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Felizmente, Galfa não estuprou Maria. Infelizmente, ele a deixou sem magia de alguma outra forma não revelada no episódio. É temporário, mas mais do que o suficiente para ela ser capturada, espancada e presa. Aguarda julgamento por heresia em uma cela minúscula. Seus familiares, Joseph e Ezequiel estão, como era de se esperar, fazendo tudo o que podem para reavê-la, mas o mais surpreendente é a participação de Viv. Não surpreendente por ela ajudar, mas a determinação com a qual ela está decidida a ajudar Maria é um pouco inesperada, me faz pensar se não faltou desenvolvimento nessa frente. Mas o ponto alto do episódio durou pouco tempo, e foi a conversa que Bernard manteve com Maria presa, quando as palavras da bruxa rejeitando o divino fizeram o religioso passar brevemente por boa parte do pensamento cristão da época até que ele teve uma epifania como se finalmente tivesse entendido uma verdade mais profunda sobre a essência de Deus e da fé.

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Logo no começo do episódio Galfa ataca Maria, que estava convenientemente sozinha em casa enquanto todos haviam saído para fazer outras coisas. Ele usou um incenso para atordoá-la e a força para amarrá-la e fazer algo muito parecido com estupro até onde foi possível ver (não muito, felizmente), e mais tarde ele própria confirmaria não tê-la estuprado. Mesmo assim, ele a impediu de usar magia com sucesso, ainda que o efeito seja temporário e deva cessar em algum momento, talvez em alguns dias. Por que ele não a estuprou? Ele não gosta dela e isso é fato. Como um mercenário, uma pessoa que depende da guerra para viver, Maria já o atrapalhou vezes demais para ele ter qualquer simpatia pela bruxa. Só existem duas hipóteses: ou Galfa tem algo contra o estupro em si, ou ele apenas não quis “sujar” a garota que seu amigo (provavelmente melhor amigo) ama. Como Guilherme de Ockham foi citado, tomo a liberdade de usar sua navalha e eliminar a teoria mais complexa: acredito que Galfa poupou Maria de humilhação maior por consideração a Joseph.

Galfa não foi o único antagonista a me surpreender nesse episódio. Tampouco foi o que mais me surpreendeu, esse posto está reservado para o padre Bernard, mas dele falarei depois. Quando Joseph foi pedir ao conde Guillaume que poupasse Maria, o senhor feudal irritou-se profundamente como não poderia deixar de ser. Ele tem no mínimo os mesmos motivos de Galfa para isso, mais um punhado de razões políticas e sabe-se lá mais o que ele lamente que seja culpa direta ou indireta de Maria. Joseph é um mero vassalo, até onde posso ver não especialmente rico ou importante. De fato, sua principal função é servir de mensageiro. Ele é tipo um office-boy da Idade Média. Se um office-boy hoje em dia pedir para seu chefe voltar atrás em uma decisão (adicionalmente comprando briga com outro departamento no processo) o mínimo que se espera é um “não” e um chefe irritado dependendo do quão insistente o funcionário for. Transporte isso para a Idade Média, e o mínimo que eu esperava é que Joseph fosse preso, ainda que por um curto período. Mas Guillaume não o prende. Ele está transtornado, visivelmente irritado, mas nada faz contra Joseph, apenas o aconselha que pare de insistir. E quando Joseph desiste, embora ainda irritado, o conde tem a nobreza de tentar acalmar seu servo garantindo que Maria não será morta. Ele não tem exatamente controle sobre isso, mas me pareceu que no mínimo ele acreditava nas próprias palavras. Não havia razão nenhuma para ele fazer isso (se Joseph insistisse de novo ou fizesse algo pior, bastaria prendê-lo ou puní-lo de qualquer forma ou mesmo matá-lo, não vou acreditar que o conde não pode substituí-lo ou que há qualquer coisa que o impeça de dar um jeito no mensageiro rebelde), e no entanto ele fez o que ele pôde para, tanto quanto o possível, acalmar Joseph. E teve o Arcanjo Miguel. Que continuou sendo o filho da mãe de sempre, nenhuma novidade e nada surpreendente quanto a isso.

