Além da dualidade homem ou monstro, que se desdobra em certo ou errado, herói ou vilão, entre outros, um tema importante mas que passa um pouco despercebido por ser ofuscado hora pelo tema principal, hora pelas cenas de ação (ultimamente horríveis), é a moral maquiavélica. Afinal, os fins justificam os meios? Kaneki abandonou o Anteiku e se tornou um canibal para se tornar mais forte para poder proteger o Anteiku. O Mado era um monstro maquiavélico. A escritora Sen Takatsuki e a líder da Aogiri Eto (que eu acredito que são a mesma pessoa, só estou esperando o anime confirmar) claramente usam e manipulam outras pessoas e ghouls para quaisquer objetivos ainda obscuros que elas tenham em mente. Além disso, parece que a própria narrativa está sendo escrita dessa forma. Os fins justificam os meios! A história é uma droga ou coisas que não fazem sentido nenhum acontecem porque dessa forma o autor consegue colocar os personagens nos lugares onde ele quer que eles estejam. Se você ainda estava em dúvida se o maquiavelismo é mesmo imoral e errado Tokyo Ghoul deve ser o bastante para te convencer: você está sofrendo essa história confusa e perdida porque o autor se tornou fanzineiro de sua própria história. Ele imaginou um final super bacana e está fazendo qualquer coisa para chegar lá.

Quer o exemplo maior desse episódio? Por que mesmo a Hinami saiu para tomar café com o Shu? Ele a convidou, imaginei que tivesse segundas intenções (ele sempre tem, Tokyo Ghoul me ensinou isso), e daí eles têm uma conversa bastante inútil sobre palavras em inglês e flores. E daí ele sai sem mais nem menos porque ficou, sei lá, com abstinência do cheiro do Kaneki e foi ao banheiro cheirar o lenço com o sangue dele! É tão sem propósito, inconsequente e sem sentido que a cena sequer tem um fim. Ele não volta para a mesa, ele não se despede da Hinami. Por que então houve essa cena? Para que a Takatsuki aleatoriamente passasse por aquela rua no exato instante em que o Shu saiu da mesa e visse a Hinami lá dentro. Como pode tamanha coincidência? Como ela estava naquela rua e como passou naquele momento? Ficção é feita de suspensão de descrença, onde ignoramos alguns detalhes que não fazem sentido (como som no espaço) ou coincidências impossíveis ou que ocorrem com frequência muito maior do que na vida real porque isso torna a história mais interessante ou divertida. Quando a história não é divertida ou abusa da suspensão de descrença, você faz um Tokyo Ghoul ?A da vida. Uma coleção fenomenal de coincidências e ações sem sentido só para que a conversa entre a Hinami e a Takatsuki fosse possível. E ainda que não seja uma conversa inconsequente, ela não é assim tão importante também, o que só aumenta meu desespero com a fraqueza desse enredo.

Outra fenomenal foi na cena em que a Hinami vai chamar a Touka. Sério que a Touka não tem um celular? Eu não lembro se já a vi com celular, mas poxa, é uma história contemporânea e todo mundo sabe que hoje em dia japoneses já nascem com celulares. Tudo bem, ela é um ghoul filha de um ghoul, não é exatamente um exemplo de japonesa normal, mas já há algum tempo ela está vivendo no Anteiku, um café de ghouls cujo propósito número um é tornar seus membros o mais humanos normais quanto for possível. Ela vai para o colégio, quer entrar na faculdade, não existe explicação nenhuma para ela não ter um celular. Ou ela tem e a Hinami que foi uma imbecil? É uma possibilidade também. Acontece que a Hinami não costuma ser imbecil, muito pelo contrário. Quando a Touka derrotou o Mado a Hinami mostrou um nível de maturidade (que pressupõe inteligência) muito acima do normal para a idade dela. A Hinami não é uma imbecil e a Touka não é uma anormal, no entanto ou a Hinami agiu como uma imbecil ou a Touka é uma anormal em apenas um único aspecto, o suficiente para forçar a Hinami a ter que correr até o colégio da Touka para chamá-la. E tudo para quê? Apenas para que a Touka não encontrasse o Kaneki dentro do Anteiku a tempo e tivesse que correr atrás dele, alcançando-o dramaticamente em uma dramática passarela. Aliás, mesmo sem celular, a Hinami poderia ter pedido para os outros membros do Anteiku segurarem o Kaneki até a Touka chegar, não é? Claro que o Kaneki poderia ignorá-los, mas havia a chance de que ele esperasse. E fazer esse pedido não tomaria dois segundos do tempo dela. Mas no final Tokyo Ghoul entregou outra sequência de ações que não fazem sentido nenhum só para obter o fim desejado.

De importante no episódio só a movimentação da Takatsuki mesmo. Eu acredito que ela seja a Eto da Aogiri, então tudo o que vou dizer tem como base essa premissa. O Kaneki se frustrou em sua tentativa de se tornar mais forte canibalizando outros ghouls e agora está balançando. Não apenas ele não é mais útil em combate por não ter controle de seus kagunes como psicologicamente ele acredita que possa ter fracassado e está considerando abandonar a Aogiri. Claro que a Eto não deseja isso, ela não quer perder seu precioso meio-ghoul. Então, como a escritora Takatsuki, ela faz a CCG virar sua atenção para o Anteiku. Duvido que a essa altura eles desconfiem que o lugar é um antro de ghouls, mas sem dúvida desconfiam, no mínimo, que através do Anteiku podem encontrar o Kaneki. Com o Anteiku sob os olhos da CCG todos os ghouls lá, que o Kaneki se sacrificou tanto para proteger, estão subitamente sob grande risco. Isso pode ser uma forma de forçar o Kaneki a continuar andando em frente e trabalhando como um peão nos planos maquiavélicos da Eto.

Discussão