir todas as batalhas do mundo apenas porque elas são uma coisa ruim e ela não gosta disso, e se ela não estaria sendo hipócrita impedindo apenas as batalhas que ocorrem próximas a ela. A questão moral de fundo sobre a interferência dela existe, é real. Então, voltando ao começo: se usar magia para impedir guerras é imoral, o que dizer de quem usa o poder de instituições como a nobreza ou a Igreja para causar a guerra ou guiar seus acontecimentos? Na falta de resposta, porque o anime nunca trata dessa questão, a minha hipótese é que a natureza desses poderes impede que os homens hajam totalmente por vontade própria. As instituições são suportadas por vários homens, e ao fim e ao cabo representam grosso modo a síntese de suas vontades coletivas. Já uma bruxa e sua magia representa apenas a si mesma: em escala de prepotência e egoísmo Maria ganha de lavada de Bernard, Guillaume, de franceses e ingleses.

Mesmo quanto a “fazer o bem” todos eles empatam. Maria acha que acabar com todas as guerras é o bem. Bernard e Guillaume acham que ganhar essa guerra para a França é o bem. Bernard, adicionalmente, acha que eliminar ou neutralizar Maria é o bem, talvez até maior que o fim da guerra. Ora, se a França ganhar, a guerra acaba, então de certa forma há um pequeno espaço para convergência de interesses, e sem matar nenhum inglês (porque ela não ajudaria do contrário) Maria é enganada a ajudar os franceses a armar uma emboscada para as tropas inglesas em fuga. Independente disso, Maria é jovem e imatura, então diante de todas as dificuldades que ela vêm enfrentando e as condições complexas que se lhe apresentam é normal que ela comece a duvidar um pouco de si própria. Quando descobre que Joseph fala sobre ela para outras pessoas e mais ainda quando Joseph esconde uma declaração de amor (que ela não entendeu) dentro de um pedido de ajuda na guerra ela trava. Maria é só uma adolescente, afinal, e uma bem inexperiente nas coisas da vida (é virgem, o que é incomum para bruxas, aparentemente). Olhando apenas para esse microcosmo de desenvolvimento psicológico da Maria, Junketsu é quase como um anime de garota mágica sem glitter e com problemas de amadurecimento reais.

No final, sem saber distinguir o certo e o errado e sem alguém em quem confie para guiar-lhe, a pergunta que bate fundo no coração de três personagens chave é: o que você quer fazer? Galfa deu o exemplo no episódio anterior. Ele tem uma ambição e por ela não abre mão de nada, mesmo quando estiver errado e mesmo que isso possa lhe custar a vida. Assistir a determinação de Galfa deixou Joseph e Maria ainda mais confusos. Joseph apenas não sabe o que quer fazer. Durante toda a sua vida foi um servo, e apenas ocupou o lugar que um dia foi de seu pai. Ele nunca tomou decisão nenhuma. Até mesmo Maria, que ele ama, ele só conheceu enquanto cumpria ordens e a maioria das vezes que a encontra é porque está cumprindo ordens. Ele já disse seu sonho vagamente alguns episódios atrás, quando falou que queria constituir família. Mas como ele pretende fazer isso? Quando? Com quem? Com Maria, talvez? Ele já teria se declarado à Maria se não fosse a maldição que irá tirar o poder mágico de Maria se ela perder a virgindade? Joseph sabe que quer alguma coisa, se sente desconfortável, mas não sabe o que ele quer. É por isso que ele diz que quer ajudar Maria: a falta de um sonho próprio o faz se agarrar ao sonho uma outra pessoa, muito importante para ele. Na circunstância em que ele disse isso, contudo, ficou parecendo à Maria que ele apenas queria ajuda na guerra contra os ingleses.

A protagonista Maria é outro personagem tendo sua determinação posta à prova. Ela quer acabar com as guerras? Isso é certo? Ela gosta de Joseph, como reagir? No final ela só age nesse episódio quando descobre que o pai de Ann foi mais uma vez para o campo de batalha. Ela não sabe se é certo acabar com a guerra, mas ela tem certeza que não quer que Ann fique triste com a perda do pai. O personagem que mais impressionou nesse episódio, contudo, foi Ezequiel. Ela já vinha sendo enganada por Maria e seus familiares de forma bastante patética, eu pretendia até reclamar da inação dela, pois não fazia sentido. Noutro artigo, me perguntei se ela não hesitaria após desenvolver algum tipo de sentimento em relação à Príapo. Nos dois casos eu a subestimei. Ela está em situação parecida com a de Joseph: ela tem seus deveres para cumprir e desde que chegou ali sua missão era clara. Ela até mesmo acredita que essa missão é justa e trará o bem. Mesmo assim, ao se envolver com os demais personagens e ao ver o mundo mais de perto, ela começa a se questionar. Foi com ela que Ann deixou o recado para Maria pedindo que ajudasse seu pai. Ezequiel precisou fazer um contorcionismo lógico-mental para se convencer que dar o recado era diferente de ajudar Maria, e portanto ela podia fazer isso. No entanto, é óbvio que ela não deseja que o pai de Ann morra, e assim, de algum modo contrário ao que diz seu senso de dever e noção de certo e errado, ela quer que Maria interfira. O paradoxo entre as duas posições a está pressionando, e muito mais depois que Miguel apareceu para ela para lembrar-lhe de sua missão, que aparentemente envolve ela própria matando Maria. Não só ela não tem mais certeza que o que Maria faz é errado (ainda que continue tendo certeza que a ordem que recebeu é boa e justa) como também desenvolveu afeto genuíno pelas pessoas com quem está vivendo.

Fora tudo isso, o acontecimento notável do episódio foi Bernard ter descoberto que Maria é virgem (como sua xará mãe de Deus) e que ela perderá seus poderes mágicos quando fizer sexo. Ele ri loucamente após descobrir isso. Ele chora de tanto rir. Não faço ideia do que se passa na cabeça desse monge. Outra coisa digna de nota é que a energia disforme que compõe Cernuno parece estar constantemente ao redor da casa de Maria, mesmo em sua ausência. Curiosamente, coincidentemente ou não, ela desapareceu no instante imediatamente anterior à chegada de Miguel, quando o arcanjo foi até lá relembrar Ezequiel de seu dever. Eu gostei desse episódio e estou gostando do anime, há muitas possibilidades para a história e não estou conseguindo sequer formular teorias para seu desenvolvimento.

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