E chego ao ponto alto do episódio: o padre Bernard. Pelo comportamento dele noutros episódios, que é o suficiente para eu classificá-lo como “lunático”, era apenas esperado que ele sugerisse que Maria fosse morta logo. Mas Gilbert, o inquisidor nomeado, explica a ele que há um procedimento a ser realizado e que deve ser respeitado. Perfeito. Gilbert representa mais a Igreja Romana da época do que Bernard e seus apedrejamentos (nunca ouvi falar de apedrejamentos oficiais conduzidos por autoridades eclesiásticas durante a Idade Média), e esse contraste torna a loucura de Bernard mais evidente. Ou tornaria, se o anime tivesse mais tempo de exibí-la. De todo modo, Bernard vai conversar com Maria na cela. Ele está curioso com o fato de Maria ter dado um sinal para que Martha a apedrejasse, conforme o padre a constrangia a fazer. Maria explica o óbvio: aquilo era tudo o que ela podia fazer para aliviar o sofrimento de Martha naquele momento. Eles falam algumas groselhas brevemente e Maria diz o que ela sempre diz: se Deus existisse o mal não deveria existir. Se o mal existe então Deus não existe e o Homem tem de fazer as coisas por conta própria. Bom, ela não usou essas palavras mas esse foi o significado. Teologicamente Maria está errada, e Bernard adequadamente a corrigiu. Mas então Maria retruca que uma onisciência que nada faz vale tanto quanto esse nada e é portanto igual a ele. Isso é só outra forma de questionar a existência de Deus e Maria falou isso nesses termos por puro desaforo, mas dessa vez algo entrou em movimento na cabeça de Bernard.

Enquanto Bernard pensava alto, listando alguns pensadores cristãos influentes, ele chegou a uma conclusão que talvez abrace tanto sua necessidade de fé quanto o pragmatismo de Maria. Ele começa citando Santo Tomás de Aquino, que na Quinque viae provou a existência de Deus usando a razão. O Quinque viae são cinco argumentos que entre outras coisas afirmam que as coisas se movem porque algo as pôs em movimento, e seguindo a cadeia de coisas que colocaram outras coisas em movimento fatalmente se chega em Deus, que foi quem primeiro colocou algo em movimento, e que a tendência à ordem vista na natureza não tem outra origem senão Deus. Em outros textos, Tomás de Aquino também definiria o que Deus não é, e entre essas coisas ele disse que Deus não é mutável. Isso é importante para a conclusão de Bernard depois. Em seguida, Bernard cita Guilherme de Ockham, que tem vários trabalhos em lógica e pensamento da ciência e quase foi contemporâneo ao próprio Tomás de Aquino, porém em sua fé não poderia ser mais diferente. Ockham acreditava que a verdade teológica é revelada, inacessível através da razão, assim é impossível provar racionalmente, como Tomás de Aquino fez, a existência de Deus. É matéria exclusivamente de fé. Ockham e Tomás de Aquino foram teólogos católicos quase contemporâneos, de forma que a contradição entre suas ideias não poderia ser mais evidente. Por acaso, a Guerra dos Cem Anos, período histórico no qual o anime se passa, ocorreu imediatamente depois da vida e da morte desses dois gigantes do saber ocidental. Eu não sei dizer se suas ideias foram confrontadas na época, mas é verossímil dizer que sim em um trabalho de ficção. Bernard resolveria essa contradição negando a imutabilidade de Deus. Ele não entra em detalhes sobre como isso resolve qualquer coisa, contudo. No final, ele abraça o Pelagianismo, e deve ter sido isso o que deixou Gilbert preocupado, já que Pelágio foi considerado um herege. Segundo Pelágio, Deus existe sim, mas o homem é livre para buscar a salvação sozinho, independente da graça de Deus. Esse conceito abraça e aceita o comportamento de Maria.

E de volta à questão da imutabilidade, porque ela realmente me incomoda, acredito que não haja explicação plausível na cabeça de Bernard mesmo, e sim que isso seja uma ferramenta de enredo para introduzir algum elemento e fazer a história andar. Já conhecemos Cernuno e sabemos que ele não é o Deus da Igreja do Céu, ao mesmo tempo que sabemos que ele já foi sim um poderoso e influente deus. O foco na mutabilidade talvez indique apenas que, em Junketsu no Maria, existem vários deuses e qual é o mais poderoso pode mudar a depender das circunstâncias. Se essas cirtunstâncias dependerem da fé humana, isso explicaria porque Miguel se incomoda tanto com o comportamento de Maria, porque ela publicamente coloca em cheque a fé em seu Deus. Só o que eu não entendo muito bem assumindo isso é a insistência de Miguel e Ezequiel em diferenciarem a Igreja da Terra da Igreja do Céu: se ambas adoram o mesmo Deus, eu esperaria mais, como dizer, colaboração, ou pelo menos apoio.

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